(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Há datas que não são meros dias de calendário, como são o Natal, o Carnaval, a Páscoa, pois convocam-nos às memórias, às raízes, às tradições e cultura, enfim à nossa identidade.
Portanto, é natural e compreensível e até louvável que, à volta do imaginário coletivo e valor que traduzem, as Câmaras Municipais mobilizem recursos para organizar eventos para afirmar o território, dinamizar o comércio local e fortalecer o turismo, numa estratégia de valorização territorial e económica.
Contudo, uma reflexão se impõe: quando dois, três ou quatro municípios organizam eventos semelhantes nas mesmas datas, estamos a afirmar identidade ou a fragmentar o impacto? Estamos a somar forças ou a disputar públicos? Não estaremos, inadvertidamente, a enfraquecer aquilo que pretendemos fortalecer?
Talvez as respostas tenham diferentes perspetivas e todas corretas e verdadeiras na mesma. No entanto, eu inclino-me, nesta fase, para a constatação de que, em datas próximas ou coincidentes, com diferentes concelhos a promoverem eventos de natureza semelhante, ocorrerá, necessariamente, uma fragmentação de públicos, de investimento e de impacto mediático. Em vez de soma, lá está, produz-se dispersão.
Neste sentido, à legítima afirmação da autonomia municipal, importaria introduzir alguma racionalidade estratégica e cooperação estruturada, uma capacidade de articular interesses sem abdicar da sua própria identidade.
Adaptando o que um dia disse Aristóteles, “o todo é necessariamente anterior à parte” significa que a prosperidade de cada município está também vinculada à vitalidade do conjunto regional, percebendo o território como um espaço coeso, articulado e estrategicamente inteligente, para todos beneficiarem.
É neste enquadramento que se coloca a questão do diálogo intermunicipal. Poderia a Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes (CIM-TTM) assumir um papel mais ativo de coordenação estratégica? Não como instância hierárquica, mas como plataforma de convergência, com calendário partilhado e planeamento integrado? A autonomia não é antagónica da colaboração, pelo contrário, amadurece quando se reconhece a interdependência.
Por outro lado, traduzindo o pensamento de muitas pessoas, por que razão não se concebe, à escala da CIM-TTM, um grande evento anual, estruturante e agregador? Um evento que possa unir cultura e património, turismo, ecologia e sustentabilidade, inovação tecnológica, produtos endógenos (o azeite, a castanha, a carne, o mel, o vinho, etc), a gastronomia e até setores industriais distintivos? Um evento com conferências nacionais e internacionais, capaz de projetar a região como laboratório de inovação territorial e de excelência rural?
Num tempo em que as regiões de baixa densidade competem por investimento, talento e notoriedade, a cooperação estratégica é mesmo uma necessidade. A nossa competitividade territorial aumentaria pela capacidade de trabalhar em rede. Como se depreende do 9.º Relatório sobre a Coesão Económica, Social e Territorial (2024) da Comissão Europeia “a governação multinível eficaz e a cooperação entre autoridades locais e regionais são determinantes para maximizar o impacto das políticas públicas e fortalecer a resiliência territorial”.
Para cumprir este desafio, que não é apenas organizativo, mas político, exige-se visão, confiança institucional e cultura de colaboração. Exige que passemos da lógica do evento isolado para a lógica do projeto partilhado, para deixarmos de perguntar “quem organiza?” para perguntar “que impacto regional queremos gerar?”.
Se o território for pensado como comunidade, a articulação deixa de ser ameaça à identidade e torna-se ampliação da sua força, descobrindo que, quando se trabalha pelo bem comum do território e das pessoas, ninguém perde protagonismo e todos ganham escala.

Sem comentários:
Enviar um comentário