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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 18 de julho de 2026

Cientistas apelam ao reconhecimento urgente de nova espécie de coelho em Portugal e oeste de Espanha

 A Península Ibérica alberga duas linhagens distintas de coelho, sendo que a espécie presente no território português está em forte declínio e ameaçada de extinção, afirma equipa internacional de investigadores.

Coelho-ibérico (Oryctolagus algirus). Foto: Daniel Burón / wildnatfilm.com

Um novo estudo apela ao reconhecimento de uma nova espécie de coelho para a Península Ibérica, presente em Portugal e no oeste espanhol – o coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) – com implicações para as políticas de conservação e de gestão deste mamífero ameaçado. O artigo científico foi publicado esta semana na revista Biological Conservation, redigido por 12 cientistas de Espanha, Portugal e Reino Unido.

Atualmente, a Ciência reconhece apenas uma única espécie de coelho em todo o mundo: o coelho-bravo, também chamado de coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus), que é originário da Península Ibérica e foi sendo introduzido no resto da Europa e noutros continentes como a Oceania e ainda em cerca de 800 ilhas. Em muitos desses locais é hoje considerado uma espécie invasora, mas não em Portugal e Espanha, onde é uma presa chave para a sobrevivência de muitas outras espécies, como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica.

Os registos taxonómicos atuais consideram ainda que o coelho-bravo se divide em duas subespécies presentes na Península Ibérica: o Oryctolagus cuniculus cuniculus e o Oryctolagus cuniculus algirus. Enquanto que a primeira foi sendo domesticada e foi transportada pelos humanos para muitas outras regiões do planeta, a outra subespécie manteve-se quase exclusivamente no sudoeste da Península Ibéric, com introduções limitadas apenas na Madeira e Açores, nota o estudo agora publicado, liderado pelo Instituto de Estudos Sociais Avançados (IESA-CSIC), em Espanha.

“Propomos o reconhecimento formal do O. algirus como a linhagem ibérica, mantendo o O. cuniculus como a linhagem de coelho-bravo distribuída no nordeste da Península Ibérica e sul de França e introduzida noutros locais do mundo”, apela a equipa de investigadores, que propõe também que “uma reavaliação taxonómica formal deve ser priorizada”.

Divididos pelo gelo há quase 2 milhões de anos

“Os dois coelhos, que se consideravam até agora subespécies do coelho-bravo, divergiram há cerca de dois milhões de anos depois de ficarem isolados em dois refúgios glaciares, em extremos opostos da Península Ibérica: um no vale do Ebro (no nordeste espanhol) e outro no Golfo de Cádiz (no sudoeste de Espanha)”, detalha uma nota de imprensa sobre o novo estudo, divulgada pelo IESA-CSIC.

Foi neste período da história da Terra conhecido como Pleistoceno, numa altura em que o Hemisfério Norte estava quase todo coberto por gelo, que as duas linhagens se começaram a distanciar em termos evolutivos. Mais tarde, ambas expandiram-se para outras áreas da Península Ibérica, incluindo uma zona de contacto próximo que agora divide o território peninsular em duas partes, indica também a equipa.

Para sustentar a existência das duas espécies, os investigadores basearam-se nos resultados de outras investigações já realizadas. “Evidências genómicas obtidas a partir do DNA mitocondrial e dos cromossomas sexuais mostram que as duas linhagens evoluíram separadamente desde o Pleistoceno, permanecendo reprodutivamente isoladas ao longo de toda a sua história evolutiva”, indica uma nota de imprensa divulgada esta semana pelo CIBIO (Universidade do Porto), cujos cientistas participaram também no estudo agora divulgado

Também as características físicas, sustentam os investigadores, demonstram que o coelho-ibérico é diferente do seu congénere: o primeiro é geralmente “mais pequeno, relativamente mais escuro, menos social e ocorre em densidades menores”, descrevem. Além disso, “amadurece mais cedo, produz menos crias e tem uma trajetória diferente de crescimento”. E acrescentam que até mesmo os parasitas e os microbiomas intestinais encontrados nestes dois coelhos, tal como a composição da carne, são diferentes entre si.

Duas espécies de coelho, mas só uma ameaçada de extinção

Outra das evidências que justificam esta conclusão, considera a equipa, é que praticamente não existe reprodução cruzada entre as duas linhagens. Isto apesar das numerosas translocações de exemplares de coelho-bravo para as áreas onde está presente o coelho-ibérico, no âmbito de programas de reforço populacional ou para apoiar a conservação de outros animais ameaçados, mas também com fins cinegéticos (caça), indica o estudo. Apesar disso, “os híbridos mantêm-se circunscritos à zona de contacto”.

“Já não é possível gerir as populações de coelhos na Península Ibérica como se constituíssem uma única entidade biológica. Reconhecer estas duas espécies é fundamental para desenvolver medidas de conservação adequadas e evitar que uma linhagem evolutiva única continue o seu declínio”, sublinha Nuno Ferrand, diretor e investigador do CIBIO e um dos autores.

Desde logo, porque provavelmente apenas o coelho-ibérico – presente em Portugal e numa parte de Espanha – estará hoje ameaçado de extinção, indica também o estudo agora publicado. Embora as duas linhagens (coelho-bravo e coelho-ibérico) tenham sofrido grandes declínios populacionais ao longo do século XX, “devido à perda de habitat e a doenças como a mixomatose e a doença hemorrágica”, mais recentemente seguiram caminhos diferentes: os números de coelho-bravo “mantêm-se estáveis ou estão a aumentar a nível local, em especial em paisagens agrícolas”, enquanto que o coelho-ibérico “continua a declinar” por quase todo o território português e no oeste e sul de Espanha.

Se os dois coelhos fossem avaliadas de forma independente, afirmam os investigadores, o coelho-bravo seria provavelmente Pouco Preocupante e o coelho-ibérico ficaria classificado Em Perigo – ou seja, em risco de extinção, “por estar a sofrer um declínio severo e continuado”.

Ajustar períodos e quotas de caça

De acordo com o CIBIO, o novo estudo “fundamenta a necessidade de transformações, como o ajuste dos períodos e quotas de caça, reconhecendo que a dinâmica demográfica mais lenta do coelho ibérico o torna vulnerável à sobre-exploração e que a proibição imediata da transferência de espécimes de uma linhagem tão divergente através da zona de contacto estável que divide as duas espécies deve ser tida em consideração”.  

Numa próxima fase, a equipa de investigação tem como objetivo focar-se no desenvolvimento de protocolos práticos de identificação no campo e na delimitação fina da zona de contacto geográfico entre as duas espécies.

“Os investigadores esperam também que estas conclusões sensibilizem as comunidades de caçadores, os gestores ambientais e os decisores políticos para a urgência de desenhar planos específicos de recuperação para o coelho ibérico”, acrescenta este centro de investigação ligado à Universidade do Porto.

“Chegar a este ponto após quatro décadas de investigação é particularmente gratificante. Ver a ciência traduzir-se em consequências concretas para a conservação de uma espécie tão importante do ponto de vista ecológico, social e económico constitui um marco muito especial”, conclui Nuno Ferrand.

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