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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 16 de agosto de 2026

As lendas e as histórias do Nordeste Transmontano


 O Nordeste Transmontano é uma terra de montes agrestes e de vales profundos, onde a paisagem guarda memórias ancestrais. Desde tempos imemoriais, as gentes desta região foram transmitindo, de boca em boca, histórias e lendas que misturam realidade, fantasia e simbolismo. Estes relatos, muitas vezes narrados à volta da lareira em noites de inverno rigoroso, não eram apenas formas de passar o tempo, eram também lições de vida, modos de transmitir valores e explicações para fenómenos que a razão da época não conseguia compreender.

Entre as figuras mais presentes no imaginário popular estão as bruxas e as feiticeiras, mulheres que, segundo as lendas, tinham o poder de lançar maldições, transformarem-se em animais ou reunirem-se nas encruzilhadas durante as noites de luar. Muitas aldeias de Bragança, Vimioso, Vinhais, Miranda do Douro, praticamente em todas as aldeias do nosso distrito, ainda recordam histórias de “feiticeiras” que causavam doenças ao gado ou traziam desgraças às famílias, obrigando os camponeses a recorrer a rezas e benzedeiras para afastar o mal.

Os lobos são também protagonistas das narrativas transmontanas. Antigamente abundantes na região, eram vistos tanto como ferozes inimigos que ameaçavam os rebanhos, como criaturas míticas, dotadas de astúcia e força sobrenatural. Em algumas histórias, o lobo surge como um ser encantado, que guardava tesouros escondidos, ou até como castigo para almas penadas. O seu uivar, fazia eco pelas serras, alimentava o imaginário popular e dava origem a contos de terror e respeito.

Outra figura lendária é a do diabo, que aparece nas lendas disfarçado de homem elegante ou de animal, e oferece riquezas fáceis em troca da alma. O povo, profundamente religioso, usava estas histórias como advertência contra a ambição desmedida e a falta de fé.

Mas nem todas as lendas do Nordeste Transmontano são sombrias. Existem também relatos de encantamentos e mouras encantadas, belas mulheres ligadas a fontes, castros e penedos, que apareciam nas madrugadas de São João, e ofereciam riquezas a quem quebrasse o feitiço com coragem e coração puro. Estas narrativas ligam-se às origens antigas da região, marcadas por tradições celtas e romanas.

As festas populares, como o Entrudo Chocalheiro de Podence ou os Máscaros do Ousilhão, embora mais associados à tradição do que à lenda, carregam igualmente esse lado misterioso e ancestral. As máscaras de cores vivas, os chocalhos e os rituais estão enraizados num mundo simbólico de fertilidade, proteção e renovação, que se mistura com as crenças mágicas transmitidas ao longo dos séculos.

As lendas do Nordeste Transmontano são um espelho da vida das suas gentes e refletem o medo, a fé, a dureza da sobrevivência, mas também a esperança e a ligação profunda à natureza e ao sobrenatural. Preservá-las é manter viva a alma da região, dar voz às montanhas, aos rios e às aldeias que, mesmo em tempos modernos, continuam a guardar segredos e mistérios.

Estas lendas são um elemento essencial do nosso património imaterial, um elo entre passado e presente, e parte fundamental da identidade cultural transmontana. Preservá-las e divulgá-las é obrigação de todos os transmontanos. Neste espaço, não desistirei de fazer a minha parte.

HM
16 de Agosto de 2026

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