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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A minha árvore que não é minha


Lá num canto do terreno vive a árvore, que não é minha. Quem pela primeira vez a vê, estranha: uma nogueira sem tronco, de copa arrojada pelo chão? Abeiram-se os curiosos da semba e percebem: é uma árvore, sim, de grosso tronco, manchado de líquenes amarelos, como é próprio da espécie, fincado dois metros abaixo, sólido, no solo fértil da horta do vizinho.

Diz o direito civil dos romanos que eu, como proprietário, tenho direitos exclusivos à coluna de ar que se ergue na vertical da estrema. Nenhum ramo ou folha pode invadir o meu espaço sem consentimento. Mas consinto, porque decepar uma nogueira brava é crime botânico grave... e os frutos que caem deste lado pertencem-me de direito.

Árvore, encontrei-te triste e enfraquecida. As entranhas trespassadas por videiras com a grossura de um punho. Braças e pernadas feridas pelos espinhos de silvas e roseiras-bravas. Adossado ao tronco, um vasto sabugueiro tirava-te a luz de que tanto precisas. Os ramos jovens secos nas pontas; as folhas manchadas pela antracnose, os frutos negros e mofados pela Xanthomonas.

Olhei para ti e compadeci-me. Armei-me de tesoura e serrote e, decidido, carreguei nos teus inimigos. Como um explorador de terras virgens, calquei ervas, cortei troncos, sarmentos e turiões, aparei galhos. Vieram os dias grandes e aqueceu o tempo. Da mesma forma que sorvo o ar fresco da manhã, bebo a água fresca da fonte e, a honrar o sol nascente, trinco uma maçã, abriste a copa ao sol, alongaste no espaço vazio os ramos, e estendeste as tuas raízes ao solo da horta, a aproveitar, à socapa, o azoto e a água das batateiras. Agora a luz é toda tua. O verde encheu o céu. Pelo ar veio o pólen, o sexo aconteceu e carregaste-te de frutos.

Na reserva da sombra da casa, levanto os olhos do livro e sinto-te. Fantasio que és um ser senciente regressado do passado, que pensas, decides e sabes agradecer. Com as folhas a tremeluzir na brisa julgo que sussurras: “vem cá”. Quando o vento mais forte te limpa os excessos da copa e os ramos secos caem num brando estrépito no solo, estás a dizer-me: “também sou capaz, sem ajuda”. O rebrilho das folhas molhadas de murrinha na luz crua da primavera é um sorriso de bem-estar. E os frutos? Presentes de agradecimento. Se na colheita me golpeias com uma noz, é porque brincas; zangada seria um galho de peso. Ou talvez me estejas a pedir mais cuidados. Uma calda de cobre? Adubo ao pé? Ergo-me e riposto: se te portares bem, no próximo ano, veremos.

As tuas folhas cansadas crestam e amarelecem. Em breve devolverão ao solo a fertilidade de que necessitarás no próximo ano. Dormirás profundamente, indiferente à água a escorrer pelos caules despidos e à agitação do vento. E a seiva suculenta protegida, sob a casca, a salvo das ferroadas da geada.

Árvore que és quase minha, chegamos juntos ao outono na esperança de uma nova primavera.

Carlos Aguiar

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