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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 31 de outubro de 2026

Nessa manhã de novembro

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Nessa manhã de novembro, os mortos tinham flores. 

Caminhei demoradamente sobre as folhas húmidas, das primeiras chuvas, que adormeciam no chão. Por entre as pedras adornadas com letras corroídas, curtas fendas rasgavam os mármores entregues à morrinha e à paciência requintada daquele alvorecer.

Observei, discretamente, algumas das inscrições pouco legíveis desses corpos cedidos à terra. Diferentes sortes, um mesmo desígnio. Questionei-me quais teriam sido, lá atrás, as últimas vozes a pronunciarem os seus nomes tantas vezes repetidos, com carinho, em histórias de família. 

Ou aqueles que, pelo contrário, tinham sido votados ao abandono porque a última voz que os proferira já tivesse partido também, levando nas mãos o rosto que dera a essa existência um sentido maior do que o seu nome.

Um casal jovem chorava o filho. Não levaram flores consigo, talvez por não saberem que flores fariam sorrir quem não chegou a conhecer a primavera. Aqui jaz tudo aquilo que nunca pudeste ser e duas pessoas que, durante alguns segundos, se amaram o bastante para acreditar no teu futuro. 

A morte cabe às misteriosas leis do universo e nenhum amor, por mais absoluto que seja, tem força para a afastar. Compreendi, então, como um cemitério guarda em si todas vidas que nunca aconteceram. As dos que partiram e as dos que ficam.

Duas crianças, de mãos dadas, olhavam para uma mulher a pousar um ramo de rosas sobre a sepultura. Quem sabe, os netos e a filha de alguém, depois de terem fechado a casa, agora, vazia. Porventura, hoje, não percebam mas, sem se darem conta, os pormenores de muitas vivências irão desparecer-lhes, até que restem somente os retratos antigos da passagem pelo tempo. 

Nesse instante, senti um súbito medo. Porque somos nós que sustentamos essa vulnerável arquitetura das memórias até que compareça a hora delas, de igual modo, nos deixarem. Não foi, por isso, um medo da morte, mas aquele medo de chegar lá à frente e descobrir que ali poderei encontrar não o túmulo que está debaixo do solo mas, sim, dentro de mim. 

Na campa, à minha frente, recordei o meu pai. A última vez que escutei a sua voz sem imaginar que seria a última vez, com a despreocupação de quem não pensa que meros segundos podem, mais tarde, transformar-se em tesouros. Nem a consciência de que, em breve, poderia ver-me obrigada a reconstruí-lo a partir de simples fragmentos. Unicamente a inocência de assumir que haveria sempre um outro amanhã.

Faz morada no meu interior através dos detalhes mais impercetíveis. A maneira de segurar uma chávena, a mania de confirmar se a porta ficou bem fechada, a vontade de ficar silenciosa quando alguma coisa magoa, algumas ansiedades ou modos de ternura. Pequenos gestos que julgo serem exclusivamente meus quando se trata, tão só, de uma herança que passa de corpo para corpo.

Mas o certo é que as imagens desvanecem-se apesar de serem extraordinariamente amadas. É que a memória faz o que pode e, no entanto, é o tempo quem se determina a fazer o que tão bem sabe. Esquecer. 

Esquecer aquilo que se descobre ser verdadeiramente precioso quando deixa de existir. Esquecer o som daqueles passos dentro de casa, esquecer os hábitos mais insignificantes, a afabilidade cuidadosa do arrastar de uma cadeira para nos sentarmos, o jeito delicado de uma mão nos pousar levemente sobre os cabelos, a singularidade dos lábios abertos no sorriso, a inclinação da cabeça quando somos escutados. Todos os diminutos sinais que tornam um ser irrepetível, tudo o que nos parece impossível, na altura, um dia vir a ausentar-se. 

Só porque estamos demasiado ocupados a viver. Só porque tratamos os nossos vivos como se fossem eternos. E a verdade é que os mortos não têm poder para corrigir as nossas recordações.

O meu pai… Hoje, a minha mente não consegue reproduzir sequer a sonoridade ou o timbre exato da sua voz. É uma sensação estranha quando o pensamento nos recorda de uma subtileza da qual o ouvido já se esqueceu. Como se entrássemos em casa e percebêssemos que, durante a noite, nos tivessem roubado todos os aromas e música que nos pertenciam. No fundo, há uma morte que nos calha quando o coração se cala para sempre e há outra que tem início quando já não conseguimos lembrar-nos da claridade da voz dos que amamos.

Esse mundo de quem já partiu, mas que ainda permanece do nosso lado, pode ocupar tanto espaço em nós como a falta da presença de quem se ama. Se calhar, é por isso que a terra só recebe aquilo que nela deixamos e não nos assegura lembranças que não lhe competem. É preciso aceitar essa insuficiência. Que nem tudo o que nos foi oferecido continuará infinitamente acessível aos nossos sentidos. 

Porque, no fundo, nenhum esquecimento reflete a dimensão do amor ou dos afetos que recebemos com desassossego enquanto estamos desatentos, ao mesmo tempo que acreditamos tardar o momento em que a vida deixará de reservar um lugar para os que nos são íntimos.

Olhei para a fotografia desmaiada do meu pai, com toda a minha infância docemente aconchegada dentro dela e repeti-lhe as últimas palavras que escutei da sua voz sem imaginar que seria a última vez: “Obrigado por tudo.” O amor em poucas sílabas quando ele já não se encontra aqui para que eu possa, igualmente, agradecer-lhe. 

Nessa manhã de novembro, os mortos tinham flores. Os que nunca chegaram a florir tinham apenas nomes. E sem quase darem por nada, com uma inquietude incessante cheia de tristezas, os vivos morriam também, de pé, à espera das suas próprias cinzas, algures no futuro.

Paula Freire


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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