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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

“Memórias Primeiras…A Viagem”

 O meu livro, “Memórias Primeiras…A Viagem”, da Ancora Editora, conforme abaixo se divulga, irá ser apresentado na CTMAD, em Lisboa, no próximo dia 10, pelas 18 horas. 
Será um gosto ter todos os amigos nesta apresentação.

António Cangueiro


“Cara/o Associada/o,
A Direção da  Casa de Trás-os-Montes e Alto-Douro,  tem o  prazer de  a/o convidar para a assistir à sessão  de  apresentação  o livro bilingue (Português/Mirandês) 
" Memórias Primeiras...A Viagem...” 
da autoria do Dr. António Cangueiro, a realizar no próximo dia 10 de novembro, quinta-feira, pelas 18.00 horas, na sua Sede, Campo Pequeno, N.º 50, 3º Esq.,em Lisboa.
O citado livro,  crónicas em prosa, é  testemunho do foro da psicologia do autor, em todas as suas facetas, carregadas de memórias, onde inscreve todo um percurso de vida, marcado pela saudade, natureza, amizade e amor. 
Será  apresentado pelo Dr. Orlando Teixeira e serão lidas algumas das suas crónicas com acompanhamento musical de Zé Augusto ”Maranus”.
No final será servido um "Douro de Honra".
Contamos com a sua presença,

A Direção
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Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro
Campo Pequeno, 50 - 3º Esq.
1000-081 Lisboa
http://ctmad.pt/”

🎅 𝗕𝗿𝗮𝗴𝗮𝗻𝗰̧𝗮. 𝗧𝗲𝗿𝗿𝗮 𝗡𝗮𝘁𝗮𝗹 𝗲 𝗱𝗲 𝗦𝗼𝗻𝗵𝗼𝘀 - 01.Dezembro.2022 > 08.Janeiro.2023

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

QUEM SE LEMBRA DOS IDOSOS?

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Acabo de conhecer, que devido à sustentabilidade das pensões, o aumento para o próximo ano, será inferior à inflação.
Compreende-se perfeitamente, devido à dificuldade financeira do País, e atendendo à conjuntura internacional, não ser prudente, aumento substancial.
Tenho quase oitenta anos, e desde que me lembro, ouço sempre dizer, que estamos em crise financeira. É mal que se arrasta há séculos...
Se analisarmos conscienciosamente a situação dos idosos, verificamos que grande parte vegetam, com seus achaques, suas maleitas, e sem recursos para se tratarem devidamente.
Exceptuam-se as elites, e os que abalaram, durante a juventude, para o estrangeiro. Com as elevadas reformas (em comparação às nacionais,) conseguem – em Portugal, – lares dignos ou vida folgada.
No nosso País nunca se cuidou devidamente da população envelhecida. Mesmo sabendo-se, que actualmente são tão numerosos, que podem influenciar na escolha do governo, continuam a serem marginalizados.
Preocupam-se – e ainda bem, – com os estudantes; na dificuldade de encontrarem alojamento, na proximidade da Universidade. Para minimizarem a lacuna, adapta-se quartéis abandonados e casarões e constroem-se casas de raiz, para os acolher.
Todavia, nem as autoridades, nem a mass-media ou a sociedade em geral, se lembram de encontrarem casas de acolhimento para os idosos de pequenos recursos, que hoje, não são só os pobres, mas, também, a classe-média, muitas vezes mais carente que os pobres.
Afortunadamente, possuo meios para não precisar de me recolher a lares – assim julgo, – mas quantos vivem abandonados pelos filhos e netos, solitários, entre as quatro paredes, de sua casa? (Se a têm...)
Visitei, com amigo, lar nos arredores do Porto. O que vi?: Ampla e sombria sala, com grandes poltronas ao redor do écran televisivo. Eram velhinhas de olhar esgazeado ou dormitando, de mantinha sobre os joelhos.
Noutro lar, de bom aspecto, airoso e moderno, encontrei intelectual bragançano, que me mostrou seu quarto, onde dormiam outros companheiros. Declarou-me que de início, custou-lhe dividir o quarto com desconhecidos, mas como era cego... nada via...
Já que não é possível atribuir reformas justas e acudir famílias carentes, pelo menos levantem edifícios para abrigar com dignidades, idosos, mesmo que tenham de contribuírem com parte da modesta pensão.
Recolher os nossos idosos, e os sem-abrigo, é dever primário das: obras de caridade, obras de assistência, da sociedade em geral e obrigação do Estado.
Outrora, os velhos, eram respeitados, quase venerados, pela família e pela colectividade, que os consideravam relicários das tradições e costumes da nação.
Agora parecem trapos; entes improdutivos, que lapidam o património. São, para muito, seres menores, que vivem mergulhados em recordações saudosistas, esperando pacientemente a morte.

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Dias cinzentos ☁️🌧pedem cor 🎨 à mesa 🍽e nós por aqui seguimos à risca a regra

Rede Europeia Anti-Pobreza propõe soluções para ajudar famílias de cuidadores

 Serviços de apoio à família, equipas interdisciplinares de intervenção ao domicílio, com respostas semelhantes às que existem para outros públicos, nomeadamente para os idosos, como o apoio domiciliário, períodos de descanso para o cuidador, havendo quem se responsabilizasse pelo cuidar do utente, centros de dia e ocupacionais para desenvolvimento das competências destes utentes e dos próprios familiares, capacitação dos cuidadores para saberem como lidar, como intervir, para melhor poderem ajudar a cuidar dos seus doentes e cuidandos foram algumas das propostas que saíram da tertúlia organizada pela delegação de Bragança da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), no passado dia 21.


“O doente é acompanhado em serviço de saúde mas é à família que fica o cargo de cuidar, independentemente da idade, das condições, de trabalhar ou não. E isso exige um tempo inteiro.

Vemos que existe o estatuto do cuidador informal, que é um apoio concedido mas que está dependente das condições socio-económicas do agregado familiar (apoio ronda os 400 euros). O que quer dizer que aqueles agregados familiares que estejam inseridos no mercado de trabalho e que tenham de deixar de trabalhar para ser cuidador, dificilmente se governa com o apoio que é prestado ao cuidador informal. É necessário outro tipo de apoios complementares que permitam à pessoa cuidar mas garantir o básico das condições de vida”, explicou Ivone Florêncio, a responsável pela delegação de Bragança.

A mesma responsável fez, por isso, um balanço positivo.

“O balanço é positivo porque permitiu trazer às instituições presentes, quer do setor público da área da saúde quer da área social, a voz das pessoas que vivenciam diretamente o problema da saúde mental, do ponto de vista dos cuidadores e dos próprios doentes, para perceberem claramente quais são as suas dificuldades, as suas necessidades na tarefa do cuidar do familiar com uma patologia grave ou severa. E, também, refletir em conjunto em possíveis respostas que possam vir a ser criadas para intervir nestes problemas identificados e sugestões apresentadas.

Foram sugeridas respostas e serviços que eles precisavam que existissem para terem uma melhor qualidade de vida”, sublinhou.

A discussão criada deixou as bases para alterações no futuro.

“Esperemos que isso tenha servido para inspirar à criação de respostas, de serviços por parte das instituições e para um melhor funcionamento das já existentes e de uma maior articulação entre os serviços de saúde e das entidades sociais. Ficou aqui bem patente a necessidade de um trabalho articulado, chamando à responsabilidade de todos, para que se consiga proporcionar a estas pessoas, que são expostas por motivo de doença a uma situação de exclusão e, muitas delas, de pobreza, por via da responsabilidade, do trabalho em rede, da cooperação e, fundamentalmente da criação de serviços”, disse ainda Ivone Florêncio.

Esta tertúlia teve como objetivo “repensar a saúde mental do ponto de vista psicossocial”. 

“Esteve subjacente um grupo de trabalho criado pelo núcleo de Bragança da EAPN. O objetivo era repensar a saúde mental, não só do ponto de vista da saúde, do tratamento farmacológico, mas da intervenção social e de todo o conjunto de respostas necessárias e que era necessário existirem para se conseguir intervir eficazmente na saúde mental. É um problema de saúde mas também social”, especificou Ivone Florêncio.

Falta mão de obra para as instituições Particulares de Solidariedade Social do meio rural

As Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do distrito de Bragança, sobretudo no meio rural, estão a deparar-se com problemas de escassez de mão de obra.

Este foi um dos problemas apontados durante a tertúlia, que decorreu na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Bragança.

“Pelo que tem sido referido pelas instituições do terceiro setor, a nível dos auxiliares de ação direta, que estão diretamente no cuidar, está a ser um problema para grande parte das instituições. Sobretudo no meio rural.

Devido à conjuntura, ao despovoamento, a residirem no meio rural predominantemente idosos e não haver mão de obra em fase ativa para trabalhar. E, também, a falta de reconhecimento que existe para com esses profissionais, até em termos de remuneração, e o cansaço que implica.

São profissões desgastantes, trabalhar por turnos, ao fim de semana, com pesos. É uma profissão desgastante e mal remunerada. Por isso não é aliciante”, explicou.

“Entre exercer essa atividade ou outra, que não exija estes constrangimentos, preferem outro tipo de trabalhos”, concluiu Ivone Florêncio.

António G. Rodrigues

Uma Cadeira Vazia!

Por: José Mário Leite
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

No passado dia 25 deste mês de outubro, no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores foram apresentados publicamente os vencedores dos prémios PEN relativos às obras publicadas no ano de 2021.
Junto à mesa de presidência da cerimónia estava, como habitualmente, uma cadeira vazia, simbologia que o PEN instituiu e mantém para homenagear os escritores que, por esse mundo fora, são vítimas de discriminação, coacção, repressão e outros abusos intoleráveis que lhes são infligidos pelo facto singelo e humano de, sendo escritores, escreverem de forma livre e responsável. Neste ano de 2022, o homenageado foi Salman Rushdie, cuja fotografia foi colocada em lugar de destaque.
Curiosamente, por uma qualquer coincidência (in)explicável, na parede em frente ao escritor britânico de origem indiana, estava, integrada numa exposição fotográfica sobre a guerra na Ucrânia, uma das imagens retratava a retirada, por vários populares, de um de Cristo pregado na cruz. A porta por onde saía a ser retirada a escultura era de uma igreja atingida pelas bombas russas que, segundo relatos recentes, teriam a bênção do chefe máximo da Igreja Ortodoxa. Em nome de Deus (há quem lhe chame “guerra santa”) uns bombardeiam os lugares de culto desse mesmo Deus e outros, desafiando os supostos desígnios divinos, arriscam a vida para salvarem, dos escombros desses lugares a imagem venerada desse Deus, em nome de quem são bombardeados, feridos, mortos, destroçados e irremediavelmente perturbados para o resto da sua vida. Que mundo louco e de difícil entendimento.
Fui assaltado, instintiva e imediatamente, por uma imagem que me impressionou muito, numa pequena igreja, dedicada a S. Bonifácio e a Santo Anselmo, em Cogne, no cimo do Vale de Aosta, em Itália. Nas traseiras do templo, dando expressão à arte tradicional daquelas paragens, uma árvore foi esculpida, mantendo-lhe o perfil e contorno, e apresenta uma imagem humana, com uma expressão angustiada, saltando de um tronco direito cravado numa base de pedra. Será Cristo a abandonar a Cruz?
E, como os pensamentos são como as cerejas, a propósito das esculturas feitas em madeira, num único tronco, como se existissem lá, desde sempre e o artista se “limitasse” a libertar os excessos de lenho que lhes impediam de tomar forma e que abundam por todas as praças dos povoados sendo magnífico o gigantesco e secular toro de castanheiro de onde surgiram seis divertidos tocadores de acordeão, numa praça central de Aosta, lembrei-me, igualmente de seis pinheiros bravos na base das montanhas geladas do vale. São seis árvores nascidas e desenvolvidas a partir do mesmo tronco comum. Um pinheiro original foi cortado rente ao solo, na beira de um regato. Do seu toro nasceram meia dúzia de rebentos que, de forma autónoma cresceram e desenvolveram. A partir dos vinte centímetros acima do solo, são seis árvores independentes que, precisamente por estarem muito próximas, se “digladiam” e lutam entre si, competindo por espaço e luz solar, entrelaçando ramos, “importunando” os próximos e combatendo o desenvolvimento de cada um dos restantes. É a lei da selva. Neste caso, da floresta. É assim com todas as outras árvores, ao redor, que lhe calhou, por sorte, terem de partilhar o espaço com as suas congéneres. Porém estas, seja qual for o resultado da sua luta pela existência autónoma… partilham a mesma raiz. A seiva que os alimenta é. Em primeiro lugar, comum e igualmente preciosa para todos que, em comum terão de. Em primeiro lugar preservar porque, de nada lhes valerá serem bem sucedidos no espaço aéreo se a raiz lhes faltar.
Mero acaso, curiosidade apenas ou, porque não?, alegoria vegetal para lembrar a necessária boa convivência de todos os seres vivos, sobretudo os da mesma espécie.

José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance), Canto d'Encantos (Contos) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

O passeio do senhor Henrique

 O senhor Henrique, com o seu metro e setenta de altura, o seu discreto bigode e um penteado clássico, é notado pela elegância, o bom gosto no vestir e a leveza no caminhar.
Tido como um homem bom é, de facto, uma pessoa calma, aconselha quem lhe pede uma opinião, e como grande conversador, não raro se encontra à volta de uma mesa, rodeado de amigos, saboreando o seu café.
Vítima da política em que há tempos se envolveu, recorda, com mágoa, as ciladas de que, ingenuamente foi vítima. Ele não era homem de duas caras nem de decisões ambíguas, aborrecendo mesmo aquele palavreado que é posto na boca de quem pretende justificar o que não é justificável. Também nunca se ouviu falar dele em termos de corrupção, enquanto cumpria com dedicação as obrigações para que fora eleito. Toda a gente o admirava pela correção de caráter e bem servir o povo. Mas um dia, após uma profunda crítica ao caminho que até ali o trouxe, e que, embora contra o seu gosto, ainda tinha de percorrer, chegou à conclusão de que não fora talhado para aquela vida. E então, sem grande mágoa para quem o rodeava, pediu a demissão do cargo, dando lugar ao eleito seguinte.
A partir desse momento, sentiu-se um homem livre. Retornou ao emprego, o qual, pela idade e tempo de serviço, pouco tempo ocupou. Escreve, lê, conversa com os amigos, e recebe, em sua casa, normalmente aos fins de semana, os filhos e os netinhos por quem, tanto ele como a esposa, cultivam o melhor carinho.
Neste passeio, que habitualmente faz no mesmo dia e à mesma hora, logo a seguir ao pequeno-almoço, foi imprevistamente surpreendido com um céu carregado de nuvens escuras e ameaçadoras!
Sem ter a mais pequena hipótese de se abrigar, suportou, em silêncio e resignado, a chuva que caiu impiedosa.
Molhado dos pés à cabeça, abandonou o passeio, regressou a casa, tomou um banho quente e sentou-se a repousar, enquanto ia deitando o olho a um programa chato da televisão.
Estava quase a pegar no sono, quando a esposa, visivelmente exaltada, lhe chamou a atenção para uma notícia precisamente no canal que tinha ligado.
Imediatamente alteando o som, ainda chegou a perceber as últimas palavras: “…alegados suspeitos de desvio e lavagem de dinheiro, no anterior Governo.”
De um pulo, foi à costumada papelaria, comprou o primeiro jornal que lhe veio à mão, e mesmo antes de sair, procurou a notícia que tanto o intrigara. Com sofreguidão e ansiedade, leu, em grandes parangonas, logo na primeira página: “Polícia Judiciária investiga alegados suspeitos de desvio e lavagem de dinheiro, no anterior Governo”.
A cabeça começou a andar-lhe à roda, as pernas tremeram e, se não se tivesse encostado a um expositor, acabaria por estatelar-se no chão! Caminhando e lendo atabalhoadamente, chegou a casa.
Dirigindo-se à esposa, como que a medo a foi informando da notícia na qual também se encontraria incluído. Dizendo mal da sua sorte, ambos esperaram no que tudo isto iria dar. Após declarações, e sempre atento à comunicação social, passados uns dias em que, como que imobilizado, nem sequer mexeu uma palha, foi surpreendido com outra notícia – esta mais agradável – afirmando que, afinal, o deputado Henrique Soares fora ilibado de toda e qualquer responsabilidade no caso do desvio de dinheiro.
O senhor Henrique continuou feliz, mas a mancha ficou!

Manuel António Gouveia

Programa TalentA premeia mulheres rurais com 5 mil euros

 Estão abertas as candidaturas da 3ª edição do Programa TalenTA que premeia mulheres rurais com 5.000 €. Cerca de 50% da população rural é constituída por mulheres e, com o objetivo de continuar a contribuir para o seu futuro, a Corteva Agriscience e a CAP convidam todas as mulheres rurais, que se queiram habilitar a um apoio extra para o desenvolvimento dos seus projetos de inovação rural, a participar. Mais uma oportunidade para as mulheres rurais portuguesas poderem submeter os seus projetos e demonstrarem o seu papel chave no sector agrícola e agroalimentar.


Já arrancou mais uma edição do Programa TalenTA em Portugal, que dá às mulheres rurais uma nova oportunidade de submeterem os seus projetos ligados ao sector agroalimentar e contribuírem para pôr em relevo o papel-chave que têm no desenvolvimento do mundo rural. Uma iniciativa que desde 2019 já conseguiu empoderar mais de 800 mulheres de 9 nacionalidades diferentes.

Com esta 3ª edição, regressa a possibilidade de participação e conquista de um dos 3 prémios disponíveis. A Corteva Agriscience e a CAP estão mais uma vez unidas num objetivo comum: empoderar mulheres com projetos inovadores, ligados ao sector agroalimentar e concebidos para serem desenvolvidos no meio rural.

Critérios de selecção

O objetivo do programa TalentA é encontrar projetos que necessitem de apoio externo para ultrapassar as barreiras enfrentadas pelas mulheres rurais. Os principais critérios de avaliação dos projetos são: a luta contra o despovoamento rural, o impacto ambiental, económico e social na área onde se desenvolvem, bem como a inovação e a transformação digital.

Como participar na 3ª edição do Programa TalentA?

Para participar nesta 3ª edição, as interessadas podem apresentar a sua candidatura através deste site, de 1 de Novembro de 2022 a 31 de Janeiro de 2023 e seguir estes passos:

Fazer download dos termos e condições da iniciativa.

Preparar os materiais necessários para a candidatura.

Enviar os materiais por e-mail.

Ajude a difundir o #ProgramaTalentA nas redes sociais.

O primeiro projeto premiado conseguirá um apoio financeiro de 5.000€ para investir no desenvolvimento do seu negócio. Além disso, as duas finalistas desta 3ª edição, vão obter acesso a formação e assessoria por parte de profissionais do sector, e ainda uma campanha de divulgação e visibilidade dos seus projetos.

A Corteva Agriscience, empresa agrícola líder em tecnologia aplicada a sementes, proteção de culturas e agricultura digital, e a CAP (Confederação Portuguesa de Agricultores), anunciarão as vencedoras a 8 de março de 2023, um momento chave para celebrar o Dia Internacional da Mulher.

Sobre o Programa TalentA em todo o mundo

O Programa TalentA está presente em vários países em todo o mundo: Espanha, Portugal, Roménia, Ucrânia, Rússia, Chile, México, Argentina e Hungria. A iniciativa foi apresentada como uma história de sucesso no Parlamento Europeu a mais de 60 organizações membros que defendem os interesses das mulheres rurais na UE.

Sobre Corteva Agriscience

Corteva Agriscience é uma empresa agrícola global de capital aberto que oferece aos agricultores de todo o mundo a carteira mais abrangente do sector, incluindo uma mistura equilibrada e diversificada de sementes, protecção de culturas e soluções digitais centradas na optimização da produtividade para melhorar o rendimento e a rentabilidade. Com algumas das marcas mais reconhecidas na agricultura e uma carteira de produtos e tecnologia líder na indústria bem posicionada para impulsionar o crescimento, a empresa está empenhada em trabalhar com as partes interessadas em todo o sistema alimentar, cumprindo simultaneamente a sua promessa de melhorar a vida daqueles que produzem e daqueles que consomem, assegurando o progresso para as gerações vindouras. Corteva Agriscience tornou-se uma empresa independente, cotada na bolsa a 1 de Junho de 2019; anteriormente fazia parte da divisão agrícola da DowDuPont. Mais informação está disponível em www.corteva.es e www.cortevatalks.es

Português morre com tiro acidental durante caçada em Zamora

 Um português de 26 anos morreu na terça-feira, ao que tudo indica, após um disparo acidental da própria arma quando caçava na cidade espanhola de Fermoselle, em Zamora, Espanha.


Segundo avança a imprensa espanhola, o jovem estaria a caçar quando, cerca das 11.30 horas, terá sofrido um deslize numa área rochosa e escorregadia. Durante a queda, a arma terá disparado inadvertidamente, atingindo-o mortalmente. Quando os companheiros de caça ouviram o tiro e, se deslocaram em auxílio, encontraram a vítima já sem vida.

O acidente ocorreu na área da Arribas do Douro internacional, junto à adega Durios, uma zona que só o rio Douro separa Portugal de Espanha.

O jovem, filho de mãe portuguesa, natural da freguesia de Bemposta, e pai espanhol, era conhecido por ser muito participativo na vida cultural daquele município raiano na província de Zamora, bem como na comunidade de caçadores da vila, sendo também frequente a sua visita a Bemposta para convívio com familiares e amigos.

César Castro

Dificuldade em certificar amêndoa como biológica está a prejudicar produtores portugueses

 A amêndoa biológica parece ser o futuro da produção deste fruto seco, mas em Portugal é muito difícil conseguir a certificação.


A culpa é do rigor no que toca às substâncias encontradas na composição do fruto, o que está a pôr o país numa concorrência desleal para com outros da Europa. Quem o diz é Albino Bento, Presidente do Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos:

“O problema é que quando os agricultores vão para certificar, e por questões aparentemente naturais e não por culpa dos produtores, aparece uma substância que se chama ácido fosfónico, que tem levado a que a certificação dessas amêndoas, onde a substância aparece, seja em níveis baixos ou um pouco mais altos, não seja possível em Portugal, mas em Espanha, Itália e outros países, com esses valores, já certificam.

Mercados com o francês e o alemão aceitam com ácido fosfónico 10 vezes superior àquilo que aqui é rejeitado.

Temos os nossos produtores em concorrência desleal com os dos outros países, a fazer a mesma coisa e eles a terem a amêndoa certificada e nós não.”

O presidente do Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos já reuniu com o Secretário de Estado da Agricultura na tentativa de alterar esta exigência, que considera estar a penalizar os agricultores portugueses e a pôr em risco este tipo de produção:

“Vamos ver se efetivamente alteram um pouco, ou se a própria Comunidade Europeia retira essa substância da lista das que têm que estar a zero, até porque essa exigência só começou em 2019 e não me parece que faça sentido, porque não é um produto químico ou um adubo que seja aplicado. Ou eventualmente que as autoridades portuguesas tenham um procedimento semelhante ao que é tido em outros países. 

Algo tem de ser feito, caso contrário, os nossos agricultores têm concorrência desleal e são penalizados.

É uma situação que é urgente alterar, até porque entendo que com níveis produtivos tão baixos como temos nos nossos amendoais, ou o preço é superior ou então é quase impossível a sobrevivência deste tipo de amendoal.”

A amêndoa biológica é paga pelo dobro do preço da amêndoa produzida de forma convencional e apresenta-se como uma alternativa interessante para os produtores transmontanos:

“No caso do biológico e de todo o sequeiro transmontano, temos níveis de produtividade muito baixos e não há muita forma de o aumentar porque a água é um recurso fundamental.

Com esses níveis produtivos e ao preço a que está no mercado, efetivamente para quem está em sequeiro, o biológico é uma via interessante, enquanto se mantiver esse diferencial de preços.”

A amêndoa, que a par de outras culturas agrícolas, sofreu este ano uma quebra acentuada, neste caso na ordem dos 50%, devido à falta de chuva e às geadas durante a época de floração.

Escrito por ONDA LIVRE

Abade de Baçal vai ter novo destaque no museu brigantino ao qual dá nome

 A sala dedicada ao Abade de Baçal, no museu brigantino ao qual dá nome, vai sofrer algumas transformações


A ideia é que quem visite o espaço perceba quem foi este transmontano. Jorge da Costa apresentou-se, ontem, como novo director do museu, precisamente nesta sala, que quer que se encha de histórias do estudioso da região do nordeste transmontano.

“Quero que quem passe por aqui perceba quem é a figura do Abade de Baçal e, portanto, vai haver no início este investimento na figura do próprio patrono do museu. É um espaço também de emoções e mostrar outras narrativas que não são propriamente de objectos, são de situações, de histórias”, referiu.

Jorge da Costa, que já disse à Rádio Brigantia que quer tornar o museu num espaço de elite para todos e que a colecção vai ser enriquecida e valorizada, assume que o espaço exterior do museu também vai ser bastante dinamizado.

Ontem, em Bragança, na tomada de posse, esteve a Directora Regional de Cultura do Norte. Laura Castro assinalou que está muito confiante no trabalho que Jorge da Costa vai desenvolver.

“É um equipamento cultural importante e é um novo ciclo que se abre. Dar continuidade às potencialidades da colecção que o museu tem, mas um novo director trará sempre a sua marca”, disse.

Jorge da Costa foi director do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais e do Centro de Fotografia Georges Dussaud. Comissariou mais de 80 exposições de artistas nacionais e estrangeiros, bem como de importantes colecções públicas e privadas, tanto nestes dois espaços como em diversos museus e Bienais de Arte do país.

Escrito por Brigantia

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

𝟭º 𝗖𝗮𝗺𝗽𝗲𝗼𝗻𝗮𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗠𝘂𝗻𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗖𝗮𝗶𝗮𝗾𝘂𝗲 - 7 a 13 de Novembro - Lagos do Sabor - Torre de Moncorvo

𝐇𝐚́ 𝐅𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐚 𝐏𝐫𝐚𝐜̧𝐚!…

 Há Feira na Praça!... é uma iniciativa do Município de Miranda do Douro e tem por objetivo a divulgação e promoção do artesanato, dos produtos hortícolas, dos produtos endógenos e outros produtos transformados de base local, de forma a contribuir para o desenvolvimento da economia local.
A 1ª Edição irá decorrer no dia 12 de novembro, no Largo D. João III, com a temática "Feira de São Martinho".

Que espécie é esta: lagarta da borboleta Esfinge-da-euforbia

 O leitor Henrique Martins fotografou esta lagarta a 2 de Novembro na Aldeia de Outeiro, Bragança, e quis saber qual a espécie. A equipa da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas responde.
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“Solicito a colaboração dos vossos especialistas no sentido de me ajudarem a identificar a espécie cujas fotos envio em anexo. Tem cerca de 8cm e tem um ferrão na parte de trás. Foi vista na Aldeia de Outeiro, concelho de Bragança, no dia 02 de novembro de 2022”, escreveu o leitor à Wilder.


Trata-se de uma lagarta da borboleta esfinge-da-euforbia (Hyles euphorbiae).

Espécie identificada e texto por: Rede de Estações de Borboletas Nocturnas.

Trata-se de uma lagarta da espécie Hyles euphorbiae. Como o nome indica, alimenta-se de plantas do género Euphorbia.

O dito “ferrão”, forma como referido pelo autor das fotografias, é completamente inócuo.

ll Edição da Festa de Halloween

PEDIDO DE NAMORO

 Por: Luís Abel Carvalho
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Custódio estava sentado nos bancos de pedra à sombra das faias, junto ao chafariz, à laracha com outros, quando viu passar a Deolinda com a bacia da roupa à cabeça para os lados do ribeiro dos moinhos. Acaçapadamente esgueirou-se e foi buscar o cavalo à loja e foi-lhe no encalce. Fisgou-a ainda antes de chegar ao Altinho do Prado, a menos de oitocentos metros de um dos locais onde as mulheres lavavam a roupa. Como não tinha a habilidade da palavra nem diplomacia, foi curto e grosso:
        - Ó Diolindia...Sabes que bibo sozinho e já ´stou entradote na idade e no é nada do meu agrado. Precuro uma rapariga séria e honesta que queira casar comigo.
        - Pois fazes tu munto bem, porque um home sozinho no é bô. Por isso é que Deus fizo o home e a mulher.
        - Inda bem qu ´stás conforme comigo. Pois eras mesmo tu que me calhaba.
        - Eu?! Hum...´Stás munto inganado. Por uma, inda sou munto noba e por outra, no t´escolheria a ti.
        - Ora, ora! Atão porquê? Tanho sarna, por acaso? Olha que milhor do qu´eu no arranjas tu.
        - Por i, mas no ateimes. Bais m´adesculpar, e no fiques melindrado comigo, mas no te quero.
        - Porquê? Julgas-te por i a fina flor da terra? Só se fores a fina flor do ´sterco.
        - Num sei. Sou c´mo sou. Num me faço passar por aquilo que no sou.
        - Ora bejam lá a delambida, a deslabada! Inté te debias sentir honrada. Fazia de ti uma senhora limpa, sem andares às jeiras e a biber bem.
        - Antes a pobreza honrada do qu´a riqueza embergonhada. Mas eu só quero lubar a bida que m´apetecer. E digo-te com toda a sinceridade: nem que m´ofrecesses o Paraíso. Ó desmais, raparigas solteiras e inté da tua idade no te faltam. É so le falares. 
        - No bêjo oitra que me sirva tirante tu.
        - Há muntas. É só precuraresi-as. 
        - Quem, por inzemplo? A tua irmã?
        - Por inzemplo. O qué qu´ela tãe? Tamãe no tãe sarna e nem peçonha.
        - A Lucinda? Deus m´a mim librara. Credo, abrenúncio! – Disse com ar de nojo, escarrando para o chão. - Nem carregada d´oiro a q´ria. Nem que no dia do casório fosse coa cara enfiada numa saca dos farelos.
        - O qu´é qu´ela tãe? Oitra milhor do qu´ela no arranjas tu, que to juro à fé de quem sou.
        - Ora bô, bô! Mal por mal, atão antes a filha do papagaio, apesar de que já ´stá mais furada do có tchapéu dum pobre! A Lucinda seria a última mulher com quem casaria.
        - Atão que seja. No digas que desta auga no bubrei. Be-te ó ´spelho e no me maces mais – disse encolhendo os ombros, continuando a andar com a bacia à cabeça, em cima da rodilha.
        - Hás-de biber sempre no surro – ripostou raivoso virando o cavalo em direcção à aldeia. - Sendes todas umas criqueiras. Inda m´hás-de bir c´mer à mão. 
      - Pois bem podes limpar as mãos à parede – respondeu-lhe com sarcasmo.
      Deolinda era uma flor radiosa que se abria à luz arrebatadora do amanhecer da vida.
        Estavam ali duas realidades opostas: a realidade vivida, sem fantasias, genuína e crua de uma moça simples e pura que ainda não sabia o que queria, mas que já sabia o que não queria e uma realidade fantasiosa, arrogante, baseada na soberba e no eterno e humano – embora inadmissível - sonho do poder sobre o seu semelhante. Deolinda era de baixa condição social mas de alta condição moral.
        Custódio foi todo o caminho até à aldeia a rogar-lhe pragas, diminuído e apoucado no seu orgulho pelo descaramento da simples rapariguita. A partir daí continuou a dar-lhe as boas-horas, mas a rosnar por dentro. Jurou vingar-se. Não teve a grandeza de superar a rejeição.
       Arquitectarmos assim a nossa felicidade no exclusivo alicerce do dinheiro ou dos bens materiais, é expormo-nos demasiado ao risco dos ventos da infelicidade e da derrota. Era precisamente essa a situação do Custódio.
        Sem muito entusiasmo, mas convicto da sua posição – mais material do que social – pediu namoro uma a uma, a quase todas as raparigas casadoiras da aldeia. Embora fosse um partido apetecível e prometedor sob o ponto de vista económico, todas elas declinaram o namoro, o que reforça a ideia da verticalidade e da pureza de carácter daquelas gentes. (Ainda não tinham sido viciadas – nem iniciadas - nos falsos jogos da sedução. As serras ainda eram uma barreira, tanto aos ventos – que condicionavam o tempo e a chuva – como aos maus costumes, vindos das grandes cidades e dos malfeitores que, por sua vez, tinham ido dessas aldeias para as cidades aprender a arte das falcatruas). Ao não das outras encolhia os ombros de forma natural, mas o não da Delinda magoou-o no seu orgulho e na sua fanfarrice interior. (Tinha apostado com o Cagado das Moscas e com o Tchitcha Crua, dois dos seus lacaios mais fiéis em como casaria com a Deolinda)! 
        Levado pela sua vaidade, pelo seu sub-mundo de sub-jugação e pelo enganador trivial “ posso, quero e mando”, e respaldado no provérbio” onde o ouro fala, o resto cala ”, certa noite, cerca de três meses depois, dirigiu-se a casa da Deolinda. Mesmo no fim da ceia, estava a aldeia prestes a recolher-se na paz das telhas e do colmo, Custódio deu duas pancadas leves na porta com o nó dos dedos.
       - Entre quem é – convidou o Ti Laureano. 
       - É de paz – sorriu Custódio abrindo o ferrolho da porta e entrando.
       Era o mês de Outubro. Concluía-se a preparação das terras para a sementeira do Outono e Inverno: cavar, lavrar e estrumar. Levavam - se as porcas à acobrição, plantavam-se os morangos e alhos, as couves, as beterrabas e semeava-se o trigo. " Por S. Francisco semeia o trigo; e a velha que o dizia, semeado o tinha ". Faziam-se as últimas vindimas e a garotada ia ao sarrabulho das uvas. Se não se fizeram em Setembro, acabava-se a colheita das batatas, do feijão e do milho. Quando chovia a terra exalava um aroma adocicado a terra fresca. As cotovias e as poupas não largavam a rabiça do arado comendo, muitas vezes, as sementes antes do arado ou charrua as encobrir e à caça das minhocas que a relha trazia à superfície. Cresciam as romãs e os diospiros e a azeitona ia tomando a cor própria de cada qualidade. As malaguetas e os pimentos coloriam de vermelho e verde as hortas e as laranjas já eram maiores do que os ovos das perdizes. As lareiras já se acendiam cedo e os dias eram breves, morrendo rápido. Já o equinócio de Setembro jogava a favor das noites. Aliás, há um ditado que diz: “ Em Outubro, o lume já é amigo “, ou então: “Em Outubro, fogo ao rubro” e ainda: “ Logo que Outubro venha, procura lenha “. As cores dos campos tinham cambiado para o vermelho acastanhado, cor de ferrugem, das vinhas e dos castanheiros. Só as oliveiras e os zimbros conservavam o verde das folhas. As figueiras e os pessegueiros já estavam nus, sem folhas. As castanhas, indomáveis na sua força genética, rebentavam os ouriços, forçando-os a abrir para se mostrarem sorridentes, jovens e alegres, prometendo tornar – se em suculentos e estaladiços bilhós nas brasas da lareira. Era tempo de preparar a terra para a sementeira do trigo, centeio, de plantar beterraba, de semear a cevada e de apanhar as nozes - quem as tivesse.
       - Boas e santas noutes nos deia Deus Nosso Senhor – cumprimentou - o o Ti Laureano.         – Santa-te – disse oferecendo-lhe um mocho feito pelo ti Domingos Carpinteiro. – E podes pôr o tchapéu, qu´aqui no há Santos.
        Custódio usava um chapéu de feltro, sempre com uma pena azul celeste de gaio na tira de seda do mesmo.
        O ti Laureano era pequeno, magrinho mas ossudo, de cabelo pelo de rato e de maçãs do rosto salientes. Já lhe faltavam a maior parte dos dentes de baixo. Uma barba rala vadiava-lhe pelo rosto enrugado de pergaminho. Tinha nas faces dois sulcos verticais – um de cada lado – que mais pareciam dois regos feitos pela relha do arado. Era um transmontano vernáculo: nada o derrubava e o punha de joelhos. Aliás, nada o fazia vergar a espinha. Tinha um génio temido por todos. Que o diga o Zé dos Fornos, que levou umas valentes estadulhadas, lá para o lado da Malhadinha. Quem o safou foi o filho do Tobias, que andava aos figos ali por perto. Era daqueles – embora cada vez menos – “ antes quebrar que torcer”. No entanto, tinha - como quase todos nós – o seu calcanhar de Aquiles: o amor à sua mulher. Só a Tia Germana o vergava e fazia dele um cachorrinho manso, inofensivo – vá lá saber-se porquê! Era respeitado e considerado por todos fora de portas. Portas adentro era um leãozinho amestrado, obedecendo religiosamente às ordens e aos caprichos da Tia Germana! Ao contrário de Custódio que era apenas mau e selvagem, Ti Laureano era bom, corajoso e de sentimentos humanos.
       - Bem-haja – agradeceu sentando-se no mocho entre a Lucinda e a tia Germana.
       Na lareira crepitava um envergonhado fogo, sem nenhuma cavaca digna, tendo uma caldeira com água pendurada nas lares e uma panela de ferro ao lume. A água da caldeira era para a ração de farelos com batatas miúdas e cabaças para o porco. Deolinda lavava num alguidar de barro as malgas do caldo e os pratos da ceia. Lucinda trabalhava, à luz da candeia de azeite, numa camisola de lã que fazia para o Pai. A tia Germana fazia uns miotes de algodão para o marido.
        Depois de umas breves palavras informais de ocasião, o ti Laureano, que estava sentado no escano, perguntou passando-lhe um caneco de vinho:
       - Atão o qu´é que te traz por cá? Ó Lucinda, bota aí um canhoto no lume, pra no ´smorecer – pediu olhando para o borralho em que o vermelho vivo das brasas se desfazia em insignificantes flocos cinzentos.
       - Atão é assim, Ti Laureano: eu no sou munto bô de conbersa, nem de salamaleques e bou dreitinho ó assunto em questã – disse meio atrapalhado, levando o caneco à boca e bebendo uns bons goles. Depois de estalar a língua, em sinal de ter gostado, continuou: - o assunto é a bossa Diolindia – disse olhando de viés para ela. 
       - Atão o qu´é qu´ela te fizo! – Perguntou matreiro o Pai, fazendo-se desentendido.
       - Por imentes, inda nada. Mas pode fazer munto bem a mim, a ela e a todos a bosmecês.
      Deolinda estremeceu de raiva, de repulsa e de asco. Ficou a odiá-lo ainda mais, depois desse truque baixo e covarde. Uma aversão e um desprezo quase incontroláveis invadiaram-lhe as entranhas. Cresceu nela uma revolta surda, amordaçada pelo medo.
       - No te ´stou intendendo...- continuou o Ti Laureano com toda a sua ronha.
       - A questã é munto simples. Só de caso ela m´aceitar c´mo namoro e despois pró casamento...
       Custódio rodava com falsa humildade o chapéu de feltro entre os dedos grossos, de olhos fixos no lume. Havia na sua expressão corporal a volúpia e a languidez da vitória. Os seus olhos de escárnio, entre a fingida humildade e a natural arrogância, fitavam Deolinda, como querendo encurralá-la na sua miséria material e social. Só o seu baixo carácter e a sede de se vingar e de humilhar Deolinda, o levou a incomodar a harmonia daquela família humilde.
      - Bom...- interveio a Mãe, que até ali se tinha mantido calada e, como receptáculo das emoções da filha (além de Mãe era também mulher) – S´ela te quiser, nós no temos nada a opôr. O casamento é p´rá bida inteira, por isso, é ela que debe decedir. O qu´é que tu respondes, Diolindia?- Perguntou sabendo bem em que águas se banhava.
       A tia Germana era também pequena e magra, de cabelo farto. Os olhos eram vivos, cintilantes e astutos. Deolinda herdara da Mãe a fulgurância do olhar. Deveria ter sido uma mulher muito deslumbrante, tal como a filha era agora. Mantinha ainda feições finas e graciosas.
      - Oh... Digo o mesmo que já disse ó Questódio há uns meses retrasados. Aqui atrasado já me tinha rogado namoro e eu dixe-le que não. Por qu´é que bem cá ateimar oitra bez e a desinquezir-me? A Mãe acabou de decer qu´o casamento é pra todá bida e é por mor disso mesmo qu´eu digo que não. Mais a mais eu já le tinha dezido que no sintia ninhum sentimento e ninhuma afeição por ele. No casamento tãe qu´aber amizade..., por o menos!
       - Mas o amor e ámizade bêm despois. – Interrompeu o Pai.    
       - Bêm despois do quê, meu Pai?  Despois das arrotchadas? Despois duma bida d´escrabidão? - Perguntou pousando o pano com que enxugava o prato. – Se no houber amizade nunca pode haber amor.
      - ´Stão a ber?! É uma pena qu´ela tanha est´entendimento. Eu `staba desposto a tirá-los a todos deste tchiqueiro. ´Stou a ofrecer-les, de mão beijada, uma bida limpa, sem precisões.
     - Mas o qu´intressa a bida com mais três tostões se for tcheia de mortificações e de martírios? – Perguntou Deolinda cheia de vigor, de olhos de tição em brasa. – Despois de casada, o qué que me sobra? Andar ós mandiletes dele e ó sabor das arrotchadas, cmo muntas...
      - O qu´é que tu sabes da bida?- perguntou o Pai com uma certa aspereza na voz. – No atchas có menos podias pensar um cibo? Pensar um catchinho entrementes?
      - Oh... Deixá rapariga pensar por a cabeça dela – pediu a Mãe.
      - Ela tem lá cabeça pra pensar e sabe lá ela o qué milhor. Só de caso tibesse, dezia já que sim ó Questódio.
      - Meu Pai! Com todo o respeito, eu sei o qué milhor pra mim e no é casar co Questódio. O meu Pai quer qu´eu seja infeliz a bida toda? – Questionou Deolinda mostrando coragem, ao enfrentar a autoridade absoluta do Pai. – Mas s´o meu Pai m´obrigar, eu caso co ele, mas é contra a minha bontade, digo-le já. – Acrescentou.
       - Tu no sabes nada da bida.
       - Atcho que debemos deixar a Diolindia ´scolher o qué milhor pra ela, meu Pai. – Pediu Lucinda, que até então se tinha mantido na expectativa.
       - Sabendes o qué milhor pra ela? – Perguntou levantando-se. - É isto. Isto é qué o milhor pra ela – disse dando-lhe uma grande bofetada em cheio na face direita.
      Um silêncio espesso e pesado desceu na penumbra mais profunda do coração de Deolinda e criou-se uma atmosfera de constrangimento. Lábios crispados, em articulações dolorosas, mastigou em sussurro queixas gemidas de cólera. No entanto, o seu coração compadecido, estava determinado a todos os perdões das ofensas recebidas. Assumiu uma atitude de olhos enxutos e de coração calado. Deolinda sentiu o ódio latejar-lhe nas frontes. Cerrou os maxilares de raiva com tanta força, que uma onda de dor lhe subiu aos ouvidos. Da candeia desprendia-se uma luz coada, inconsistente e trémula, o que tornava o ambiente mais lúgubre, mais cinzento e mais tétrico. Algo de sádico regozijou no íntimo do Custódio e uma grande tristeza na alma da Lucinda e da Mãe. No espírito de Deolinda cresceu desprezo, mágoa, náusea, repugnância por aquele ser vil, que ali veio com o propósito único de a comprar, como se compra um animal na feira. Talvez a necessidade machista e autoritária e de mostrar quem tinha o poder se tivesse sobreposto ao amor de Pai. Eram realidades antagónicas em conflito, embora reais, não inevitáveis.
    - Ó ti Laureano! Assim tamãe no na quero, caratchos. À força tamãe não, catantchos. - Interveio hipocritamente Custódio, que gozava um perverso sentimento interior de satisfação e de júbilo. – Agora qu´eu ´staba desposto a lubá-los a todos prá minha casa e a tirá-los deste pardieiro sujo, desta tchoça e lubarem uma bida mais limpa e com mais fartura..., lá isso ´staba. Mas a Diolindia assim no no intende. Paciência... Fazia dela a senhora mais assenhorada da poboação. – Disse levantando-se encolhendo os ombros. - E acrescentou com ironia - Mulas, mulheres e moletas, ´screbe-se tudo co as mesmas letras. 
     Voz amarga e olhar oblíquo, demonstrando todo o desprezo pelos outros.
     - Nós bibemos consoante podemos. Bibemos conforme as nossas posses. Se no podemos biber milhor, paciência... Somos pobrinhos e no o neguemos e é assim que temos que lubar a bida pra diente. A pobreza no é bergonha ninhuma. – Sentenciou a tia Germana.       – No somos à moda da bila: “ cesta grande e pouca comida” e nem c´má menina d´aldeia: “ Se tem sapato, já no tem meia “. Bibemos consoante as nossas posses e prontos. Se no houber trigo, comemos santeio.
      Tia Germana tinha a virtude da simplicidade.
      - Dá-le mais uns dias, ó Questódio – pediu o Pai quase numa súplica. – Tu bem sabes cmo é o entendimento das mulheres e pior ainda duma rapariga qu´inda no sabe o qué milhor pra ela, que no sabe inda nada da bida. Sabes cmo é: “ Moça louçã, cabeça bã”.
        No rosto magro, sempre de dentes cerrados, sobressaíam os maxilares irrequietos, que lhe davam um certo ar de dureza.
       - Mas tu queres bander a tua filha? Deixá rapariga ´scolher o destino dela.
         Ao ouvir tal blasfémia, os olhos de coruja do Custódio reviraram-se e fixaram-se como lanças e faíscaram lume no rosto velho e enrugado da tia Germana. Chisparam faúlhas de fogo em brasa naquela velha que teve a coragem de enfrentar todo o despotismo e tirania do Custódio.
      - Atão, prontos. Tantei auxiliá-los e morderam a mão que les daba de cumer. Inda são d´arrepender disso. Fiquem lá coas bossas misérias e co esta tcholdrice- disse levantando-se de maneira abrupta -. Mulas mulheres e muletas começam todas coas mesmas letras – repetiu num tom irritado. E acrescentou só para atingir o Ti Laureano: “ Triste da casa onde a galinha canta e o galo cala”. – Atirou saindo apressado e batendo a porta com força.
     Custódio queria ter sempre a última palavra e falava sem ouvir o outro. Quando fazia uma pergunta e o outro lhe respondia de determinada maneira, Custódio continuava como se a resposta tivesse sido de acordo com a sua pretensão. Tinha um feitio ácido. Quase ninguém o contrariava – uns por acharem que era pura perda de tempo, outros por desprezo, outros para lhe não espevitarem o mau génio, e outros ainda por conveniência. Custódio dava muitas jeiras a ganhar ao longo do ano a muita gente.
      - Deixó ir e mais ó raio que o palira. Patife! ´Scamungado! – Atirou a Mãe fazendo um gesto com a mão, encolhendo os ombros, quando Custódio já se encontrava na rua. - Andor, andor! As tuas besitas são c´mó carneiro: ó fim de três minutos já deitam tcheiro. Andor. Bai precurar forma pró teu pé – disse puxando o xaile para a cabeça. - Besta que no faiz ´strume, fora da ´strebaria. Rua, qu´é sala de cães - concluiu irritada.
        A tia Germana era miudinha de corpo mas dura de nervo e nunca deixou que ninguém lhe fizesse o ninho atrás da orelha. Era de tez escura, talvez mescla de cigano ou de mouro. Tinha a sensatez de uma pessoa simples e sabia que o amor precisa de paz. O ti Laureano conhecia-lhe o génio e admirava-a de uma maneira acaçapada. Não tinha grandes ambições pessoais e nem sonhava com grandes voos para as filhas. A dignidade do dia-a-dia era-lhe suficiente para se manter feliz. E foi esse estado de alma que tentou incutir na educação das filhas, embora lhe parecesse que a Lucinda não dava muito interesse ao que lhe dizia. Lucinda era mais do feitio oportunista do Pai e Deolinda tinha mais o feitio justo e doce da Mãe. 
       - Tinhas aqui o teu futuro garantido e deitás-te - sio fora! Quers biber todá bida na miséria? – Desabafou o Ti Laureano escondendo a cara com as mãos.
       - Futuro, meu Pai?! Qal futuro?! Cmé que posso ter matado o futuro se o num tanho? Num se pode matar uma cousa que num existe. Eu salbei foi o meu presente, quando munto! - Respondeu-lhe com voz dorida.
      - Oh... - Disse a tia Germana. - Dias de munto, bésperas de pouco.
      - Perfiro biber na miséria mas feliz, do que infeliz na fartura. Além do mais, se no posso ´scolher o modo cmo bou morrer, mas ó menos posso ´scolher o modo cmo quero biber.
     - Mas tu queres o dnheiro ou a flicidade? Olha qu´onde o oiro fala, tudo cala. Já bistes alguém a ser enforcado coa bolsa do dnheiro ó pescoço? – Perguntou o Pai numa voz raivosa. – O dnheiro faiz o Conde e o Brasão – acrescentou.
     - Ó meu Pai! Se bierem as duas juntas, inda milhor – comentou a Lucinda que estava abismada e boquiaberta. - Cá por mim, mal por mal, perfiro biber infeliz n´abastança do qu´infeliz na penúria. Dnheiro e santidade é sempre menos que métade. – Rematou.
     - Ó rapariga! Bale mais a honradez da gente do có dnheiro todo qu´há no mundo – argumentou a Mãe. – O dnheiro só traiz miséria, inimizades e mortes. E já diz o pobo: “ Por cobiça dum florim, no cases com coisa ruim “.
    - Ora bô, bô! Isso são balelas, nha Mãe. Isso são lérias qu´os ricos dizem, qu´é prá gente no ter imbeja deles. Beja lá s´eles nos se pelam todos por ele! – Alegou a Lucinda. - Arrebanham este mundo e o outro e inté matam. Só o no lebam prá coba porque no podem!   
     - Ora bês? Óspois tamãe se quilham; deixam-no cá c´mós oitros – proferiu a Mãe, cerrando os punhos.
     - Cá por mim, o milhor são as duas cousas juntas. – Ironizou a Lucinda. – Quem dnheiro tiber, fará o que quiser. É cmá saúde e o dnheiro. Qu´intressa termos saúde se num tibermos dnheiro prá gozar? E o qu´intressa termos dnheiro se num tibermos saúde pró gozar? – Disse com ar triunfal. 
     - Qais as duas cousas juntas?! O dnheiro e a flicidade nunca andam juntos. – Ripostou a Mãe. – Tu já bistes a auga misturada co azeite? Deixende a rapariga ´scolher o destino à bontade dela. O casamento e a mortalha no Céu se talha. Olha! – Disse de dedo em riste virada para o marido – Eu tamãe te ´scolhi a ti e no tinhas onde cair morto e no ´stou arrepesa. Mas gostaba de ti e se fosse hoje, boltaba a dar os mesmos passos. Ó pé de ti fui feliz, mesmo lubando uma bida de trabalhos e de penúria. – Disse a tia Germana, numa mistura de melancolia e de afecto.
     - E adiantou-te munto... Eu no tinha onde cair morto e tu só tinhas o tchão pra te sigurar! – Resmungou o ti Laureano de modo seco, sem qualquer sensibilidade. – Tchigastes a belha sem teres nada de teu! – Atirou com um risinho sádico, miudinho. 
     - Graças a Deus nunca passemos fome.
     - Ou, ou... Co a fartura podiamos nós bem – satirizou o marido.
     - Além do mais, no arranjabas oitra c´mo eu – atirou a mulher.
     - Ora bô, bô! Encontraba uma ó birar de cada pedra!
     - S´encontrasses era algum alacrau – ironizou.
      Ti Laureano espreitava uma vida mais cómoda através da aceitação de subjugação da filha. No rosto escuro e rugoso, o nariz afilado aumentava a expressão de miséria.
    - Poi ´stá feito. Grande desgraça que beio ó mundo! Mas tchiguei a belha de cara alebantada, sem m´ embergonhar de nada e tanho munta presunção na familha. Posso passar por os adjuntos de cara destapada e limpa. Graças a Deus, comigo tudo anda à luz do sol. No tanho que tapar nada.
     - Cala-te, mulher. Negro é o carboeiro e branco o seu dnheiro.
     - Mas tu queres bander a tua filha a um demónio daqueles, a um soberbão daqueles? Tu só bês dnheiro, home de Deus? O dnheiro no se come. E a honra? Onde fica a honra?- perguntou irritada, batendo no peito com a mão aberta.
      - Sei lá eu o qu´é isso da honra? Olha, fica prós pacóbios c´mo tu, qu´acreditam nessas cousas. Enquanto t´impingem essas lérias, eles vão-se gobernando à nossa custa e inda se riem e inda nos tchamam tchabascos e tchotchos! Dai-me dnheiro e no me dedens conselho. Dou rezão à nossa Lucinda.
     - Eu tamãe penso c´mó Pai. A honra tamãe no se come e às bezes é só pr´átrapalhar a gente – disse a Lucinda, sentindo-se apoiada pelo Pai. - A gente bem oube o padre a decer cousas do altar abaixo, mas óspois bem bai jantar a casa dos ricos e a combiber co eles. E alguns no têm honra ninhuma. Nuncá tiberam nem eles nem os seus antepassados – disse abanando afirmativamente a cabeça. – Palabras de mel e coração de fel – rematou indignada.
     - Pois não! Claro qu´a honra tamãe no se come, mas ajuda-nos munto a enfrentar os dias menos bôs – disse folosoficamente a Tia Germana
     - Oh... Dias maus são todos eles. É um pior do qu´ó oitro...
     - Mas agora a Mãe tamãe quer tirar o lugar ó Maltês? – Perguntou a Lucina em tom de sarcasmo.
      - Caralhitchos! Tu e ó teu Pai, sendes inguaizinhos, sem tirar nem pôr, carai! Olhende co milhor herdanço cos Pais podem deixar ós filhos é a honra do nome. Poderem andar de cara labada e alebantada, sem terem medo que ninuguém l´ aponte nada.
       - Bálhá Deus bálha, nha Mãe! Herdanço?! Qual herdanço?! Só se for o herdanço do suor e do surro – protestou a Lucinda. – Quem é que corre atrás de sapatos de defunto?
       - É...! E óspois, se tiberem fome, comem a honra – ironizou o Ti Laureano, fazendo dueto com a filha. – A honra num serbe pra nada. O dnheiro tudo pode – arrematou. – Olha pra nós! Trabalhemos a bida toda c´muns mouros e só temos miséria e porcaria, que nem squera temos tempo de ´stranhar a cama...
       -... E uma alma limpa e a cabeça assossegada – interrompeu-o a mulher.
       - Mas mesmo assim, tirante tudo isso, eu atcho qu´a Diolindia no fazia mal ninhum se casasse co Questódio. – Opinou a Lucinda em tom conciliador.
       - Deixende lá a rapariga. Ela sabo bem o que quer e o que num quer. E ela já dixo que no quer aquel fistor, aquel farçola. Só tem farronca. – Respondeu-lhe a Mãe querendo encerrar o assunto. – Mas aí no meto eu nem prego e nem ´stopa, qu´é próspois num birem deitar as culpas pra cima de mim.
        - Inté tem a mania qué fidalgo. Bem tanta acompanhar cos filhos do Senhor Armandinho, mas dão-le pra trás. Só é acompanhado por os corrécios, porque dependem dele prás jeiras – observou a Deolinda.
       - Fidalgo...! Fidalguia sem comedoria, é cmo gaita que no assobia – rematou a Mãe. – Beio aqui todo intchitcharrado, cmum fidalgo da corte da palha – disse em gesto cómico, abanando os ombros.
       Tia Germana era instintivamente inimiga de Custódio. Tinha o rosto encarquilhado como uma folha seca de castanheiro. No rosto áspero e cretado, podia ler-se, em letras rudes, as lutas que já travara com a vida. Os olhos brilhavam-lhe de raiva, por baixo do lenço preto que tinha na cabeça, amarrado por um nó, por baixo do queixo. Os olhos eram pequeninos, encafuados lá para o fundo e apenas uma pequena luz aurífera brilhava como uma faísca.   
       - Bem bistas as cousas, atcho caquel´ home bai fazer a bida negra a quem casar co ele – sentenciou a Lucinda. – E no são só dois a dezê - lo! É um merdilheiro rim cmá fome. Se meter a mão na conscência, bai - le sair mais negra do có carbão da forja do Ti Meireles mas, assim c´mássim...- disse enigmaticamente.
      - Assim eu tibesse tão certa a salbação – reforçou a Tia Germana.
      - O casamento e a mortalha no céu se talha – repetiu o Pai.
      - No há-d´haber ninhuma qui o queira. Salbaje. Criqueiro. – Disse a Deolinda cuspindo para o lume.
      - É capaze, mas olha que q´ando nasce uma arçã, nasce sempre um burro prá comer. – Disse a tia Germana com ar de conformada, com o lábio inferior sobre o de cima, numa simulação de dúvida. – Mas deixai-o ir e mais ó diabo qui o palira. Rua, qué o lugar dos cães.
      - Que raio de bida...Ó bida dum raio... A gente nasce e despois fiquemos p´ráqui, ò sabor desses ladrões. Misérias...às bezes nem a gente sabe das nossas misérias! – Reflectiu Lucinda encolhendo os ombros e o olhar no vazio.
       A vida daquelas pessoas confundia-se e interligava-de com a vidaquelas montanhas. (Mas as montanhas impunham-se sempre!). Eram seres abandonados à sua sorte, à mercê dos caprichos da Mãe Natureza, com os seus momentos mal-humorados, como toda a Mãe. Calçavam sócos de tromba alta para vencerem os montes de lama e trampa das ruas, dos cortelhos e das lojas. Era uma sociedade de explorados, de espoliados, de trapaceados, de saqueados, de assaltados, de usurpados... Mas não uma sociedade de vencidos, de derrotados, de fracos, de conformados... Porque esses só são vencidos pela Natureza e nunca por nenhum velhaco.
        Custódio saiu de casa humilhado, vergado e reduzido à sua insignificância e soberba. Mas um homem com o alter-ego dele, não podia e nem devia aceitar placidamente uma humilhação daquelas. Aquela negação era como punhais cravados no seu orgulho, na sua ambição e na sua avareza da alma. (Todo o homem se julga a seus próprios olhos). Não aceitava a constatação da superioridade dos outros. Sentia-se rejeitado, desconsolado, magoado, consternado e amargurado, mas nada o impedia de conjecturar sentimentos de vingança, de desprezo e de ódio. O pior que podemos tirar de algo mau que nos acontece na vida, é esse acontecimento servir de alimento ao animal cruel que todos temos dentro de nós. Aí se distingue o ser humano: ou retiramos o veneno que nos mata, ou a seiva que nos alimenta.
      - Atão dondé que beins, ó gabirum? – Perguntou-lhe o ti Francisco, mais conhecido pelo “ Tchico gralha”, que lhe apareceu de surpresa à entrada da loja, de espinha dobrada em arco de volta abatida, como o arco da fonte da Ferrada, com o corpo todo dobrado sobre os joelhos. Ficara assim depois de uma queda do burro sobre umas fragas nas Fontelas, onde bateu com as costas, partindo a “ espinha”.
      - E o qué que bomecê tãe a ber co isso?
      - Por i, lá fostes à pesca, mas ninhuma te mordeu o inzol – disse o ti Francisco num risinho trocista. – Quers um conselho dum tolo? Bira-te pra outras bandas. - Aconselhou-o a quem não passava o ver pelo ouvir.
       - Meta-se na sua bida. Marreco...- Atirou-lhe a deficiência à cara como se de uma doença venenosa se tratasse, querendo descarregar toda a sua frustração na infelicidade daquele frágil ser humano, desgraçado para toda a vida. – Custódio tinha a força a disfarçar a fraqueza.
        Custódio ouviu isso como um insulto, não dando importância, mas ficou-lhe qualquer coisa a moer...
        O ar era fino e frio e uma pequena e rala névoa pairava adormecida no ar. A torre da igreja, mergulhada na neblina, projectava-se no ar fresco, húmido e translúcido da noite. O galaró da torre tinha o bico virado a Sul, sinal de mau tempo. Toda a aldeia dormitava silenciosamente em quartos escuros e abafados, em casas toscas, protegidas pelas serras a Norte e a Nordeste.
       Custódio jurava retaliação bárbara e cruel.      
       Cerca de dois meses depois, vésperas de Consoada, com a mesma soberba, Custódio bateu à porta do Ti Laureno:
   - Ó Ti Laureno e Tia Germana. Hoje ´stou aqui co mesmo respeito a pedir namora à vossa Lucinda...

Texto extraído e adaptado do romance: “ Por entre a solidão das fragas”, a publicar.

Fontes de Carvalho

Fontes de Carvalho
, pseudónimo de Luís Abel Carvalho, nasceu no Larinho, uma aldeia transmontana do Concelho de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança. É o filho do meio de três irmãos.
Estudou em Moncorvo, Bragança e no Porto, onde se formou em Engenharia Geotécnia. É casado e Pai de três filhos.
Viveu no Brasil, onde passou por momentos dolorosos e de terror, a nível económico e psicológico. Chegou a viver das vendas de artesanato nas ruas e a dormir debaixo de Viadutos.
No ano de 1980 e 1981 foi Professor de Matemática em Angola, na Província de Kwanza Sul, em Wuaku-Kungo. Aí aprendeu a desmistificar certos mitos e viveu uma realidade muito diferente da propagandeada.
Em Portugal deu aulas de Matemática em diversas cidades, nomeadamente em São Pedro da Cova, Ponte de Lima, Cascais (na Escola de Alcabideche, onde deu aulas aos presos da cadeia do Linhó), Alcácer do Sal, Escola Francisco Arruda e Luís de Gusmão, em Lisboa. Frequentou durante quatro anos, como trabalhador-estudante, o curso de Engenharia Rural, no Instituto Superior de Agronomia.
Em 1995 fundou a empresa Bioprimática – Reciclagem de Consumíveis de Informática, onde trabalha até hoje como sócio-gerente.