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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Do Tempo e da Política a Nordeste

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Em tempos antiquíssimos o ter acesso à sabedoria era um privilégio e um segredo guardado, na maior parte dos casos, na penumbra conventual, nas bibliotecas e universidades sacramentalmente protegidas e reservadas.

A filosofia e o conhecimento científico partilhavam fronteiras ténues com práticas exotéricas, com artes iniciáticas e com o dom da análise do presente e da previsibilidade do futuro.
Na atualidade, com a democratização da escola, o saber e o conhecimento tornaram-se acessíveis ao comum dos mortais desde que tenha vontade e se dedique ao estudo e à investigação. Contudo, depois da revolução de abril criou-se uma grande apetência pela atividade política, como forma de mobilidade social, em detrimento do conhecimento e da cultura.
E assim, a classe política, no imaginário de muitos, perdeu o encanto e o recato de alguém que está atento ao bem-estar da sua “polis”, da sua cidade, para se tornar numa classe à parte, visionária e detentora de novas sabedorias e artes que não são partilhadas.
Esta nova classe política também se deve ao facto de se confundir política como ciência, análise e ação, com a discussão de bairro onde o político se assume como privilegiado conhecedor de um jogo que se desenvolve no enredado xadrez da vida da cidade, dos partidos, das instituições, ou das autarquias.
Contudo, a política é outra coisa, é universal e de acesso necessário e obrigatório a todos os cidadãos que vivem em comunidade que partilham interesses, têm direitos e deveres.
O político é um estereótipo construído pelo imaginário. O homem político é alguém que vive, que trabalha, que sofre e tem alegrias e tristezas que se interessa pelo mundo que o rodeia e entende que a sua casa faz parte do todo da política universal.
E muitas vezes a política deixa de ser somente razão para ser emoção nas recordações de tantos cidadãos que olham para a sua aldeia, ou para a sua cidade e não a reconhecem porque se perdeu nos enredos do progresso que não soube preservar as memórias, a alma, a vida e o sentir de tantas gerações.
E a política também é feita por aquele idoso que se lembra da fonte que existia à sua porta e que tinha água fresca no verão e quente no inverno e foi demolida na urgência da construção dum prédio de sete andares.
E a política também é feita pelo escritor que regista em livros uma cidade que vive os ciclos do tempo, das tradições e das memórias.
E a política também é feita por toda a gente que sem saber porquê se deleita na contemplação dos granitos trabalhados com paciência e perduram nas fachadas das velhas habitações e sente uma nostalgia de morte na pressa de se construir sem graça e sem beleza na padronização do betão.
E a política também é feita da tristeza de ver alterar edifícios seculares, com magníficos azulejos, para se construir um novíssimo museu com paredes alvíssimas de “pladur”.
Vivemos num tempo em que o tempo conta e por isso a “polis” é o reflexo duma civilização construída para hoje, sem grandes preocupações de futuro.
Mas como diz Antoine de Saint-Exupéry: “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito de mansinho à procura de uma fonte.”


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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