Servindo-nos, essencialmente, a título exemplificativo, do último número de A Gazeta de Bragança, saído ainda no tempo da Monarquia, vamos recolher algumas notícias de âmbito nacional. Outras, de expressão local, serão analisadas mais à frente. Poderemos ficar com uma ideia de como essas duas dimensões, que marcavam presença assídua na imprensa brigantina, se entreteciam.
São informações significativas pelo que ensinam sobre esses dias, dando uma melhor compreensão de tais tempos. Permitem-nos ver como a Bragança chegavam ecos de todos os acontecimentos nacionais, que tocariam, especialmente, a “Bragança culta”, e eram, ainda, igualmente elucidativas quanto à orientação dos periódicos e aos critérios de seleção dos acontecimentos.
Pela leitura de alguns jornais, fica-nos a sensação de que já pouco se acreditava nos governantes monárquicos.
Com certeza, a situação não estaria tão degradada como, por vezes, se pretendia fazer crer com tintas carregadas a negro que escorriam das penas dos articulistas republicanos e até daqueles que defendiam os partidos monárquicos.
Estes últimos, apesar de se digladiarem, pretendiam essencialmente reformas urgentes que salvassem a Monarquia – embora fique, por vezes, a impressão de que, para muitos monárquicos, conscientes da situação, a Monarquia dificilmente se salvaria, por já não ser capaz de se autorregenerar.
Os jornais espelhavam o ambiente que se vivia: a conflitualidade política, a discussão de ideias e ideais, as acusações mútuas, a difícil situação económica, a agitação social, os acontecimentos, situações e manifestações que eram considerados relevantes. As notícias de âmbito nacional que são dadas têm a ver com a ida às Cortes do Rei (a 23 de setembro), que aí leu o Discurso da Coroa, onde exprimiu a sua confiança no Governo “e na futura sessão legislativa”. “O brilhantismo desta solenidade é meramente oficial pelo aparato militar e diplomático, e pela curiosidade indígena de querer ver o Rei… em qualquer festa. É no que se parece muito este povo da capital com o das províncias – à parte a sua juvenil galanteria e simpática individualidade”.
O movimento grevista é referido em “À última hora”, dando conta de que mais de 12 000 operários “se apresentam em greve na classe dos corticeiros. … A intriga política fomenta com o caso da greve, a fim de estorvar a viagem do Rei ao norte do País”. O jornal espera que o “trasmontano das direitas que tem o poder” resolva a questão operária. E, finalmente, dá-se conta da “Feira de agosto”, no Parque Eduardo VII, um espaço de 17 000 metros quadrados, com arruamentos macadamizados e eletricamente iluminado à noite.
Sobre o meio bragançano, destacamos apenas uma notícia que nos aponta para a marcante presença dos militares na vida da Cidade e o importante papel que também desempenhavam no panorama “cultural”. Nos quartéis de Infantaria n.º 10 e Cavalaria n.º 9, os “dignos oficiais” organizaram festas para comemorar a “gloriosa batalha” do Bussaco. Em Infantaria, uma sessão solene com conferência e “exercícios desportivos”. Em Cavalaria, o programa constou, sobretudo, de “diversos exercícios a cavalo”. Damas brigantinas da “nossa sociedade elegante abrilhantaram estas patrióticas festas”.
Por receio, por estratégia, ou ainda, o que seria mais raro, por convicção – fruto de conversões sinceras ao regime republicano –, os jornais monárquicos apagaram-se e desapareceram depois do 5 de Outubro de 1910.
Podia haver, eventualmente, a intenção de reaparecerem com um novo facies…
Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa
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(Henrique Martins)
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