(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Naquele tempo na minha aldeia não havia cerdeiros. Quer dizer, havia os cerdeiros da estrada que davam umas cerejas miudinhas, amargas, mas que sabiam como o mel. Os cerdeiros eram guardados avaramente pelos cantoneiros que assustavam a garotada: - Se vem o senhor diretor das estradas, quero ver! Dizia o bom do cantoneiro olhando, com um ar sinistro, para a última curva da estrada como quem vislumbra a figura medonha do diabo, ou de alguma alma penada. Nunca ninguém viu o senhor diretor das estradas, mas devia ser terrífico… talvez comesse criancinhas ao pequeno-almoço… ou sabe-se lá o que faria se apanhasse a garotada da aldeia a depenicar as cerejas da estrada.
Mas junho trazia o verão e o vermelho doce das cerejas. A tentação. E nos domingos à tarde, em que talvez o senhor diretor estivesse a descansar do seu árduo trabalho de guardar os cerdeiros, a garotada investia… trepando aos cerdeiros como quem conquista a última estrela do céu… a estrela do desejo… alguns tinham medo de subir… o senhor diretor podia andar por perto, escondido no meio do monte de giestas e estevas…
… deita-me uma galhica de cerejas!
… quem está em cima come a mora… quem está em baixo estica a gola!
Mas era só um modo de falar porque durante toda a tarde os galhos de cerejas… as mais doces do mundo iam caindo milagrosamente dos cerdeiros da estrada… tempos gloriosos.
… que saudades tenho do senhor diretor das estradas!
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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