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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Música e poemas musicados - 4ª Parte

Por: António Orlando dos Santos 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Foge a terceira parte à ideia fundadora da primeira e segunda que se propuseram para darem testemunho do meu gosto pela música e também pela poesia, que concluí ser também do agrado de muitíssima gente.
Mas como é de calcular há sempre um certo encanto mais acentuado por alguma que ouvimos e apreciámos num determinado contexto. 
Pois bem, porei hoje em evidência as obras discográficas que mais apreciei no meu tempo já de adulto. No pós 25 de Abril, Fausto Bordalo Dias. 
O Fausto, compõe umas quantas músicas que reuniu num álbum que titulou de, Por Este Rio Acima. Creio havê-lo feito para a peça teatral, Fernão Mentes? -Minto. Ou talvez fosse o contrário, depois de feito os que fizeram a peça de teatro aproveitaram as músicas e conseguiram um êxito completo pois aquilo é Beleza Pura, como dizem os brasileiros.

Abre com a canção “por este rio acima”, que com o desvendar do poema nos transporta à China dos Mandarins, vem envolta numa melodia de notas musicais com essência oriental percetíveis no tanger de instrumentos de cordas que são o elemento que se destaca para dar identidade à obra que conta a subida do Rio Amarelo (deixando para trás/ a côncava funda da casa do fumo/cheguei perto do sonho flutuando nas águas/ do rio dos céus/ .... escorre o gengibre e o mel/ sedas porcelanas, pimenta e canela /recebendo ofertas de músicas suaves/ em nossas orelhas/.
E segue numa toada plangente mas que nos prende porque é uma narrativa fascinante de um mundo, que os deste lado do Atlântico até ali não suspeitavam. 
Esta introdução é necessária para eu poder dar uma pálida ideia de como me apaixonei pela música e pela lírica de Fausto num certo tempo da minha vida em que todo o meu lado espiritual me acenava com verdadeiros ideais. O tempo continuava sendo de descoberta, para mim, que de coração aberto adicionei a música de Fausto à narrativa de Fernão Mendes e obtive um resultado que por duas décadas transformou esta soma de estórias e música na minha Bíblia terrena mas que me acenava da fronteira do transcendente. Depois num ato da peça teatral começam os acordes d' o barco vai de saída. 
A primeira vez que os meus ouvidos escutaram os versos: -Por servir de criado essa Senhora/ serviu-se ela também, tão sedutora /foi pecado, foi pecado / e foi pecado sim senhor/que vida boa era a de Lisboa.
Concluí que o nosso destino é insondável e num ápice tudo muda para que a vida e o mundo continuem a girar debaixo da roda do Sol. / Mas em frente de Sesimbra / Logo um corsário francês /Nos atirou p'ra Melides /Com o barco feito em três / E por Deus e por El- Rei, / Que Grande volta que eu dei/. 
Quando a estória de Diogo Soares se desvenda, é um ato de suprema inspiração a forma como Fausto descreve um homem possuidor de uma vontade indómita, talhado para a guerra e feito nas fornalhas vulcânicas de Marte, que se transforma num criminoso sem coração nem honra, vergado à vulgaridade pela luxúria que é um dos sete pecados capitais que fazem perder os homens. E atinge a história o clímax ao cair da última frase quando reponde a seu filho que admirado o vê subir as escadas do cadafalso : /-Pergunta aos meus pecados /Que eles to dirão /Que eu vou já de maneira,/ Que tudo me parece um sonho / Dramático , mas justo, olho por olho, dente por dente. E num crescendo que nos prende à imagem e ao som num completo deslumbre pelo enredo da narrativa cai a história dos Fonsecas e dos Madureiras. Mais português do que isto só mesmo o bisneto de D. Afonso Henriques. -/ Eu cá sou dos Fonsecas / E eu cá sou dos Madureiras / De ferro e puro sangue / O que me corre nas veias / Nasci da paixão temporal / Do parto dos vendavais / Cresço no fragor da luta / Numa força bruta / P'r 'além dos mortais / Mas tenho muitas saudades / Certas penas e desejos / E aquela grande ansiedade / Como um pecado / Meu amor se te não vejo / -Olha o fado... .-Bem, isto ocupou-me o pensamento, por anos consecutivos. -A minha vida havia-se complicado um pouco, por razões que eu comparava à desdita de Fernão Mendes Pinto e quando fui para Londres trabalhar levei comigo os dois volumes da Peregrinação. 
Se a desdita era comparável era imperioso que a vontade férrea de a vencer fosse passível de ser copiada pela minha vontade também férrea de dar a volta por cima. Quando sentia desânimo, lia uma ou mais passagens da peregrinação.
Anos após quando coloquei de novo a Bíblia Sagrada na mesa de cabeceira e coloquei os dois volumes da Peregrinação na estante dos livros, as obras de Fernão Mendes Pinto e de Fausto Bordalo Dias haviam salvado um outro português que viveu quatrocentos anos depois. Claro que continuei a seguir Fausto e a sua música e porque o texto já vai longo, cito apenas alguns versos duma canção do Álbum Para lá das Cordilheiras, / É por ela que me enfeito de agasalhos / Em vez daquela manga curta colorida / Vais sair minha nação nos cabeçalhos / Ainda a tiritar de frio, adormecida / Mas o calor que era dantes também farta / E esvai-se o Tropical sentido na lapela / Foi por ela que eu vesti fato e gravata / E passei das minhas contas / Foi por ela/. Na obra de Fausto a Pátria e a nação são sempre direta ou indiretamente percetíveis, daí o meu fascínio que não escondo.
Gostei também e continuo a gostar de Pedro Barroso. Da sua capacidade de fazer obra grande e música verdadeiramente portuguesa, nos versos e nos acordes sendo a sua Menina dos olhos d' água obra digna de ouvidos sensíveis à mais bela canção de amor feita em Portugal nos últimos Cinquenta anos. / Menina em teus olhos sinto o Tejo / E vontades marinheiras de aproar / Menina nos teus lábios sinto fontes / De água doce que escorrem sem parar / Se alguém houver que não goste / Não gaste, deixe ficar / Que eu só por mim quero-te tanto / Que não vai haver menina p'ra sobrar /.
Sem desprestígio de outra música de outros autores esta que aqui mencionei é a que mais preencheu o meu Ideal de estética musical. E já agora abro uma exceção para A Chuva de Jorge Fernando que merece destaque pela qualidade e singeleza. Obrigado aos três autores citados por ordem de grandeza que eu humildemente lhes atribuo.

P.S.- Este texto dedico-o à Paula Freire, que não conheço pessoalmente, mas de quem pressinto ser mulher de elevada sensibilidade. Agradeço a gentileza da sua missiva que guardo como prenda rara, pois não recebi muitas ao longo da minha vida e esta tem para mim um especial valor! Obrigado.





Bragança, 12 /06 /2019
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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