A reforma chega devagar no calendário, mas abrupta na alma. Durante décadas, levantei-me com um propósito claro. Havia um horário a cumprir, uma responsabilidade a assumir, um serviço a prestar. O despertador não era um objeto mecânico, era o sinal de que era necessário, de que alguém contava com ele. Nunca precisei dele. Deve ter tocado uma dúzia de vezes… ao todo.
Vem a reforma e o tempo deixa de ter margens rígidas. O dia abre-se vasto, quase excessivo. E é nesse espaço alargado que começa a ecoar uma pergunta difícil: “E agora?”
O trabalho, sobretudo quando vivido como serviço público e com alma, não é só um meio de subsistência. É uma forma de identidade. É o lugar onde o homem mede a sua utilidade, onde exercita competências, onde partilha decisões, onde resolve problemas concretos que afetam vidas reais. Ao longo dos anos, o compromisso com horários, colegas e cidadãos cria uma espécie de estrutura que sustenta o sentido de si próprio. As reuniões, as tarefas concluídas, os desafios ultrapassados reforçam a percepção de que se é parte integrante de uma construção colectiva.
Quando a reforma chega, não é apenas o salário que se altera, nuns casos para mais noutros casos para menos. Acaba o ritual. Termina o cumprimento matinal aos colegas, a conversa de corredor, o peso das decisões, a pressão dos prazos. Termina o olhar de quem espera uma resposta, uma orientação, uma solução. E é aí que o homem reformado pode sentir um vazio que não estava nos planos… a sensação de que já não faz falta.
Há uma estranheza profunda em deixar de ser chamado pelo cargo, pelo título, pela função. Durante anos, o nome esteve associado a uma responsabilidade concreta. “Fale com ele.” “Ele resolve.” “Ele sabe.” Essa confiança depositada construiu uma imagem interior de relevância. E, subitamente, o telefone toca menos. O e-mail deixa de chegar. As decisões são tomadas por outros. O mundo continua, e continua sem pedir opinião.
Essa transição pode ser vivida como uma perda de importância. Como se a sociedade, grata durante décadas, fechasse a porta com um gesto administrativo. Não há nenhum mal nisso, há apenas o curso natural das instituições. Mas o coração humano não é uma instituição. O coração precisa de significado. Precisa de sentir que ainda conta.
O espírito de um homem reformado pode, oscilar entre dois polos. O alívio e a nostalgia. Há alívio em não carregar o peso das obrigações, em não viver sob a tirania do relógio e de uma hierarquia de muito duvidoso valor ou capacidade. Há liberdade em poder escolher o ritmo do dia. Mas há também nostalgia da responsabilidade, do compromisso, da pressão que, paradoxalmente, dava estrutura à existência. A obrigação era, em certo sentido, um privilégio, significava confiança, reconhecimento, necessidade.
Depois de tantos anos de trabalho, a identidade confunde-se com a função. Quando esta desaparece, é preciso reconstruir a narrativa interior. Descobrir que o valor de um homem não se esgota no cargo que ocupou, nas funções que teve. Que a importância não depende exclusivamente de uma assinatura num documento, de uma informação elaborada, ou de uma presença num gabinete. Mas essa descoberta não acontece de um dia para o outro. Exige luto, um luto discreto pela vida profissional que terminou.
Há também uma questão geracional. Muitos homens foram educados a medir o próprio valor pela produtividade, pelo desempenho, pela capacidade de sustentar e servir. O descanso prolongado pode ser interpretado quase como inutilidade. Como se parar fosse sinónimo de deixar de ser relevante. E, no entanto, a vida não se reduz à fase ativa do trabalho formal.
A reforma pode ser uma travessia interior. Um convite, ainda que não solicitado, a redefinir o que significa servir. Talvez já não seja através de processos administrativos, relatórios ou atendimentos. Talvez seja através da presença nos mais variados espaços, do voluntariado, da transmissão de experiência, do aconselhamento. A sabedoria acumulada ao longo de décadas não desaparece com a assinatura do último dia de trabalho. Pelo contrário, ganha densidade.
O desafio está em aceitar que a importância muda de forma. Já não é a importância visível, institucional, formal. É uma importância mais discreta, mas não menos real. Um avô que acompanha um neto nos trabalhos de casa. Um antigo funcionário que orienta os antigos e jovens colegas. Um cidadão experiente que participa na comunidade sem necessidade de título. O compromisso pode deixar de ser imposto pelo horário e passar a ser escolhido pelo coração.
No entanto, é legítimo que haja tristeza. É legítimo sentir falta dos colegas, das conversas, das rotinas que estruturavam o dia. É legítimo sentir que uma parte da vida ficou para trás. O erro seria negar essa emoção ou tratá-la como fraqueza. Pelo contrário, ela é prova de que o trabalho foi vivido com entrega, com seriedade, com dedicação genuína.
A verdadeira questão talvez não seja “já não tenho importância?”, mas “que forma pode agora assumir a minha importância?”. A reforma não apaga o passado, consagra-o. Os meus anos de serviço público, Todas as responsabilidades assumidas, construiram uma história que não pode ser anulada pelo simples facto de ter terminado formalmente.
O espírito de um homem que se reforma precisa de tempo para se reorganizar. Precisa de aprender que o valor não depende exclusivamente da produtividade. Que a dignidade não se reforma. Que a experiência é um capital invisível que continua a gerar frutos, mesmo que fora dos quadros oficiais.
No fim, talvez a maior transformação seja esta. Passar de uma vida definida pela obrigação para uma vida definida pela escolha. E, nessa escolha consciente, redescobrir que a importância não está apenas no fazer, mas também no ser. O homem pode deixar o serviço ativo, mas não deixa de ser homem ao serviço de quem precisa. Apenas muda o cenário onde exerce essa vocação.
E se conseguir compreender isso, a reforma deixará de ser o fim da importância, para se tornar o início de uma nova forma de presença no mundo.
Tenho a certeza absoluta do Dever Cumprido.
Tudo fiz para que a minha passagem “à disponibilidade” não fosse sentida nos serviços prestados.
Grande abraço aos que continuam a servir e que, a maioria das vezes, não têm o reconhecimento público ou institucional que tanto merecem.

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