Há homens que deixam marca pelo que constroem. Outros, pelo que dizem. O Sr. Santos deixou marca pela forma como estava. Pela presença. Pela postura. Pela serenidade com que ocupava o seu lugar no mundo.
O Café Primavera era no Loreto, em Bragança, era um ponto de encontro obrigatório para muitos, nos quais eu me incluía, um cenário de histórias, um palco de amizades, negócios, copos e desabafos. E no centro de tudo estava ele. O Sr. Santos. Calmo, paciente, humano, sério. Um homem que nunca precisou de impor autoridade porque ela emanava naturalmente da sua maneira de ser.
Havia algo de quase ritual nas noites do Primavera. As mesas enchiam-se devagar, as conversas começavam tímidas e iam crescendo com as horas. O camarão, cozido ou grelhado, chegava à mesa como uma instituição. Diziam, e com razão, que era o melhor camarão de Bragança. Mas a verdade é que o sabor não vinha apenas da qualidade ou do ponto certo de cozedura. Vinha da confiança, da sensação de pertença. Comer no Primavera uns camarões, cozidos ou grelhados... ou uma bifana era fazer parte de uma comunidade, pequena mas unida.
O Sr. Santos circulava com discrição. Observava tudo, sabia tudo, mas nunca invadia. Tinha aquele raro talento de estar presente sem se impor. Quando chegava a hora de fechar, não havia necessidade de anúncios ou de impaciências. Nunca precisou de levantar a voz. Bastava um gesto subtil, um olhar compreendido por todos. Os clientes respeitavam-no profundamente. Não por medo, mas por admiração. Bastava ele dizer: - Está na hora e todos se prontificavam a abalar.
E no meio das gargalhadas,das "bocas" dos que tinham perdido e das gabarolices dos que tinham ganho... e das noites que se prolongavam, na sueca, no dominó belga, no sobe e desce, nunca no chincalhão que ele não permitia, soava muitas vezes a voz inconfundível do Zé Pires, quando as garrafas iam ficando vazias:
- Óh Santos, há neve pelos cantos…
Era mais do que uma frase. Era um código. Um momento cúmplice que arrancava sorrisos e selava mais uma noite de convívio. E o Sr. Santos, com a sua calma habitual, resolvia a situação sem dramatismos, como quem entende que a vida é feita destes pequenos episódios que, no fundo, são tudo. E lá levava às mesas aquilo que ele sabia que era o que os clientes queriam.
O Primavera era também escola de vida. Ali cruzavam-se gerações. Pais e filhos, amigos de infância e colegas de trabalho. Quantas decisões importantes foram discutidas naquelas mesas? Quantas amizades nasceram e cresceram ali entre um prato de camarão e um copo que insistia em não ficar vazio?
Hoje já não há Primavera. Já não há mini-copa, no Magno já nada é como dantes, nem o Loreto se reconhece. Cada nome que desaparece é como uma página arrancada da história viva da cidade. Vai-se perdendo aquela Bragança genuína, feita de lugares com alma e de pessoas com caráter. Uma Bragança que marcou duas, três ou quatro gerações e que ajudou a definir o que significava pertencer.
Mas há coisas que o tempo não apaga. Restam as memórias. Restam as histórias contadas vezes sem conta. Restam as imagens de um homem direito, sereno, respeitado, que nunca precisou de gritar para ser ouvido. Restam os sabores, os cheiros, os risos. Resta a certeza de que houve um tempo em que o Primavera era parte da nossa casa, e o Sr. Santos, o seu coração.
Homenagear o Sr. Santos é homenagear uma forma de estar na vida, com dignidade, com equilíbrio, com humanidade. É lembrar que o verdadeiro respeito constrói-se todos os dias. É reconhecer que há pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam a fazer parte da identidade de uma terra.
Enquanto houver alguém que diga, com um sorriso nostálgico, “lembras-te do Primavera?”, o Sr. Santos continuará presente. Não apenas como dono de um café, mas como símbolo de uma Bragança que vive nas memórias, e que nunca deixará de viver nos corações de quem a sentiu.
Haverá outros espaços dignos de memórias e muitas mais pessoas. Só posso falar e relembrar os meus... e assim continuarei a fazer enquanto puder e quiser.
“Óh Santos… há neve pelos cantos”…
Descanse em paz Senhor Santos!

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