Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Num dos juntórios da aldeia, ao fim da tarde, o Sr. Albininho que tinha sido Seminarista, filósofo e maçom, exortava à reflexão os seus pares de conversa que o ouviam boquiabertos:
- É necessário interpretar os sinais, ver para além do imediato e do senso comum, como quem decifra nas velhas catedrais as marcas escavadas no granito e que guardam segredos de velhos pedreiros, capazes de transformar a pedra bruta, em magníficas casas do Senhor.Teorizava, solenemente, o Sr. Albininho, perante a admiração dos presentes, que não entendiam bem tamanha sabedoria do Sr. Albino…mas devia ter razão.
- Já agora sabeis por que se faz o folar pela Páscoa?!
- Porque sempre se fez!
Respondeu, todo repenicado, o alonso do Tonho que sempre tinha resposta para tudo…principalmente para a estupidez!
Diria o Sr. Albininho.
Mas, fazendo que não ouviu a atoarda do Tonho, o Sr. Albininho, solenemente, continuou:
- Assim, em tempo de galinhas poedeiras que é este, e na poupança da carne, durante 40 dias, era necessário encontrar uma fórmula para que estes produtos não se estragassem, comprometendo a precária economia doméstica. Então, o Povo, sempre sábio, toca de amassar pão com ovos, recheando-o com chouriços e presunto velho e assim, com certeza, nasceu o folar que sabe que regala e faz mal quanto basta, na abundância dos ovos, das gorduras e das carnes fumadas.
Todos ficaram admirados com tanta sabedoria e até o somítico do Barbeiro se propôs pagar uma rodada de vinho na taberna que, nesta tarde de conversa, tinha tido pouca clientela.
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.
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