Viver com caráter é, talvez, uma das formas mais raras de coragem no nosso tempo. Não é uma coragem que se exibe em palcos, nem que se proclama em discursos inflamados. É uma coragem íntima, quase invisível, que se manifesta nas escolhas diárias, quando ninguém está a ver, quando ninguém aplaude, quando a tentação se apresenta com rosto sedutor e promessa fácil.
Um homem com caráter não é aquele que nunca erra, mas aquele que não se vende. Que não negoceia os seus princípios ao sabor das conveniências. Que não troca a sua consciência por benefícios, favores, cargos ou reconhecimento. Num mundo onde tudo parece ter preço, influência, opinião, lealdade, silêncio, manter-se íntegro é um ato quase revolucionário.
Há partidos políticos que oferecem emprego, visibilidade, proteção. Há interesses obscuros que prometem atalhos. Há organizações, ideologias ou estruturas que envolvem o indivíduo numa rede de compromissos subtis, onde, pouco a pouco, a autonomia se dilui. Não é preciso que haja conspiração, basta a sedução da vantagem. Basta a ideia de que “todos fazem”, de que “é assim que o sistema funciona”. E é nesse ponto que o caráter é posto à prova.
Ter caráter é saber dizer NÃO, mesmo quando o “sim” traria conforto. É recusar favores que exigem silêncio cúmplice. É não alinhar em discursos que traem a verdade apenas porque convém. É não dobrar a espinha para garantir lugar à mesa do poder. É compreender que a dignidade não é moeda de troca.
Isto não significa viver isolado, nem rejeitar toda a forma de organização social, política ou espiritual. Significa, antes, participar sem se submeter cegamente. Pensar sem obedecer mecanicamente. Pertencer sem abdicar da própria consciência. Um homem íntegro pode ter convicções políticas, pode ter fé, pode integrar associações, mas nunca permite que essas pertenças o possuam por inteiro. A sua lealdade maior é à verdade que reconhece na sua consciência.
Vender o corpo pode assumir formas literais ou metafóricas, vender a alma é sempre um processo silencioso. Começa com pequenas concessões… um silêncio aqui, uma assinatura ali, uma omissão estratégica. De concessão em concessão, a identidade vai-se fragmentando até que o espelho devolve um rosto estranho. O homem que se vende perde o que dinheiro nenhum restitui, o respeito por si próprio.
No entanto, é possível viver de outra maneira. É possível construir uma vida alicerçada no trabalho honesto, na palavra cumprida, na coerência entre o que se pensa e o que se faz. É possível recusar privilégios que custam a liberdade interior. É possível atravessar a vida com a coluna direita, mesmo que isso implique caminhos mais longos e, quase sempre, mais difíceis.
O caráter não se improvisa. O caráter forma-se na disciplina interior. Na leitura crítica. Na reflexão. No hábito de questionar antes de aderir. Na humildade de reconhecer erros e corrigi-los. E, sobretudo, na decisão consciente de que há valores que não se negoceiam. Honestidade. Justiça. Respeito. Liberdade de pensamento.
Um homem que não se deixa comprar é um homem livre. E a liberdade interior é um dos bens mais preciosos que alguém pode possuir. Não depende de cargos, nem de estatutos, nem de aplausos. Depende da tranquilidade de deitar a cabeça na almofada e saber que não traiu aquilo que considera justo.
Num mundo onde as vozes disputam consciências e interesses disputam lealdades, o caráter é uma âncora. Mantém o homem firme quando as correntes puxam em direções opostas. Dá-lhe clareza quando a propaganda confunde. Dá-lhe serenidade quando a pressão aperta.
Viver sem vender o corpo ou a alma não é uma utopia romântica. É uma escolha diária. Exige sacrifícios, exige renúncias, exige, por vezes, solidão. Mas oferece algo incomparável. O SER! E um homem inteiro, que não se fragmenta ao sabor dos ventos, é um homem que deixa marca, não pelo poder que acumulou, mas pela integridade que preservou.
No fim, o que verdadeiramente permanece não são os cargos ocupados, as negociatas, as alianças estratégicas ou as vantagens obtidas. O que permanece é o rasto de coerência, a palavra que nunca precisou de ser desmentida, a consciência que nunca precisou de ser silenciada. E isso, num tempo em que quase tudo se negoceia, é talvez a maior forma de riqueza… talvez!
Por mim continuarei a dizer (obrigado José Régio), só vou por onde me levam os meus próprios passos!

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