Há momentos na História em que os acontecimentos nos deveriam fazer abrir os olhos. O caso dos chamados “ficheiros Epstein” tornou-se um desses momentos, não apenas pelo horror dos crimes, mas pelo que insinuou. Uma teia de cumplicidades, silêncios e proximidades entre poder, dinheiro e prestígio. Quando surgem nomes associados a círculos de elite, a figuras da monarquia, a magnatas, a instituições respeitadas, não é apenas um escândalo judicial que explode, é a confiança coletiva que estala.
Durante décadas, muitos já desconfiavam. Havia uma sensação difusa de que os “donos do mundo” jogavam noutra liga, protegidos por influências, por portas que se fecham antes que a verdade entre. Mas desconfiar é diferente de ver indícios documentados, listas, registos de voos, contactos. A materialidade do papel, real ou simbólica, tem um peso devastador. Transforma a suspeita em possibilidade concreta.
E quando a confiança cai, não cai sozinha.
Cai sobre a crença de que a monarquia simboliza honra e dever.
Cai sobre a imagem de que a Igreja representa moral e proteção.
Cai sobre o mito de que o sucesso económico é sinónimo de mérito e virtude.
O que dói não é apenas o crime. É a sensação de hipocrisia. É perceber que alguns dos que discursavam sobre valores, tradição, família ou fé podem ter circulado em ambientes onde a dignidade humana foi tratada como moeda descartável. Essa perceção corrói por dentro. Porque se os que estão no topo falham, e falham de forma tão brutal, onde se ancora a esperança?
A confiança, uma vez partida, raramente regressa intacta.
Mas talvez a pergunta mais difícil seja outra. O que resta à humanidade quando os seus símbolos se desfazem?
Resta o indivíduo comum. Resta a consciência. Resta a capacidade de indignação. Resta a recusa em normalizar o abuso. Resta a exigência de transparência. Resta a justiça, lenta, imperfeita, mas ainda possível.
Os sistemas podem apodrecer. As instituições podem falhar. As elites podem proteger-se. Mas há algo que não desaparece facilmente, a memória coletiva. E é essa memória que impede que tudo seja varrido para debaixo do tapete da conveniência.
O mundo pode regenerar-se?
A regeneração não nasce da perfeição, nasce do confronto. Toda a estrutura que colapsa revela as suas fissuras. E fissuras são oportunidades de reconstrução, se houver vontade. A História mostra-nos que muitas sociedades já atravessaram escândalos, guerras, corrupções sistémicas. Algumas sucumbiram. Outras reformaram-se, criaram mecanismos de fiscalização, fortaleceram a imprensa livre, protegeram quem denuncia, exigiram prestação de contas.
Começar de novo não significa necessariamente destruir tudo. Às vezes significa expor tudo. Limpar. Reformar. Descentralizar poder. Tornar visível o que antes era reservado a clubes fechados e salas privadas.
Mas há também um perigo… o cinismo absoluto.
Quando as pessoas deixam de acreditar em qualquer instituição, quando tudo é visto como corrupção inevitável, instala-se o vazio. E o vazio pode ser ocupado por autoritarismos, por teorias simplistas, por líderes que prometem “limpar tudo” enquanto concentram ainda mais poder.
Por isso, talvez a questão não seja “começar do zero”, mas decidir que valores são inegociáveis.
A proteção dos vulneráveis não é negociável.
A igualdade perante a lei não é negociável.
Se os poderosos falham, isso não condena a humanidade inteira. Pelo contrário, desafia-a. Obriga-a a redefinir quem merece confiança e porquê. Obriga-a a perceber que títulos, fortunas e cargos não garantem caráter.
No meio da ruína simbólica, pode nascer algo mais sólido, uma ética menos deslumbrada com o poder e mais centrada na responsabilidade. Uma sociedade que não confunda “glamour” com grandeza. Uma cidadania que não se intimide perante nomes sonantes.
Talvez o mundo não precise de começar de novo. Talvez precise, isso sim, de amadurecer.
Perder a ingenuidade dói. Mas pode ser o primeiro passo para uma lucidez mais adulta. A humanidade já atravessou a queda de impérios, a revelação de atrocidades, a exposição de corrupções profundas. Sobreviveu, não porque os líderes eram perfeitos, mas porque as pessoas comuns continuaram a exigir melhor.
No fim, o que resta à humanidade é aquilo que sempre restou. A escolha.
Escolher o cinismo ou a responsabilidade.
Escolher a apatia ou a ação.
A confiança ruiu em muitos altares. Mas a consciência não precisa de acompanhar a queda.
Temos que acabar com os mitos...!

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