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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quando a PIDE matou Humberto Delgado

 No dia 13 de Fevereiro de 1965, atraído a um monte em São Rafael de Olivença, o General sem Medo encontrou a sua morte às mãos da polícia política do Estado Novo.

DR-Humberto Delgado foi elevado, a título póstumo, marechal da Força Aérea. 

Numa edição do Século Ilustrado de 1972, o jornalista italiano Corrado Innocenti escreve sobre uma entrevista com Luis Gonzáles-Mata, escritor e agente da Brigada Político-Social, a polícia secreta espanhola durante o franquismo.

O policial tem segredos para revelar, mas o que o motiva, mais do que a verdade, é a família e o seu couro. Queria voltar para a mulher e as filhas na sua terra natal, em São Domingos, e abrir a boca e criar pressão seria a única forma, pensava ele, de obrigar o governo espanhol a libertá-lo.

O que teria o asturiano na manga? “Posso revelar como mataram Humberto Delgado?” As palavras devem ter parecido bombásticas à altura porque a única coisa que se sabia acerca do destino do famoso General sem Medo era de que se deslocara até perto da fronteira numa missão secreta e morrera algures na província de Badajoz. Fora em 1965 e nesta altura, sete anos depois, um juiz italiano acusava um português a residir em Itália, Mário de Carvalho, de ter participado no assassinato do general. Gonzáles-Mata confirmava-o: “Posso explicar como morreu, quem o matou, quem o enviou para Badajoz...” A entrevista vale a pena ser lida, por revelar uma visão clara dos eventos, mas também por retratar o anacronismo que tomava conta do país durante o Estado Novo, apoiado em décadas de censura e numa população tão afastada da política que lhe seria incompreensível a ideia de revolução engajada que o General sem Medo sonhava.

EM DOMÍNIO PÚBLICO-Capa do jornal Diário República, de 8 de Maio de 1958, onde o General sem Medo anuncia a sua candidatura à Presidência da República. 

Humberto Delgado assombra o Estado Novo

Que as movimentações de Humberto Delgado, nesta altura exilado depois do incómodo trazido pela candidatura às eleições presidenciais de 1958, tenham sido seguidas pela secreta espanhola revelam muito do problema em que se tornara. Delgado exilara-se a seguir às eleições no Brasil – onde não perde oportunidade de se declarar o verdadeiro presidente de Portugal e continua a comandar a resistência ao Estado Novo, que, dizia, só podia ser derrubado através de um golpe militar.

Foi durante este período que Henrique Galvão conduziu, em 1961, a Operação Dulcineia, liderando um grupo de anti-salazaristas e anti-franquistas no sequestro do paquete Santa Maria; e que, na passagem deste ano para 1962, ocorreu uma tentativa de sublevação da base militar de Beja, terminando com o alvejamento do líder da intentona, João Varela Gomes. Por esta acções, tornava-se óbvio que o General Sem Medo se tornara num perigo eventual quer para a estabilidade do regime ditatorial português, quer mesmo para Francisco Franco. A participação de dissidentes galegos no assalto ao Santa Maria mostrava uma união de esforços entre os opositores ao fascismo ibérico. Delgado, famoso, carismático, era o líder óbvio na resistência à ditadura dos dois lados da fronteira. Portanto, este conhecimento revelado por Mata era natural.

SHUTTERSTOCK-O aeroporto de Lisboa mudou de nome no dia 15 de Maio de 2016 em homenagem ao fundador da aeronáutica civil portuguesa e líder de oposição à ditadura. 

Embora seja recordado como uma das maiores vozes de oposição a Salazar, o General Humberto Delgado começou no outro lado da barricada. Na década de 1930, por várias vezes são registados elogios ao ditador português e a Hitler, Mussolini e Franco. Quando publica, em 1933, Da pulhice ao Homo Sapiens, fá-lo para criticar contundentemente os monárquicos e os políticos republicanos. Estes últimos foram os primeiros opositores reais ao Estado Novo, juntamente com militares do golpe de 28 de Maio de 1926, cuja antipatia pelo economista de Santa Comba Dão os levou a formar o Integralismo Lusitano, para combater o que designavam como “Salazarquia”.

O sucesso inicial do movimento integralista, liderado por Rolão Preto e Alberto Monsaraz, levou as força do Estado Novo a ilegalizá-lo e persegui-lo a partir de 1934. A figura de Humberto Delgado torna-se difícil de balizar durante este período. Por um lado, declara simpatia por Hitler numa entrevista em 1941, gabando-lhe “as capacidades humanas (...), a audácia, a virilidade, a valentia (...)”. Por outro lado, quando se aventura no teatro radiofónico, escreve peças que criticam a expulsão dos judeus de Portugal. Quando a maré da guerra se torna de evidente onda para os Aliados e a posição secreta de Portugal é a de alinhar com Inglaterra, Delgado muda a sua aliança também. Durante várias décadas, fora fidelíssimo de Salazar, mas o ditador via as colónias como a brilhante jóia de um Portugal imperial e Delgado um desperdício de fundos e uma inutilidade prática. A ruptura tornou-se inevitável.

Inconformismo fatal

DR-O grande opositor ao Estado Novo esteve exilado no Brasil, na Bélgica e na Argélia.

Mais do que a oposição ao Estado Novo, é possível que tenha sido a recusa em baixar os braços que marcou o destino de Humberto Delgado. Antes dele, os generais Norton de Matos e Quintão Meireles ofereceram-se como cordeiros sacrificiais no altar da ilusão de eleições justas durante a ditadura. Perderam, e apesar de se manterem vocais sobre as reservas que sentiam em relação a certos aspectos do salazarismo, continuaram a habitar em Portugal, morrendo na segurança da velhice.

O lado inconformado de Delgado foi o seu derradeiro pecado. Sabemos que a sua personalidade sempre foi combativa, mas a maneira como perdeu as eleições de 1958 pode ter reforçado a sua vontade de mudar o estado das coisas. José Pacheco Pereira descreveu, num dos volumes da sua biografia de Álvaro Cunhal, o ambiente em torno desse plebiscito: intimidações, violação das urnas, votos multiplicados, falseamento de actas e até prisões. O exercício eleitoral durante a ditadura sempre fora uma cosmética bem operada para dar a ilusão de escolha. Muitos o sabiam. Delgado também, mas como militar, vendo que seria impossível mudar o estado das coisas pela via política, começou a pensar em alterar a situação da forma pela qual viveu da vida toda: a acção armada.

Depois das várias façanhas vistosas e tentativas de golpe, Humberto Delgado muda-se para a Argélia, transformada em abrigo para revolucionários por Ahmed Ben Bella, o primeiro presidente da Argélia independente. Sonhava transformar o jovem país num farol de apoio para todos aqueles que combatiam o colonialismo e a ditadura. Além do militar português, também Juan Perea Capulino, auto-denominado líder da III República espanhola no exílio e herdeiro do regime democrático que caiu com a guerra civil espanhola, aí se instalara. É por isso que se cruza com o agente espanhol referido no nosso artigo. Gonzáles-Mata é descoberto na sua missão de espionagem, preso e mais tarde devolvido a Espanha. Depois de regressar de umas longas férias, é quando descobre que Delgado desapareceu em Badajoz a 13 de Fevereiro de 1965. Em Abril, os corpos de Delgado, da sua secretária e de um desconhecido são descobertos, enterrados, em Villanueva del Fresno, a três quilómetros da fronteira. Um longo debate desenrola-se na imprensa sobre a autoria dos homicídios. A resistência à ditadura aponta o dedo a Salazar. Os jornais afectos ao regime acusam os comunistas, com quem o general teve contactos anteriores.

O fatídico 13 de Fevereiro em Badajoz

Ora, apanhado no meio deste fogo cruzado, pois era acusado de cumplicidade, o governo de Franco decide mexer-se. Uma coisa é ser fascista; outro é carregar o rótulo de criminoso – que o Generalíssimo, aliás, trazia em grande tamanho colado ao corpo. A percepção é tudo: e diz Gonzáles-Mata que, como conhecedor do mundo da oposição ibérica, foi encarregue de investigar os últimos passos de Delgado até ao fatídico 13 de Fevereiro. é feita a reconstituição do crime, que anos mais tarde viria a ser confirmada pelo PIDE Rosa Casaco numa infame ENTREVISTA ao Expresso.

CC4.0-Em Villanueva del Fresno, encontramos hoje esta placa recordando o local onde foram encontrados os corpos de Humberto Delgado e de Arajaryr Campos, a sua secretária. Os seus restos mortais foram transladados para o Panteão Nacional desde 5 de Outubro de 1990. Fonte: Cardoazul

A armadilha estava preparada há muito pela PIDE, desde 1964, mas os sucessivos problemas hepáticos de Delgado foram adiando a execução. Atraído a Badajoz sob falsos pretextos, dinamizados em parte por um agente da polícia política portuguesa, Ernesto Lopes Ramos, que se fazia passar por um advogado ligado à oposição, Delgado cai na emboscada. Fora avisado pelo núcleo de opositores que por esta altura estava em Paris, mas incitado a vê-los como românticos e não homens de acção, preferiu seguir para Portugal, onde se encontraria com militares e políticos que o apoiariam. Era uma armadilha. Nos montes de São Rafael de Olivença, onde é conduzido pelo falso advogado, esperam-no então Casimiro Monteiro, Rosa Casaco e Agostinho Tienza. Casaco tentará passar mais tarde a versão de que tudo foi uma tentativa de rapto que deu para o torto, mas a exumação do corpo de Delgado e da sua secretária brasileira revelam episódios de tortura em ambos, inclusive com o esmagamento do crânio do militar dissidente. Mais tarde julgados, em 1975, em Lisboa, Monteiro e Tienza seriam considerados culpados, dando como provado o assassinato através de arma de fogo.

Foram enterrados os corpos a 30 quilómetros dali, em Villanueva del Fresno. Aí se encontra uma placa que sinaliza um local que é património nacional, embora se saiba que não foi o local do crime. Coberto de honras póstumas, incluindo nomear o Aeroporto de Lisboa (ele, que militou na Força Aérea), Humberto Delgado está hoje no Panteão Nacional, onde permanece como um símbolo perpétuo de inconformismo perante a tirania.

Bruno Fernandes

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