Nas nossas aldeias, o silêncio ocupa as ruas e a solidão pode doer mais do que o frio do inverno. Muitas vezes é um peso invisível, escondido para não incomodar, mascarado por sorrisos rápidos ou por aquela velha frase que se repete por hábito… “Está tudo bem.” Mas nem sempre está. E é por isso que a ligação entre quem vive nas aldeias e quem, por força da vida ou das profissões, teve de partir, é hoje mais essencial do que nunca.
Nunca fomos tantos a estar tão longe. E nunca foram tão poucos os que ficaram. Pais que envelhecem, vizinhos que já não veem tão bem, amigos que antes se encontravam na rua mas agora passam dias sem ouvir uma voz. O interior está cheio de gente que aprendeu a viver sem pedir nada, que não quer dar trabalho, que “não quer incomodar”. Mas mesmo quem nunca se queixa precisa de companhia, de atenção, de saber que alguém pensa nele.
É aqui que um gesto tão simples como um telefonema se transforma num verdadeiro ato de amor.
Uma chamada de dois minutos, um “estás bem?”, um “precisas de alguma coisa?”, pode ser a diferença entre alguém continuar o dia com serenidade… ou alguém ser salvo de um perigo invisível. Uma chamada pode afastar o desespero, identificar uma emergência, trazer companhia a quem passa horas sozinho, e, por vezes, pode literalmente decidir entre a vida e a morte.
Nas nossas aldeias, há casas onde ninguém entra há semanas, portas que já nem se abrem para o carteiro, janelas que já não se acendem à noite porque quem lá vive perdeu o hábito de esperar visitas. Há idosos que já não têm força para pedir ajuda, há pessoas que passam mal e acreditam que “vai passar”, há pequenos acidentes que se tornam grandes tragédias porque ninguém reparou a tempo. E, ao mesmo tempo, há filhos, netos, sobrinhos, amigos, vizinhos, todos espalhados pelo país e pelo mundo, que levam no coração uma culpa silenciosa por não conseguirem estar presentes como gostariam.
Mas não precisamos estar fisicamente presentes para cuidar.
Podemos cuidar com a voz, com a atenção, com a presença constante mesmo à distância.
É urgente que, nas nossas aldeias, se crie uma verdadeira rede de contacto humano.
Uma lista com o número de todos, dos que ficam e dos que partem.
Uma missão comunitária que não seja formal nem burocrática, mas emocional e genuína.
Falar uns com os outros todos os dias, nem que seja um minuto.
Telefonar ao vizinho que vive sozinho.
Mandar uma mensagem ao tio que está doente.
Ligar aos pais, mesmo quando dizem que “não é preciso”.
Perguntar como correu o dia.
Enviar uma fotografia, partilhar uma memória, lembrar que não estão esquecidos.
Esta rotina simples, se fosse adotada em todas as aldeias, teria o poder de criar laços novos e reforçar os antigos. De diminuir o medo. De reduzir o isolamento. De dar paz a quem está longe e segurança a quem está perto. De fazer cada pessoa sentir que faz parte de uma comunidade que cuida de todos, que não abandona, que está atenta.
A aldeia não é apenas um espaço físico com um tasco onde se joga à sueca.
É uma família alargada.
E como todas as famílias, precisa de comunicação para sobreviver.
Numa época em que tudo se resolve através de mensagens instantâneas, fazemos tão pouco uso daquilo que pode realmente salvar alguém. A voz. A voz que acalma. A voz que escuta. A voz que percebe quando alguma coisa não está bem. A voz que faz companhia. A voz que impede que o silêncio seja absoluto.
É por isso que devemos fazer deste hábito uma missão diária.
Não um dever que incomoda, mas um gesto amoroso.
Uma forma de dizer: “Eu estou aqui.”
O que nos mantém vivos, por dentro e por fora, é saber que não estamos sozinhos. E, nas nossas aldeias… esse gesto tão simples pode ser a maior prova de humanidade que podemos oferecer.

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