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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Equívocos «Bragançanos»

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 O território «sem história» do actual distrito de Bragança possui vestígios de presença humana que remontam ao Paleolítico Superior. Ou seja, grosso modo, desde há cerca de 18.000/20.000 anos que os nossos antepassados andam a “cirandare” por estas magníficas e incomparáveis terras. Embora a «cartilha oficial» não faça menção a isso. Nem a isso, nem a muitas outras coisas subsequentes… É a triste sina de um Povo que, influências tantas, prefere persistir na justificação da sua «pouca» História através de lendas de Mouros que nunca por cá andaram ou, se o fizeram, pouco tempo tiveram para fazer um “tchitchi” no Sabor ou no Azibo… “Digu ou, bá, que sou mêo tchalotu’e”…

Poderia, eventualmente, debitar “alguas cousas” sobre o Entrudo, que Carnaval é importação tardia, e antes dos séculos XVI-XVII, já há “muntu” que estava implantado o dito Entrudo, ou “Intrudu’e”, como deliciosamente pronunciava a “nh’ábó Maria”: «Ó mou filhu’e, é Intrudu’e, bale tudu’e”! Situações há, no entanto, nas quais não vale tudo. Nomeadamente no que respeita a “indrominare” as pessoas. Nos últimos tempos, de alheamentos a postura, venho-me confrontando com um desfilar, não de Caretos, mas de «caretas», ou autênticas zombarias, à nossa riquíssima História colectiva. A começar, por entre outros tantos disparates, pela fundação da magnífica e mui nobre Bragança. Sobre a qual é afirmado que foi fundada pelos Celtas no século II a.C., acrescentado sendo que tal fundação se deveu a um tal de Rei Brigo… E fica a apetecer-me «brigar»…

Recuemos, então, ao tal século II a.C., a um tempo no qual os Romanos “inda num tinhum tchigadu aqui’e”. Como tal, nada temos escrito acerca destas magníficas terras, muito menos acerca da tal mítica fundação de Bragança. Tão mítica como o Rei Brigo, personagem saída do lendário universo Galego-Irlandês. Mas isso daria pano para mangas… Avancemos, então, até ao período que corresponderia à chamada «Romanização». Época sobre a qual nos foi legada uma quantidade considerável de vestígios, indesmentível sendo que os Romanos, de facto, por cá andaram e se estabeleceram. E até nos deixaram “uas cousecas scritas” sobre os nossos antepassados e a geografia da nossa região. Escritos esses onde não consta nenhuma “Brigantia” por estas bandas. O que natural é… 

Nesses ditos escritos, por entre «geografias», «corografias», «histórias» ou «itinerários», apenas surgem duas povoações mencionadas na região, a «Pinetum» e a «Roboretum» que já por aqui trouxe, com bases bastante sólidas localizadas, respectivamente, nas imediações das actuais Vale de Telhas (Mirandela) e Castro de Avelãs (Bragança). O resto era um rede de pequenos e médios povoados, alguns fortificados, habitualmente situados em locais elevados, posteriormente romanizados alguns, outros abandonados aquando da «pax romana», descendo as gentes para os vales, onde foram sendo constituídas algumas «villae», ou seja, explorações agrícolas do género «quinta». 

Não obstante as alterações que os Romanos efectuaram na rede viária, nos métodos construtivos, no modo de vida, no sistema administrativo, dessa época só haverá mais uma povoação que poderia, eventualmente, situar-se na actual região bragançana, Curunda, a célebre e presumível «capital dos Zelas». Nada mais há acerca de denominações toponímicas, mesmo que, nos últimos tempos, à custa de um mapa tardio, se queira indexar Caladunum a Mirandela, o que se trata de um disparate tamanho, para quem conheça os itinerários das Vias Romanas... Posteriormente, chegariam os Suevos. E a eles se deve, na Alta Idade Média, a primeira divisão paroquial-administrativa onde é mencionado o território do actual distrito bragançano. Na qual surgem, inicialmente, cinco designações atribuíveis à região, existindo uma posterior interpolação, criada sendo uma sexta. 

Designações essas que não correspondiam a povoações propriamente ditas, mas sim a terras ou paróquias abrangentes. Ou seja, para melhor se perceber, muito mais tarde seria criada a província de Trás-os-Montes, sem haver qualquer povoação que tomasse o nome de «Trás-os-Montes»... Para lá de três dessas designações cujos nomes se perderiam no tempo, cujas áreas corresponderiam, grosso modo, a territórios, na actualidade, situados nos concelhos de Carrazeda, Macedo e Mogadouro, as restantes permaneceriam registadas no vocabulário. São elas Bragança, Ledra e Vilariça. Dito de outra forma, estas três designações não correspondiam a povoações, mas sim a «terras», as quais dariam origem, já na Baixa Idade Média, às «Terras de Bragança», «Terras de Ledra» e «Terras da Vilariça». Às quais se acrescentariam as «Terras de Vinhais», «Terras de Lampaças» e «Terras de Miranda». 

Destes seis exemplos, três deles originariam as designações das povoações que, na actualidade, servem de sede concelhia, ou seja, Bragança, Miranda e Vinhais, sendo comum, na documentação medieval, que as povoações aí situadas fossem igualmente identificadas através das «terras» onde se localizavam, isto é, a título exemplificativo, Algoso também era individualizado como estando nas «Terras de Miranda». As restantes três apenas originariam a sua associação a nomes de povoações que nelas se situavam. Ainda hoje subsistem testemunhos dessa época, como Quintela de Lampaças, Vilar de Ledra ou Santa Comba da Vilariça, outros havendo e tendo havido. 

Resumamo-nos, porém, a Bragança… A primeira menção, sob a forma «Vergancia» (ou «Vergantia»), atribuível a um território, não a uma povoação específica, data da segunda metade do século VI. Posteriormente, já em época Visigoda, surgirão moedas cunhadas em «Brigantia». Nome que, entre os séculos IX-XI, evoluiria para as registadas formas de «Bregancia», «Bregantia» ou «Vergantia». Por sua vez, até à primeira metade do século XII, surgem as alternativas «Bragancia» e «Vergancia». Conjunto de designações estas que nunca se refere a uma povoação, mas sempre às «terras», ou seja, a documentação disponível e consultada, até à primeira metade do século XII, nunca referencia uma povoação com o nome de «Bragança», mas sim diversas povoações que se situavam nas «Terras de Bragança». 

Seria apenas na segunda metade do século XII que surgiria o primeiro documento a mencionar, especificamente, a existência de uma «civitate bragancia» ou «uilla bragancia». Ver referido que Bragança foi fundada por Celtas, destruída pelos Árabes, tendo sido reconstruída por Fernão Mendes de Bragança («Tenens» das «Terras de Bragança», não da povoação de Bragança…), causa-me alguma confusão, apenas e tão só porque no imenso acervo documental que já consultei ao longo de mais de três décadas, aí incluídas as «crónicas árabes», não detecto nada que corrobore essas informações… E como a «historieta» do Rei Brigo é o que é, não me surpreende que, à custa dos sufixos «brig-», «berg-» ou «verg-», claramente de influência celta, alguém se tenha “alembradu’e” de criar mais um mito, semelhante ao da «Julióbriga» que o Abade de Baçal, muito bem, desfez. Existe uma grande distância entre mitos, lendas… e realidade. E não precisamos de inventar grandeza quando grandeza suficiente já temos…

E “prontus’e”… Se alguém pretender mais algumas achegas, ou se discordar do exposto, faça o favor, sem recurso a referências wikipédicas (!!!), de contestar. Um destes dias, para completar o ramalhete, já cá irei trazendo as restantes medievais «Terras»: Ledra, Lampaças, Vinhais, Miranda e Vilariça.


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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