(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
1 – Cerca de 4 séculos a. C., Aristóteles dizia que o ser humano era o único animal dotado de lógica, ou seja, o único animal racional. E, de facto, o ser humano foi o único capaz de compreender a realidade e a interpretar como nenhum outro, o que lhe permitiu desenvolver a ciência nas suas diferentes valências, ao ponto de construir toda uma realidade nova na área da saúde, da electrónica, dos transportes, da comunicação, etc., etc. Por outro lado, o ser humano tem uma consciência moral que nenhum outro animal possui. Por isso, a inteligência e a moral distinguem o ser humano de todos os outros animais, colocando-o numa esfera acima de qualquer um deles.
2 - No entanto, a História da Humanidade está repleta de comportamentos humanos, tanto no plano individual como no plano social, que parecem pôr em causa a sua inteligência racional bem como a sua consciência moral, como podemos constatar nos seguintes casos.
2.1 – Ultimamente, tem sido notícia frequente o caso Epstein, em que alguns dos homens mais ricos e pderosos do mundo se atolaram em abusos sexuais a menores de idade, provenientes das classes pobres. Entre os acusados encontram-se 2 personagens que já foram os mais ricos do mundo, Bill Gates e Elon Musk, e Donald Trump, eleito 2 vezes presidente do país mais poderoso do mundo.
Onde está a racionalidade desses comportamentos de seres todo-poderosos, que, teoricamente, teriam dinheiro mais que suficiente para serem felizes sem descerem ao nível a que desceram? Analisando a motivação que os impeliu para tais comportamentos, teremos de concluir que os mesmos nada tiveram de racional e resultaram apenas da necessidade que sentiam de satisfazerem os seus impulsos mais baixos e ordinários de simples animais, ainda que à custa da dignidade dos mais pobres.
2.2 – Se o caso anterior responsabiliza apenas os seus autores individuais, a análise da História da Humanidade mostra-nos um conjunto de comportamentos que responsabilizam grande parte da Humanidade, como aconteceu em todas as guerras em que uns povos invadiram outros.
Para não irmos mais longe, recordemos a II Guerra Mundial, em que morreram mais de 60 milhões de pessoas, sem se vislumbrar, na sua génese, outro objectivo que não fosse a apetência de Hitler pela glória de construir um império alemão, que fosse o maior de toda a História da Humanidade, não obstante a causa invocada tivesse sido a superioridade da raça ariana e a tentativa de genocídio dos judeus, considerados os açambarcadores da riqueza alemã.
É, pois, fácil de ver que uma coisa era a motivação apresentada por Hitler à opinião pública alemã, e outra bem diferente era a sua real motivação. Por outras palavras, uma coisa era a sua motivação expressa, completamente falseada, e outra bem diferente era a sua motivação escondida, a verdadeira, que visava apenas satisfazer os impulsos animais do seu “ego”.
Por outro lado, Estaline esteve com Hitler, numa primeira fase, para depois se juntar aos Aliados na luta contra o mesmo Hitler. Estaline, que até os seus colaboradores mais próximos foi dizimando em purgas sucessivas, acabou por construir o império soviético da cortina de ferro à custa dos países satélites, que foram submetidos, sem apelo nem agravo, com a desculpa do triunfo do “internacionalismo proletário” sobre o “imperialismo capitalista”, mas que, ao fim e ao cabo, nada mais era do que satisfazer os impulsos animais do seu “ego”, iguais aos de Hitler.
Na verdade, a verdadeira motivação, tanto de Hitler como de Estaline, consistia em satisfazer o egocentrismo mais bárbaro e selvagem da animalidade de cada um deles, que demonstraram uma fome insaciável de poder, de prestígio, de glória e de riqueza - um verdadeiro imperialismo do Eu - tanto num caso como no outro.
2.3 - Mais recentemente, em 2022, Putin invadiu a Ucrânia com o argumento motivacional de que queria “desnazificar” esse país, dando origem a uma guerra que já provocou cerca de 1,2 milhões de baixas, no lado russo, e cerca de 6 centenas de milhares de baixas, entre os ucranianos. No entanto, passados quase 4 anos, Putin já não fala em desnazificar, para acabar com a invasão, exigindo, apenas, que a Ucrânia lhe entregue a região de Dombas, que é rica num conjunto de produtos naturais, todos eles importantes para a indústria, ameaçando continuar com a invasão até atingir esse seu objectivo.
Afinal, a desnazificação não era a sua verdadeira MOTIVAÇÃO, mas apenas uma desculpa para se apoderar de bens materiais muito valiosos, como, aliás, Estaline já tinha feito na II Guerra Mundial, em que provocou a morte, à fome, de cerca de 10 milhões de ucranianos, por lhes ter roubado os cereais em que o seu país era rico.
E se a MOTIVAÇÃO de Putin não passa duma roubalheira, sem nada que a justifique em termos racionais, menos racional parece a atitude de alguns comunistas que aprovam e apoiam essa selvajaria de Putin, numa contradição que nada tem de racional, mesmo à luz da ideologia marxista, com a agravante de virem agora condenar a invasão da Venezuela, pelos EUA, para o sequestro de Maduro.
2.4 - Também nos EUA, Trump teve um primeiro mandato em que a sua animalidade se sobrepôs sempre à sua hipotética racionalidade, tendo perdido a reeleição para Joe Biden, num processo que ele classificou de fraude, sem apresentar um único facto objectivo que justificasse essa alegação. No entanto, a mesma foi aceite como verdadeira por cerca de 70% dos seus apoiantes, a ponto de muitos deles invadirem o Capitólio, onde mataram alguns dos guardas de serviço e se propunham, não só inverter os resultados reais da votação, mas também atacar e, eventualmente, matar Nancy Pelosi, então presidente da Câmara dos Representantes.
Se todo esse comportamento de Trump e de 70% dos seus apoiantes já não era nada racional, mais irracionais se mostram a invasão da Venezuela e a prisão de Maduro, bem como todas as suas justificações, o mesmo se dizendo a respeito das suas pretensões em relação à Gronelândia, porque, tanto num caso como noutro, a sua verdadeira motivação teve a ver com o petróleo e outras riquezas materiais, muito úteis para os EUA e para satisfazer o imperiaismo do Eu do próprio Trump.
3 – Perante estes factos, uma pergunta se coloca: como entender e explicar estes comportamentos animalescos de seres humanos que se dizem racionais? Qual a sua justificação ou, por outras palavras, qual a sua verdadeira MOTIVAÇÃO?
Para respondermos a esta questão, temos que recorrer à ajuda da Psicologia científica no seu capítulo da MOTIVAÇÃO. Já não é segredo para ninguém que a MOTIVAÇÃO do ser humano assenta em duas dimensões distintas e até contraditórias: a animalidade e a racionalidade.
A dimensão «animal» do ser humano divide-se em duas componentes: - a componente puramente biológica, e a componente emocional ou psicossocial, como lhe chamam os psicólogos. A dimensão racional, por sua vez, é composta por 3 componentes: a cognitiva, a moral e a espiritual.
3.1 - Ao nível da componente biológica, o principal impulso motivacional instintivo é o prazer, entendido em termos latos, desde o prazer da comida, do álcool e da droga, ao prazer do sexo e de todo o conforto corporal. Ao nível da componente emocional, as principais necessidades, também instintivas, são o dinheiro, o complexo de superioridade, de primazia e de poder sobre os Outros, o narcisismo, o reconhecimento e aplauso dos seus méritos pelos outros seres humanos, a vingança, a inveja, o ciúme, a maledicência e até a criminalização ou diabolização dos seus adversários ou não apoiantes.
Em síntese, no plano da animalidade, a motivação assenta sempre no egocentrismo, chegando ao extemo do que alguns filósofos, como Sartre e Levinas, designam de imperialismo do Eu, i.é., na satisfação absurda e sem limites do “ego” animal em detrimento do “ego racional”.
3.2 - A dimensão racional, por sua vez, também possui três componentes: a componente cognitiva, no plano intelectual, e as componentes moral e espiritual. Estas 3 compnentes estão na origem de motivações instintivas bem diferentes e até opostas às motivações da animalidade, referidas atrás. E se a animalidade leva o animal a procurar a sua felicidade na satisfação dos seus impulsos motivacionais centrados no egocentrismo, a inteligência e a consciência moral criam, no Eu, uma felicidade assente numa satisfação interior, sem quaisquer contrapartidas materiais típicas da animalidade. É a MOTIVAÇÃO baseada na primazia do bem comum sobre os interesses particulares, numa lógica de acção baseada na ética da reciprocidade e na igualdade de direitos e deveres.
Alguns seres humanos vão mais longe e encontram uma MOTIVAÇÃO muito forte nos seus valores espirituais, a ponto de subordinarem todos os seus interesses pessoais da dimensão animal aos valores espirituais em que acreditam. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o sacerdote polaco Maximiliano Kolbe, que se ofereceu aos soldados nazis para ser executado no lugar dum outro prisioneiro polaco com filhos menores.
Acontece que a mesma pessoa pode, em determinadas circunstâncias, deixar-se levar, consciente ou inconscientemente, pelos instintos da sua animalidade, enquanto que, noutras circunstâncias, consegue fazer prevalecer os seus impulsos da racionalidade.
4 – Em forma de conclusão direi que uma coisa é a motivação invocada perante a opinião pública, e outra, bem diferente, é a motivação real, seja na política, na religião, no futebol, nos negócios, no trabalho, na família ou em qualquer outro sector da sociedade humana. Por outras palavras, uma coisa é a motivação expressa, e outra bem diferente é a motivação escondida, com o objectivo de escamotear a perfídia dos nossos comportamentos.
Em síntese, a motivação baseada nos impulsos ou instintos da animalidade visa sempre atingir objectivos egocêntricos, seja a nível biológico, seja a nível emocional ou psicossocial. A motivação assente na racionalidade, por sua vez, visa a satisfação do eu através do conhecimento intelectual, mas sobretudo através da consciência moral e, até, nalguns casos, através da espiritualidade, como já referimos atrás.
Quando a animalidade se sobrepõe à racionalidade, ou seja, quando o coração controla a razão, os actos humanos passam a ser comportamentos de meros animais irracionais, ainda que quase sempre disfarçados de actos de grande generosidade e interesse colectivo.
César Urbino Rodrigues, natural da aldeia de Peredo dos Castelhanos, concelho de Moncorvo, estudou 9 anos no Seminário de Macau, fez a licenciatura em Filosofia na Universidade do Porto, o Mestrado em Filosofia da Educação na Universidade do Minho, com uma tese sobre «As Coordenadas fundamentais da Educação no Estado Novo», e o doutoramento na Universidade de Valhadolid, em Teoria e História da Educação, com uma tese sobre a «Representação do Outro No Estado Novo. Foi professor no ensino secundário, na Escola do Magistério Primário de Bragança, no ISLA de Bragança, no Instituto Piaget de Mirandela e DAPP na Escola Superior de Educação de Bragança.


Caro César:
ResponderEliminarConvidas-nos a revisitar uma das ideias mais antigas da filosofia, a definição do ser humano como “animal racional”, tão marcante em Aristóteles, sob uma perspetiva que me parece particularmente actual, a da motivação como força estruturante do comportamento humano.
Gostei especialmente da forma como o texto/reflexão, com que “nos” continuas a ensinar (aos teus ex-alunos nos quais orgulhosamente me incluo passados mais de 50 anos), questiona a aparente supremacia da razão, mostrando que, muitas vezes, aquilo que julgamos serem decisões puramente racionais estão profundamente enraizadas em impulsos, desejos, necessidades e até falta de valores.
Muitos atos apresentados como altruístas ou de interesse colectivo podem, afinal, ter raízes em motivações emocionais ou reativas. O discurso moral pode encobrir ressentimento, a defesa do bem comum pode servir necessidades pessoais de afirmação ou egoísmo.
Muitas vezes, o que parece generosidade pode ser apenas instinto com uma máscara sofisticada. O desafio humano é aprender a distinguir entre ambos.
Emoção e razão, ambas coexistem…
Muito obrigado.
Grande abraço.
HM