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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O animal racional à luz da motivação

Por: César Urbino Rodrigues
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 1 – Cerca de 4 séculos a. C., Aristóteles dizia que o ser humano era o único animal dotado de lógica, ou seja, o único animal racional. E, de facto, o ser humano foi o único capaz de compreender a realidade e a interpretar como nenhum outro, o que lhe permitiu desenvolver a ciência nas suas diferentes valências, ao ponto de construir toda uma realidade nova na área da saúde, da electrónica, dos transportes, da comunicação, etc., etc. Por outro lado, o ser humano tem uma consciência moral que nenhum outro animal possui. Por isso, a inteligência e a moral distinguem o ser humano de todos os outros animais, colocando-o numa esfera acima de qualquer um deles.

2 - No entanto, a História da Humanidade está repleta de comportamentos humanos, tanto no plano individual como no plano social, que parecem pôr em causa a sua inteligência racional bem como a sua consciência moral, como podemos constatar nos seguintes casos.

2.1 – Ultimamente, tem sido notícia frequente o caso Epstein, em que alguns dos homens mais ricos e pderosos do mundo se atolaram em abusos sexuais a menores de idade, provenientes das classes pobres. Entre os acusados encontram-se 2 personagens que já foram os mais ricos do mundo, Bill Gates e Elon Musk, e Donald Trump, eleito 2 vezes presidente do país mais poderoso do mundo. 

Onde está a racionalidade desses comportamentos de seres todo-poderosos, que, teoricamente, teriam dinheiro mais que suficiente para serem felizes sem descerem ao nível a que desceram? Analisando a motivação que os impeliu para tais comportamentos, teremos de concluir que os mesmos nada tiveram de racional e resultaram apenas da necessidade que sentiam de satisfazerem os seus impulsos mais baixos e ordinários de simples animais, ainda que à custa da dignidade dos mais pobres.

2.2 – Se o caso anterior responsabiliza apenas os seus autores individuais, a análise da História da Humanidade mostra-nos um conjunto de comportamentos que responsabilizam grande parte da Humanidade, como aconteceu em todas as guerras em que uns povos invadiram outros. 

Para não irmos mais longe, recordemos a II Guerra Mundial, em que morreram mais de 60 milhões de pessoas, sem se vislumbrar, na sua génese, outro objectivo que não fosse a apetência de Hitler pela glória de construir um império alemão, que fosse o maior de toda a História da Humanidade, não obstante a causa invocada tivesse sido a superioridade da raça ariana e a tentativa de genocídio dos judeus, considerados os açambarcadores da riqueza alemã. 

É, pois, fácil de ver que uma coisa era a motivação apresentada por Hitler à opinião pública alemã, e outra bem diferente era a sua real motivação. Por outras palavras, uma coisa era a sua motivação expressa, completamente falseada, e outra bem diferente era a sua motivação escondida, a verdadeira, que visava apenas satisfazer  os impulsos animais do seu “ego”.

Por outro lado, Estaline esteve com Hitler, numa primeira fase, para depois se juntar aos Aliados na luta contra o mesmo Hitler. Estaline, que até os seus colaboradores mais próximos foi dizimando em purgas sucessivas, acabou por construir o império soviético da cortina de ferro à custa dos países satélites, que foram submetidos, sem apelo nem agravo, com a desculpa do triunfo do “internacionalismo proletário” sobre o “imperialismo capitalista”, mas que, ao fim e ao cabo, nada mais era do que satisfazer os impulsos animais do seu “ego”, iguais aos de Hitler.

Na verdade, a verdadeira motivação, tanto de Hitler como de Estaline, consistia em satisfazer o egocentrismo mais bárbaro e selvagem da animalidade de cada um deles, que demonstraram uma fome insaciável de poder, de prestígio, de glória e de riqueza - um verdadeiro imperialismo do Eu - tanto num caso como no outro.

2.3 - Mais recentemente, em 2022, Putin invadiu a Ucrânia com o argumento motivacional de que queria “desnazificar” esse país, dando origem a uma guerra que já provocou cerca de 1,2 milhões de baixas, no lado russo, e cerca de 6 centenas de milhares de baixas, entre os ucranianos. No entanto, passados quase 4 anos, Putin já não fala em desnazificar, para acabar com a invasão, exigindo, apenas, que a Ucrânia lhe entregue a região de Dombas, que é rica num conjunto de produtos naturais, todos eles importantes para a indústria, ameaçando continuar com a invasão até atingir esse seu objectivo. 

Afinal, a desnazificação não era a sua verdadeira MOTIVAÇÃO, mas apenas uma desculpa para se apoderar de bens materiais muito valiosos, como, aliás, Estaline já tinha feito na II Guerra Mundial, em que provocou a morte, à fome, de cerca de 10 milhões de ucranianos, por lhes ter roubado os cereais em que o seu país era rico.

E se a MOTIVAÇÃO de Putin não passa duma roubalheira, sem nada que a justifique em termos racionais, menos racional parece a atitude de alguns comunistas que aprovam e apoiam essa selvajaria de Putin, numa contradição que nada tem de racional, mesmo à luz da ideologia marxista, com a agravante de virem agora condenar a invasão da Venezuela, pelos EUA, para o sequestro de Maduro. 

2.4 - Também nos EUA, Trump teve um primeiro mandato em que a sua animalidade se sobrepôs sempre à sua hipotética racionalidade, tendo perdido a reeleição para Joe Biden, num processo que ele classificou de fraude, sem apresentar um único facto objectivo que justificasse essa alegação. No entanto, a mesma foi aceite como verdadeira por cerca de 70% dos seus apoiantes, a ponto de muitos deles invadirem o Capitólio, onde mataram alguns dos guardas de serviço e se propunham, não só inverter os resultados reais da votação, mas também atacar e, eventualmente, matar Nancy Pelosi, então presidente da Câmara dos Representantes.

Se todo esse comportamento de Trump e de 70% dos seus apoiantes já não era nada racional, mais irracionais se mostram a invasão da Venezuela e a prisão de Maduro, bem como todas as suas justificações, o mesmo se dizendo a respeito das suas pretensões em relação à Gronelândia, porque, tanto num caso como noutro, a sua verdadeira motivação teve a ver com o petróleo e outras riquezas materiais, muito úteis para os EUA e para satisfazer o imperiaismo do Eu do próprio Trump.  

3 – Perante estes factos, uma pergunta se coloca: como entender e explicar estes comportamentos animalescos de seres humanos que se dizem racionais? Qual a sua justificação ou, por outras palavras, qual a sua verdadeira MOTIVAÇÃO?

Para respondermos a esta questão, temos que recorrer à ajuda da Psicologia científica no seu capítulo da MOTIVAÇÃO. Já não é segredo para ninguém que a MOTIVAÇÃO do ser humano assenta em duas dimensões distintas e até contraditórias: a animalidade e a racionalidade. 

A dimensão «animal» do ser humano divide-se em duas componentes: - a componente puramente biológica, e a componente emocional ou psicossocial, como lhe chamam os psicólogos. A dimensão racional, por sua vez, é composta por 3 componentes: a cognitiva, a moral e a espiritual. 

3.1 - Ao nível da componente biológica, o principal impulso motivacional instintivo é o prazer, entendido em termos latos, desde o prazer da comida, do álcool e da droga, ao prazer do sexo e de todo o conforto corporal. Ao nível da componente emocional, as principais necessidades, também instintivas, são o dinheiro, o complexo de superioridade, de primazia e de poder sobre os Outros, o narcisismo, o reconhecimento e aplauso dos seus méritos pelos outros seres humanos, a vingança, a inveja, o ciúme, a maledicência e até a criminalização ou diabolização dos seus adversários ou não apoiantes.  

Em síntese, no plano da animalidade, a motivação assenta sempre no egocentrismo, chegando ao extemo do que alguns filósofos, como Sartre e Levinas, designam de imperialismo do Eu, i.é., na satisfação absurda e sem limites  do “ego” animal em detrimento do “ego racional”.

3.2 - A dimensão racional, por sua vez, também possui três componentes: a componente cognitiva, no plano intelectual, e as componentes moral e espiritual. Estas 3 compnentes estão na origem de motivações instintivas bem diferentes e até opostas às motivações da animalidade, referidas atrás. E se a animalidade leva o animal a procurar a sua felicidade na satisfação dos seus impulsos motivacionais centrados no egocentrismo, a inteligência e a consciência moral criam, no Eu, uma felicidade assente numa satisfação interior, sem quaisquer contrapartidas materiais típicas da animalidade. É a MOTIVAÇÃO baseada na primazia do bem comum sobre os interesses particulares, numa lógica de acção baseada na ética da reciprocidade e na igualdade de direitos e deveres. 

Alguns seres humanos vão mais longe e encontram uma MOTIVAÇÃO muito forte nos seus valores espirituais, a ponto de subordinarem todos os seus interesses pessoais da dimensão animal aos valores espirituais em que acreditam. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o sacerdote polaco Maximiliano Kolbe, que se ofereceu aos soldados nazis para ser executado no lugar dum outro prisioneiro polaco com filhos menores.

Acontece que a mesma pessoa pode, em determinadas circunstâncias, deixar-se levar, consciente ou inconscientemente, pelos instintos da sua animalidade, enquanto que, noutras circunstâncias, consegue fazer prevalecer os seus impulsos da racionalidade.

4 – Em forma de conclusão direi que uma coisa é a motivação invocada perante a opinião pública, e outra, bem diferente, é a motivação real, seja na política, na religião, no futebol, nos negócios, no trabalho, na família ou em qualquer outro sector da sociedade humana. Por outras palavras, uma coisa é a motivação expressa, e outra bem diferente é a motivação escondida, com o objectivo de escamotear a perfídia dos nossos comportamentos.

Em síntese, a motivação baseada nos impulsos ou instintos da animalidade visa sempre atingir objectivos egocêntricos, seja a nível biológico, seja a nível emocional ou psicossocial. A motivação assente na racionalidade, por sua vez, visa a satisfação do eu através do conhecimento intelectual, mas sobretudo através da consciência moral e, até, nalguns casos, através da espiritualidade, como já referimos atrás.

Quando a animalidade se sobrepõe à racionalidade, ou seja, quando o coração controla a razão, os actos humanos passam a ser comportamentos de meros animais irracionais, ainda que quase sempre disfarçados de actos de grande generosidade e interesse colectivo.


César Urbino Rodrigues
, natural da aldeia de Peredo dos Castelhanos, concelho de Moncorvo, estudou 9 anos no Seminário de Macau, fez a licenciatura em Filosofia na Universidade do Porto, o Mestrado em Filosofia da Educação na Universidade do Minho, com uma tese sobre «As Coordenadas fundamentais da Educação no Estado Novo», e o doutoramento na Universidade de Valhadolid, em Teoria e História da Educação, com uma tese sobre a «Representação do Outro No Estado Novo. Foi professor no ensino secundário, na Escola do Magistério Primário de Bragança, no ISLA de Bragança, no Instituto Piaget de Mirandela e DAPP na Escola Superior de Educação de Bragança.

1 comentário:

  1. Caro César:
    Convidas-nos a revisitar uma das ideias mais antigas da filosofia, a definição do ser humano como “animal racional”, tão marcante em Aristóteles, sob uma perspetiva que me parece particularmente actual, a da motivação como força estruturante do comportamento humano.
    Gostei especialmente da forma como o texto/reflexão, com que “nos” continuas a ensinar (aos teus ex-alunos nos quais orgulhosamente me incluo passados mais de 50 anos), questiona a aparente supremacia da razão, mostrando que, muitas vezes, aquilo que julgamos serem decisões puramente racionais estão profundamente enraizadas em impulsos, desejos, necessidades e até falta de valores.
    Muitos atos apresentados como altruístas ou de interesse colectivo podem, afinal, ter raízes em motivações emocionais ou reativas. O discurso moral pode encobrir ressentimento, a defesa do bem comum pode servir necessidades pessoais de afirmação ou egoísmo.
    Muitas vezes, o que parece generosidade pode ser apenas instinto com uma máscara sofisticada. O desafio humano é aprender a distinguir entre ambos.
    Emoção e razão, ambas coexistem…
    Muito obrigado.
    Grande abraço.
    HM

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