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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 3 de abril de 2021

O Bolo Podre

 Naquele tempo, na Páscoa, o bolo podre era o rei. Sobressaía quase a pedir meças ao cordeiro assado no forno. Um e outro não queriam saber do Natal, pois aí havia outros a distinguirem-se e a merecerem a humana atenção.
A atafona, que é um modo de dizer as canseiras, começava no Dia de Ramos com a escolha das pernadas de oliveira para se fazerem os ramos a levar à Missa. Não é que fosse algo para se ter vaidade, mas até nisso, cada qual procurava exibir o que resultava da sua arte para a coisa.
 
Era pois então o começo e o entranhar do período de Páscoa que se fazia de muito se sentir e muito se rezar, mas era também tempo de alegria pela alva e até ao escurecer do Domingo. Passada a Paixão, celebrava-se a Ressurreição com tudo a preceito.
Na Semana Santa o forno não parava comparado com o resto do ano, pois não era por dá cá aquela palha que ele se acendia. Não que não houvesse vontade, mas os comeres eram parcos. Forno quente e preceitos para o encher era luxo. Só em ocasiões especiais, tipo o dia do Padroeiro e pouco mais tirando a Páscoa.
Mas indo ao bolo podre. Antes de mais, havia que se arranjar lenha a preceito pois a empreitada não era fácil. O ventre do forno tinha que ser esquentado, mas não assim por aí além dada a fineza do produto em questão elaborado a partir de coisas e finas e a merecer todos os cuidados.
Sensíveis que eram e são, quentura a mais, e lá se ia a obra. Havia, pois, que se conhecer bem o forno sabendo-se da sua capacidade de se manter suficientemente brando e de mais o tempo necessário entre o tapar-se e o abrir-se.
Descuido resultava num monte de bolos mais pretos que pretos da Guiné, com o devido respeito, ou nuns amontoados de massa malcozida e pronta a ir para o lixo. Nem para a lavagem dos recos servia. Só mulher sem vergonha na cara se atreveria a ir à Missa de Páscoa se não lhe tivesse corrido bem o labor de fazer bolos poderes.
 
Quanto à lenha. Está-se mesmo a ver que era do mais importante, pois com o seu arder se consegue a temperatura certa. A de giestas era a mais recomendável logo antes das vides que eram pau para toda a colher e estavam sempre à mão. Ambas ardem facilmente e não se aguentam muito tempo a provocar escaldão.
Cuidada a lenha havia o resto. A farinha que se comprava ao moleiro de Alvelos com moinho estabelecido no rio Varosa, os ovos da criação mantida e sobrevivida no galinheiro, água da boa e pura, e pouco mais, digo eu que quanto a saber de tal cozinhado sou a rasar o zero.
Tudo misturado e feita a massa o importante era a aventura do forno feita espera e apreensão. No entanto, antes disso, havia trabalho e duro, pois amassar era obra com exigir de vontade e força. Mexia-se, removia-se, batia-se, socava-se. Podia até ser que na imaginação alguém fosse socado mesmo sem estar dentro da gamela. Mas não. Era época de paz e de amor.
Cortada, amontoada e arredonda a massa fechava-se a porta do forno com ternura e com uma benzedura. Chegada a hora, sustinha-se a respiração, acalmava-se o coração, controlava-se a emoção. Abria-se e soltava-se a alegria.
 
Notaram por certo que contei como se já tivesse sido. Salvaguarda-se, contudo, que ainda é e será. Não tanto como antes, mas mantém-se a tradição que vem de longe e não tem fim porque as coisas boas que são rosas nas nossas memórias deixam por aí as suas pétalas tocadas por suaves brisas.

Manuel Igreja

sexta-feira, 2 de abril de 2021

... NÃO DESISTAS

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Está quase… não desistas…
Não chores… e resiste à sombra cinzenta da saudade
O Verão não tarda. E logo regressas ao aconchego do abraço… à emoção do beijo.
- Meu filho quanto me tardaste! 
Hão de dizer os mais idosos lavados em lágrimas como se as ausências fossem tantas, em comparação com a brevidade das chegadas.
De novo as praças e as ruas se vão animar com milhares de mulheres, homens e crianças que falam todas as línguas..
A igreja vai ficar cheia de devotos que se preparam para a procissão e para levar o pálio.
Nos cafés a cerveja será fresca e as valentias dos portugueses, por esse mundo de Cristo, vão-se ampliar até ao infinito.
O silêncio das cidades, vilas e aldeias vai sucumbir no fulgor, do “meu querido mês de Agosto”  
Não desistas… é quase agosto… tempo das segadas e das malhas… de bailes, de rapazes e raparigas…. de abraços e beijos. De idosos que descansam os olhos no fascínio das bailarinas que animam o arraial
As andorinhas vão continuar a perseguir o infinito no risco mais que perfeito da asa.
As águas do ribeiro continuarão a passar debaixo da ponte, mais limpas e azuis do que nunca … e vai haver agriões e rãs a namorar
No dia de São Lourenço e da Senhora das Graças iremos todos à missa… e choramos no arrepio do Sermão… e cumprimos as promessas feitas a São Roque… nosso vizinho que nos livrou dos males da fome e da peste…
 … não desistas… vamos resistir no orgulho dos nossos avós que antes preferiam quebrar do que torcer.
… não desistas… fica em casa… logo logo será agosto!

Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

ONDE SE FALA DE LIVROS E SEXO

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Diz Cervantes, que D. Quixote: “ Do pouco dormir e de muito ler se secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo.”
Ler muito, nunca foi nefasto, pelo contrário, desde que se saiba escolher na “floresta” do livreiro, as obras que não sejam prejudiciais, para a boa formação moral de cada um.
Já dizia Ramalho, “ Em Paris”: “ Estou cercado (de) livros publicados em Paris durante o corrente ano, e não encontro um só (…) que satisfaça aquele singelo preceito de moral que consiste em permitir uma mãe que o leia sua filha.”
Recordo que conversando com Dona Emília Eça de Queirós – neta do romancista, – confidenciou-me como a mana fora surpreendida pela sogra, quando a encontrou enfiada na biblioteca da casa, lendo obras do pai.
Indignada, virando-se asperamente para a nora, ralhou-lhe deste modo:
- “ Menina decente não deve ler livros desses! …” – Exclamou escandalizada a velha fidalga.
As obras de Eça, não eram indicadas para a jovem casada, segundo o parecer da ilustre Senhora; o que dizer do estendal, que agora os livreiros ostentam nos escaparates das nossas livrarias?
Há o propósito de muitos autores, serem tão realistas, que parece não serem capazes de descrever cena vulgar, sem a chafurdar em lama asquerosa e conspurcada.
 A propósito de “realismo” Teófilo Gautier disse a sua filha – a que casou com Catulo Mendès, – antes de morrer, para não ler o livro que tinha escrito, na juventude: “ Mademoiselle de Maupin”, que Eça conhecia, porque o cita no: “O Mandarim”.
Tenho carta de escritora, que diz: seu último romance foi-lhe devolvido pelo editor com a indicação de o “apimentar”, para fácil venda.
Cabe ao educador a difícil tarefa de orientar a leitura, os canais de TV e a Internet. Missão quase impossível, porque os jovens e as crianças têm acesso fácil, e a curiosidade e impulsos naturais, leva-os a procurar o proibido.
Como a autoridade, em nome da liberdade, não quer, nem pode controlar a mass-media, as nossas crianças correm perigo iminente, que só o freio da religião, e o cuidado dos progenitores, as podem livrar.
O desregramento moral, avança, quer publicando-se livros reprováveis, quer transmitindo, até no horário nobre, novelas e imagens lascivas e corruptíveis, quiçá no malévolo intento de corromper e degradar a sociedade, levando-a a praticas asquerosas e relaxações.

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

O que procurar na Primavera: erva-das-sete-sangrias

 As paisagens continuam cheias de cor e aromas de primavera e a erva-das-sete-sangrias (Glandora prostrata) não passa despercebida. De floração prolongada, esta espécie pode ser vista em flor durante todo o inverno e primavera, preenchendo as zonas de matos e o sob coberto de pinhais e sobreirais com pequenas flores azuis.

Foto: David/WikiCommons

A erva-das-sete-sangrias, também conhecida como sargacinha, sargacinho e chupa-mel, pertence à família Boraginaceae, a mesma família da borragem e da miosótis. Esta família inclui diferentes formações vegetais, desde pequenas plantas herbáceas, a arbustivas e até árvores e espécies trepadeiras, algumas com elevado valor ornamental.

A erva-das-sete-sangrias é uma pequena planta arbustiva, de base lenhosa que pode medir até 50 cm de altura. Tem caules prostrados ou erectos, revestidos de pelos de diversos tamanhos e de cor verde nos mais jovens. Os ramos mais adultos ficam ligeiramente mais lenhosos e acastanhados. 

As suas folhas são verde-escuras, inteiras, alternas, normalmente planas e com uma forma oblonga a elíptica e não têm pecíolo. Possuem uma nervura central muito pronunciada e estão cobertas de pelos. Os pelos são mais compridos na página superior da folha, mais próximo da margem, e mais finos, curtos e em maior quantidade na página inferior. 

Esta planta tem um período de floração muito prolongado, permanecendo florida de dezembro a junho. As flores vão abrindo aos poucos, de forma esparsa. A vida útil de uma flor é de 3 a 5 dias.

As flores dispõem-se em inflorescências definidas – cimeiras, com 4 a 7 cm de altura e em conjunto de 6 a 14 flores. As flores são pequenas, hermafroditas, actinomorfas e erectas. A corola é formada por cinco pétalas de tonalidade azul a violeta intenso, por vezes em tons de rosa, arredondadas nas extremidades e unidas na base formando um tubo pubescente no interior, no qual se inserem os cinco estames e o androceu. O cálice, também é pubescente e é formado por cinco sépalas esverdeadas, mais ou menos soldadas na base. Possuem brácteas foliosas de forma oval ou elíptica.

Os frutos, característicos desta família de plantas, são núculas ou clusas – tipo de fruto seco indeiscente do tipo esquizocarpo, semelhante a uma pequena noz, que se separa na maturação, formando quatro frutos parciais, que protegem as pequenas sementes.

Algumas características morfológicas da Glandora prostrata estão na origem da designação científica da espécie. O nome do género deriva de uma mistura entre o termo em latim glandulosus, que significa “glandular”, “aquele que possui glândulas”, em referência à forma glandular da corola, e o nome do género antigo Lithodora, que deriva da união do termo grego Lithos – pedra – e do verbo latim odora – perfume. O restritivo especifico prostratus deriva do latim e significa prostrado, tombado, deitado, devido à forma como os seus ramos se apoiam. 

Espécie nativa
A erva-das-sete-sangrias é uma espécie nativa do sudoeste da Europa (França, Portugal e Espanha) e Noroeste de África (Marrocos e Argélia).

Foto: Luis Nunes Alberto/WikiCommons

Em Portugal ocorrem duas subespécies: a Glandora prostrata subsp. prostrata no norte e centro do país. Esta subespécie apresenta ramos decumbentes, folhas mais ou menos plantas ou ligeiramente revolutas e corola tubular grossa, densamente peluda. A Glandora prostrata subsp. lusitanica, espécie endémica da Península Ibérica, é comum nas regiões do centro e sul. Os ramos desta subespécie são ascendentes ou erectos, as folhas são geralmente revolutas e a corola tubular é glabra, por vezes peluda.

Ambas podem encontrar-se em zonas de matos xerófitos, no sob coberto de pinhais e de sobreirais, em charnecas e areias marítimas, na orla de matagais, taludes e fendas de rochas. 

A erva-das-sete-sangrias tem preferência por uma exposição solar intermédia, podendo crescer bem em sol pleno, com humidade relativa constante e temperaturas médias de 15ºc. Prefere solos ácidos, secos, bem drenados, siliciosos ou descarbonatados, mas também se adapta bem a solos pedregosos ou arenosos. Uma vez bem estabelecida, é tolerante a condições semelhantes à seca.

É uma planta interessante do ponto de vista ornamental, sendo ideal para a cobertura de solos, em jardins de pedras, uma vez que assume uma forma compacta e floração abundante e prolongada. Os principais polinizadores destas flores são as abelhas solitárias, moscas e borboletas, por possuírem língua longa. 

Segundo alguns estudos etnobotânicos esta planta é muito conhecida pelas várias propriedades medicinais, desde propriedades depurativas, antipiréticas e analgésicas. O nome comum de erva-das-setes sangrias é consequência do efeito depurativo desta planta. Também é utilizada como hipotensora e redutora dos níveis de colesterol, no tratamento de doenças das viais urinárias, no tratamento de infecções e inflamações da pele e tem ação nos vasos sanguíneos. Tem efeitos abortivos e em caso de grandes doses pode causar a morte.

Reclassificação recente – Lithodora ou Glandora
Com base em dados moleculares a erva-das-sete-sangrias foi recentemente reclassificada. Segundo a nova revisão científica, esta espécie pertence agora ao género Glandora. A designação científica anterior agrupava-a no género Lithodora e nomeava-a como sendo Lithodora prostrata. Em 2008, este género foi reorganizado devido a diferenças de caracteres morfológicos da estrutura da flor e da semente de algumas espécies. 

As espécies do género Glandora apresentam folhas cerosas, cobertas de pelos rijos e as corolas também são muito peludas. No género Lithodora as espécies apresentam corolas com pétalas acetinadas devido à camada de pelos finos e curtos.

Foto: Pancrat/WikiCommons

No entanto, são muitas as semelhanças entre as espécies destes dois géneros. Todas as plantas pertencentes a estes dois grupos são arbustos perenes, com flores com dimorfismo no comprimento dos estiletes e dos estames e com um período de floração longo. Do ponto de vista edafo-climático requerem condições ambientais semelhantes.

Compreender a natureza é mesmo um desafio. Uma vez mais proponho que procurem esta espécie e que tentem decifrar qual a subespécie que predomina na vossa região. Bons passeios e aventuras pelo mundo vegetal.

Dicionário informal do mundo vegetal: 

Prostrados – ramos estendidos sobre o solo.
Oblonga – folha com forma aproximadamente retangular, com polos arredondados
Elíptica – folha com forma que lembra uma elipse, mais larga no meio e com o comprimento duas vezes a largura.
Cimeira – inflorescência com crescimento limitado, terminando numa flor, assim como os seus ramos laterais. 
Actinomorfa – flor com simetria radial, ou seja a flor pode ser dividida em várias partes iguais.
Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).
Pubescente – que tem pelos finos e densos.
Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.
Esquizocarpo – fruto seco que na maturação se divide em frutos parciais.
Decumbentes – ramos deitados sobre a terra, por onde se alastram e com a ponta levantada para cima.
Revoluta – folha que mantém as margens ligeiramente enroladas para a página inferior da mesma.

Tubular – corola que possui um tubo muito alongado.
Corola – conjunto das pétalas.
Glabra – sem pelos.


Carine Azevedo

Câmara de Mirandela oferece azeite de produção própria para celebrações Pascais no Santuário de Fátima

 No âmbito do projeto “Mirandela Destino do Azeite”, que assenta numa programação cultural e turística dedicada exclusivamente a este produto de excelência com importante relevo económico e social no concelho, este ano, a oferta de azeite contemplou, para além das paróquias do concelho, a Diocese de Leiria/Fátima.
Em época Pascal, a Câmara Municipal de Mirandela oferece azeite de produção própria às igrejas locais para consagração e aplicação na administração de diversos sacramentos. Este ano, o azeite mirandelense fará parte das celebrações religiosas no Santuário de Nossa Senhora de Fátima.

No âmbito do projeto “Mirandela Destino do Azeite”, que assenta numa programação cultural e turística dedicada exclusivamente a este produto de excelência com importante relevo económico e social no concelho, este ano, a oferta de azeite contemplou, para além das paróquias do concelho, a Diocese de Leiria/Fátima.

Anualmente, a Câmara Municipal de Mirandela produz cerca de 900 kg de azeite biológico proveniente de 1100 oliveiras de variedades típicas da região (Verdeal Transmontana, Madural e Cobrançosa) situadas no centro da cidade. Os colaboradores municipais procedem à apanha da azeitona, que posteriormente é transformada num lagar local. Este azeite é obtido unicamente por processos mecânicos e extraído a baixas temperaturas, o que lhe concede a categoria de Virgem Extra. O concelho mirandelense possui a maior mancha de olival da região de Trás-os-Montes e Alto Douro e conta com 14 produtores de Azeites de Denominação de Origem Protegida (DOP).

“É uma honra que o azeite de Mirandela integre os Santos Óleos do Santuário de Nossa Senhora de Fátima – um dos maiores santuários Marianos do mundo, demonstrando mais uma vez a versatilidade e relevância de um dos produtos de qualidade superior do concelho“, refere fonte da autarquia.

Exposição de “grandes paraísos naturais” chega a Portugal com estreia em Bragança

 A cidade de Bragança será a primeira a ver, em Portugal, a partir da próxima semana, uma exposição com os “grandes paraísos naturais” da Terra, composta por trabalhos de reconhecidos fotógrafos internacionais de Natureza, divulgou hoje a promotora.
A iniciativa é da Fundação “la Caixa” que, como adiantou à Lusa, “traz, pela primeira vez a Portugal, a exposição “De Polo a Polo, uma viagem aos grandes paraísos naturais” com fotografias provenientes do arquivo da National Geographic Society”.

Esta exposição é, segundo a promotora, “uma viagem do Ártico à Antártida e por todos os biomas da Terra através de 52 fotografias marcantes” que “são obra de prestigiados e reconhecidos fotógrafos de natureza como Frans Lanting, Steve Winter, Paul Nicklen e Tim Laman, entre outros”.

Bragança “será o primeiro município a receber a exposição que faz parte do programa Arte na Rua, através do qual a Fundação ”la Caixa” pretende levar a ciência, a natureza e a cultura às pessoas fora do contexto habitual dos museus e salas de exposição e democratizar o acesso a arte”.

Nesta cidade, a mostra estará patente na praça da Sé, entre 08 de abril e 10 de maio, gratuita e acessível a quem passar na rua, nesta zona central da cidade transmontana.

“A exposição, em exibição pela primeira vez em Portugal, convida os visitantes a fazer uma viagem surpreendente por alguns dos mais espetaculares espaços naturais da Terra, muitos deles conhecidos como «hotspots», ecorregiões terrestres reconhecidas pela sua elevada biodiversidade e que estão gravemente ameaçadas pela atividade humana”, descreve a organização.

“De Polo a Polo” tem como objetivo “sensibilizar para a importância de proteger o planeta e também refletir sobre os efeitos da elevada taxa de extinção de espécies e da destruição de habitats como resultado do estilo de vida” da sociedade contemporânea.

“Mais de metade das espécies de plantas do mundo e mais de um terço dos mamíferos, aves, répteis e anfíbios vivem em apenas 2,3% da superfície terrestre, em habitats que estão a desaparecer.”, alerta.

As 52 fotografias proporcionam uma “viagem” pelo Mundo de norte a sul, passando pelos cinco continentes, com imagens der “paraísos naturais” desde as florestas asiáticas à savana africana, o Ártico e a Antártida, entre outros.

Autarquia promove reforço na profissionalização dos Bombeiros de Mirandela

 Num trabalho partilhado entre a Câmara Municipal, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC/CDOS) e a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários e Cruz Amarela de Mirandela, o concelho passa agora a contar com três Equipas de Intervenção Permanente (EIP).
A Câmara Municipal de Mirandela está a promover o reforço na profissionalização dos Bombeiros Voluntários de locais com segunda Equipa de Intervenção Permanente.

Num trabalho partilhado entre a Câmara Municipal, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC/CDOS) e a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários e Cruz Amarela de Mirandela, o concelho passa agora a contar com três Equipas de Intervenção Permanente (EIP), sendo que duas nos Bombeiros Voluntários de Mirandela e outra na corporação de Torre de Dona Chama, tornando-se o único concelho do distrito de Bragança com este número de equipas profissionais nos seus corpos de bombeiros.

A autarquia, juntamente com a ANEPC, financiará os cincos postos de trabalho a criar para servirem e protegerem a população mirandelense.

A Equipa de Intervenção Permanente assegura o socorro e a emergência na área do respetivo concelho, e os bombeiros que as integram são caracterizados por elevada especialização, com conhecimento em valências diferenciadas, que lhes permitem dar resposta adequada nas diferentes missões, em ocorrências cada vez mais exigentes e complexas.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

“Plantar o futuro nos Lagos do Sabor”

 Projeto de reflorestação dos Lagos do Sabor. A assinatura e o arranque do projeto “Plantar o futuro nos Lagos do Sabor” terá lugar no dia 7 de abril e resulta de uma pareceria com o ICNF.
A Associação de Municípios do Baixo Sabor estabeleceu um protocolo com o ICNF com o objetivo de “Plantar o Futuro nos Lagos do Sabor”.

A iniciativa tem como principal meta florestar e reflorestar o território abrangido pelos Lagos do Sabor, fortemente penalizado pelos incêndios de 2013.

Nesta primeira fase do projeto “Plantar o futuro nos Lagos do Sabor” serão plantadas 350 árvores autóctones (sobreiros e azinheiras) junto aos futuros “Sabor LaKe Resort”.

“Esta iniciativa reveste-se de especial relevo tendo em conta que o Programa Especial da Albufeira está na meta final de discussão interna, e que esse mesmo plano irá transformar profundamente o tecido económico e turístico da região“, refere nota de imprensa da Associação de Municípios do Baixo Sabor.

A assinatura e o arranque do projeto “Plantar o futuro nos Lagos do Sabor” terá lugar no dia 7 de abril e contará com a presença da Vogal do Conselho Diretivo e Diretora Regional do ICNF, Sandra Sarmento, com o Presidente da Associação de Municípios do Baixo Sabor e Presidente do Município de Torre de Moncorvo, Nuno Gonçalves, Presidente do Município de Alfândega da Fé, Eduardo Tavares, Presidente do Município de Macedo de Cavaleiros, Benjamim Rodrigues, e Presidente do Município de Mogadouro, Francisco Guimarães.

No mesmo dia será devolvido à natureza um Milhafre Real. O animal deu entrada nas instalações do CIARA em outubro de 2020 com ferimentos de chumbo na asa, desnutrido e desidratado. Foi hospitalizado no Hospital Veterinário da UTAD onde recebeu tratamento para os traumatismos. Na fase final de recuperação foi transferido, novamente, para o CIARA onde reforçou a estrutura muscular num túnel de voo de grandes dimensões. Agora encontra-se totalmente recuperado e será devolvido à natureza.

Acidente com trator provoca um ferido ligeiro em Campo de Víboras

 Um homem ficou ferido esta manhã de quinta-feira num acidente com um trator agrícola em Campos de Víboras, no concelho de Vimioso.
O comandante dos Bombeiros de Vimioso, António Sutil, indicou ao Mensageiro que a vítima foi diagnosticada “como um ferido ligeiro e foi transportada de ambulância para o hospital de Bragança”.

No socorro estiveram envolvidos seis operacionais, apoiados por três viaturas.

Este é o segundo acidente envolvendo tratores agrícolas nos últimos 8 dias. O outro ocorreu em Gebelim, no concelho de Alfândega da Fé, na passada sexta-feira, e teve como resultado um morto.

Glória Lopes

Cordeiro e cabrito certificado da região está a ser escoado devido a campanhas na internet

 Os criadores de cabrito e cordeiro certificado da região vão passar, este ano, uma Páscoa mais descansada. Em 2020 grande parte dos animais ficou por vender, por causa da pandemia, mas agora o cenário é totalmente diferente.
Andrea Cortinhas, secretária técnica da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Mirandesa, que há um mês, antevia sérios problemas para escoar o cordeiro mirandês, já que 2020 tinha sido “péssimo”, avança agora que os animais estão todos vendidos.

“Conseguimos escoar tudo. Valeu a pena fazer novas campanhas de promoção e inovarmos um pouco para animarmos o mercado, através da página de facebook e decidimos fazer um webinar com os chefs Chakal e Marco Gomes. Desafiámo-los para fazer uma receita com o cordeiro mirandês e foi um sucesso, tivemos já pedidos pós Páscoa”, conta.

A Páscoa do ano passado também começou por ser preocupante para a Associação Nacional de Caprinicultores da Raça Serrana. Ainda assim, uma onda solidária fez escoar os animais que havia para vender. E segundo Arménio Vaz, presidente da associação, foram estes contactos que determinaram que tudo se vendesse também este ano.

“O ano passado estávamos com receio que as coisas corressem mal, mas com a onda de solidariedade que houve conseguimos escoar todo o produto. Ficamos com os contactos das pessoas e este ano correu lindamente também porque as pessoas aderiram novamente, já temos o cabrito escoado há coisa de 15 dias. Nesta época temos cerca de 700 e 800 cabritos para escoar”, afirma.

Para a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Bragançana o cenário não está tão animador. Jorge Laranjinha, director administrativo, revela que ainda não se vendeu tudo, mas, em relação ao ano passado, as vendas estão a correr bem.

“A produção é muita, o mercado também não abriu completamente, mas as expectativas são que esta semana ainda saia muito animal. Os sinais são mais animadores que no ano anterior”, refere o dirigente da associação.

Esta é a época mais lucrativa para os criadores de ovinos e caprinos, que este ano estão a conseguir vender os animais, ao contrário do que se verificou em 2020, tanto na Páscoa como no Natal.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Bombeiros com nova viatura mista de socorro que custou 150 mil euros

 O Corpo de Bombeiros de Mogadouro, no distrito de Bragança, adquiriu de uma nova viatura de combate a incêndios urbanos, no valor 150 mil euros, que foi equipada como material para missões de desencarceramento, foi hoje divulgado.
"O novo equipamento vai ajudar a colmatar uma lacuna existente naquela cooperação de Bombeiros e ajudar no socorro em caso de acidente nas rodovias que atravessam o concelho, nomeadamente no Itinerário Complementar (IC-5), sendo igualmente veículo de primeira intervenção, em caso de incêndio urbano", explicou à Lusa o presidente da Associação Humanitários de Bombeiros de Mogadouro, João Gouveia.

Esta nova viatura de socorro mista tem a designação de VLCI- Veículo Ligeiro de Combate a Incêndios.

O novo VLCI foi custeado pela Associação Humanitária de bombeiros de Mogadouro e pelo município de Mogadouro em partes iguais.

Os 12 melhores locais para visitar em Miranda do Douro

No norte de Portugal, banhada pelo Rio Douro e na fronteira com Espanha: estes são os melhores locais para visitar em Miranda do Douro.

Miranda do Douro

Entre os destinos menos conhecidos a norte está a linda cidade de Miranda do Douro, no distrito de Bragança. Situada entre os rios Fresno e Douro, próxima da fronteira, Miranda do Douro é uma cidade repleta de história, numa localização excecional. Em redor, o belo Parque Natural do Douro Internacional, leva-nos a conhecer montanhas agrestes e despovoadas. Com uma origem eminentemente medieval, Miranda do Douro cresceu orgulhosa da sua categoria de fronteira multicultural. Aqui fala-se a única língua reconhecida em Portugal para alem do português, o mirandês, com afinidades com Leão e Astúrias. A sobrevivência deste idioma demonstra uma idiossincrasia muito própria e apaixonada pelas tradições e modos de vida ancestrais. É uma região onde o folclore tem um peso especial, como podemos ver nas Festas da cidade ou Santa Bárbara.



Miranda do Douro é célebre pelo seu folclore colorido e animado – os Pauliteiros de Miranda com o seu trajo típico de saias, executam a dança do pau acompanhada pelo toque da gaita foles cuja origem remonta à ocupação celta da região, na Idade do Ferro. Na gastronomia, destaque para a famosa “Posta mirandesa”, confeccionada com a excelente carne dos bovinos criados nesta zona.

1. Sé Catedral de Miranda do Douro

A Sé Catedral de Miranda do Douro está considerada como um dos mais belos monumentos do norte de Portugal. Teve o seu início no ano de 1552, tendo a duração de construção de meio século, ou seja, foi terminada no fim desse século. Este templo, com uma concepção maneirista, apresenta alguns elementos renascentistas de planta cruciforme de três naves, com quatro tramos e abóbada nervada sustentada por oito pilares toscanos. A monumental fachada principal, simétrica e regular, é ladeada por duas torres e encimada por uma balaustrada.

No interior evidencia-se o retábulo da capela-mor com um conjunto de esculturas dedicadas a Santa Maria Maior (1610-1614). O cadeiral do coro do Cabido da Sé Catedral constituiu-se na primeira metade do séc. XVII, tomando um estilo maneirista de uma obra de grande raridade. Este monumental templo religioso, tanto exteriormente como interiormente, está classificado como Monumento Nacional desde 1910.

Sé Catedral de Miranda do Douro

2. Parque Nacional do Douro Internacional

O Parque Natural do Douro Internacional abrange parte dos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo, no troço fronteiriço do Rio Douro (numa extensão de cerca de 122 km). As margens escarpadas do vale profundo do rio formam desfiladeiros monumentais de grande espectacularidade, que várias espécies de aves, ameaçadas de extinção a nível nacional e internacional, escolheram para nidificar, atraídas certamente também, pela proximidade das explorações agrícolas e pecuárias onde podem facilmente localizar e obter alimentos.

De entre elas destaca-se o Abutre do Egito ou Britango, que foi escolhido como símbolo deste Parque. O clima da região regista acentuadas amplitudes térmicas, com Invernos frios e Verões muito quentes e secos, estando a área sul do Parque integrada na denominada “Terra Quente”. Nos meses de Fevereiro e Março, com as amendoeiras em flor, a natureza oferece um espectáculo de beleza e cor, muito apreciado e celebrado com festas populares.

Arribas do Douro – Rui Videira

3. Miradouro de São João das Arribas

O Miradouro de S. João das Arribas localiza-se em pleno Parque Natural do douro Internacional, nas “arribas” do Douro internacional, junto ao castro de Aldeia Nova que é um povoado fortificado da Idade do Ferro. Este Castro deverá ter sido também utilizado durante a época romana como local de passagem, pois foram descobertas várias lápides romanas na capela de S. João, que dista 1500 metros do castro, está classificado como Monumento Nacional desde 1910.

O Parque Natural de Arribas do Douro é uma área verde protegida situada às orlas do rio Douro no trecho fronteiriço entre Espanha e Portugal. Faz parte da rede de Parques Naturais de Castela e Leão e no lado português corresponde-se com o Parque Natural do Douro Internacional. A denominação de Arribas aplica-se localmente à geografia dos rios Águeda, Douro, Esla, Huebra, Tormes e Uces. A característica mais destacada desta área verde é a grandiosidade paisagística de seus escarpados vales. Um espectacular palco natural artisticamente lavrado pelos cursos de água que percorrem suas fecundas terras.

Miradouro de São João das Arribas

4. Miradouro da Fraga Amarela

O Miradouro da Fraga Amarela situa-se junto junto da Castro da Cigaduenha. Este castro é um povoado do 1º milénio a.c. e ocupa uma extensa plataforma, cujos rebordos a sul caem a pique, sobre o Douro, proporcionando assim uma imagem magnifica do canhão do rio.

Mais outro trecho da fabulosa paisagem geológica construída pelo Douro eficazmente aproveitada como inexpugnável muralha pelo castro, que sendo muito vulnerável na outra ponta, obrigou a preceder a muralha com um grandioso campo de pedras fincadas, autenticas navalhas afiadas de pontas para cima, defendendo a porta do povoado.

Miradouro da Fraga Amarela

5. Ruínas do Paço Episcopal

Situada nas traseiras da Sé, a intenção de construir o Paço Episcopal foi em 1601, tendo as obras começado em 1616. Foi o seu mentor o Bispo D. Diogo de Sousa. Durante a construção os padres alojavam-se no castelo. O que apenas está ao nosso alcance para ver são as ruínas que em tempos foram de grandiosidade. Restam as arcadas do claustro formadas por arcos abatidos sustentados pelo pé em forma de pilastra monolítica.

A monumentalidade da porta de entrada está no respectivo memorial, onde que ainda hoje se cumpre esse dever de inscrever os nomes dos bispos que vão lá passando, tornando esta entrada muito simbólica. Na parte sul, a bem conservada e formosa arcada de meio ponto que pertencia ao antigo Seminário de São José, que estava anexado ao paço.

Ruínas do Paço Episcopal

6. Aqueduto de Vilarinho

Aqueduto com cerca de 500 m desde a mãe d’água, localizada no termo de Vale de Mira até ao chafariz junto da ponte dos Canos (Fonte dos Canos). A maior parte desta estrutura encontrava-se enterrada, cerca de 500 m antes da ponte formada pelos arcos e depois destes, cerca de 500 a 600 metros, até chegar aos chafarizes.

A parte de maior relevo é constituída por seis arcos de meio ponto, de dimensões variadas, quer em largura quer em altura. As aduelas são em cantaria e os estribos foram construídos de alvenaria e cal. Em 1545, a população de Miranda do Douro cresceu bastante, originando maiores necessidades de abastecimento de água. Deste modo, foi assinado um contrato, em fevereiro de 1587, para a construção de um aqueduto para abastecimento da povoação. A sua desativação ocorreu no século XIX.

Aqueduto de Vilarinho

7. Museu da Terra de Miranda

Este edifício, que actualmente alberga o museu, está situado no largo D. João III, na parte histórica de Miranda do Douro. A sua edificação deveu-se ao facto de Miranda do Douro subir de vila para cidade episcopal. Este acontecimento aconteceu no ano de 1545. Por isso, e com a mudança de estatuto de Miranda, este edifício foi construído para albergar a primeira Casa da Câmara, sendo a primeira parte correspondente às duas arcadas, em abóbadas de berço, do primitivo Paço Episcopal.

Entretanto, na segunda metade do séc. XVII levantou-se o corpo do moderno edifício cujo alpendre se apoia na anterior estrutura medieval através de cinco colunas toscanas. A partir de 1790, o edifício é transformado e recebe a cadeia, para finalmente em 1982 sofrer outra mudança e terminar como Museu da Terra de Miranda.

Museu da Terra de Miranda

8. Casa dos Távoras

Situada na rua Abade de Baçal, este solar citadino pode estar compreendido entre os sécs. XV e XVI. Pertencente à família dos Távoras, uma das mais importantes, nobres e poderosas de Portugal a partir do séc. XV. Elementos da família foram alcaides do Castelo de Miranda e senhores do Mogadouro, tendo um forte prestígio na política.

Contudo, o prestígio alcançado na política, possivelmente e como reza a história, foi motivo para todos os elementos ou quase todos serem eliminados por enforcamento, a mando do Marquês de Pombal, considerando a família Távora traidores ao regime. Vê-se aqui a obsessão ou talvez não do Senhor Marquês de Pombal por esta Família, de que mandou raspar as armas.

Casa dos Távoras

9. Castelo de Miranda do Douro

Numa tentativa de juntar as unidades administrativas da região, que eram tuteladas por castelos românicos ali existentes, D. Afonso III iniciou uma campanha de reestruturação da região, começando a criar novas vilas. Quanto a Miranda do Douro, a nova vila foi fundada em 1286 por D. Dinis, transferindo o poder do Castelo de Algoso para esta vila. Com esta sequência de acontecimentos, começou a ser construído o Castelo de Miranda no ano de 1287, terminando o mesmo dez anos mais tarde.

Este propósito teve uma arquitectura militar, com as suas torres e muralhas, mostrando a importância da praça que teve na defesa do Douro Internacional. Também foi palco em 1297 do tratado de Alcanices, pelo Rei D. Dinis. Mais tarde, por duas ocasiões e reinados diferentes, o castelo veio a ser renovado primeiro por D. Manuel I e depois por D. João IV, em 1641. Em 1762, esta estrutura militar veio a sofrer uma violenta explosão porque, imprudentemente, guardavam os explosivos no interior da cerca da fortaleza. Combatiam na tentativa de resistir às tropas espanholas. Este edifício de arquitectura militar está classificado como Imóvel de Interesse Público desde o ano 1955.

Castelo de Miranda do Douro

10. Casa das Quatro Esquinas

Miranda do Douro é das muito poucas cidades em Portugal com um edifício um tanto peculiar como este. Como o nome indica, apresenta quatro janelas fazendo a esquina da casa (duas no andar térreo e outras duas na parte mais elevada da casa), com dois interessantes e únicos cachorros sendo, por isso, testemunha da evolução cultural e civilizacional de cada época da história Europeia. A Casa das quatro esquinas, da época Medieval, compreendida entre os sécs. XIV e XVI, apresenta uma interessante arquitectura com dois também interessantes cachorros ou modilhões, estando cada um deles virado para o Oriente e Norte. Estes dois elementos constituem, não só para o edifício, como também para a cidade, dois ícones, simbolizando algo de inédito para a época.

O modilhão ou o cachoro da parte Oriental representa a luxúria na figura de um cão que acaricia com a língua os orgãos genitais da mulher. O outro, situado para a parte Norte, simboliza o deus grego Cronos, a quem os Romanos deram o nome de Saturno, representado um devorador de uma criança, significado dos filhos que devorou com receio que o destronassem de Deus do Universo. É, contudo, considerada a figura que mais se afirma na cultura humanista da cidade de Miranda do Douro.

Casa das Quatro Esquinas

11. Praça D. João III

Em homenagem a este Rei, que elevou Miranda à categoria de cidade e sede da Diocese, a única praça do centro histórico ficou com o seu nome desde 1960. Uma praça pequena em forma de quadrado, alberga em todos os seus lados os principais edifícios da cidade.

Na parte Ocidental desta situa-se o Museu da Terra de Miranda. Na parte Norte está situado o edifício que serviu de Aljube Eclesiástico. Na parte Oriental está situada a Câmara Municipal. Finalmente na parte Sul ergue-se o imponente Solar dos Ordazes.

Praça D. João III

12. Fortaleza e muralha pré-românica

A Reconquista Cristã no Vale do Douro ao Islão nos sécs. IX-XI foi apoiada pelos castelos que se implantaram então, como as novas fortificações de base territorial. Para um maior apoio ao castelo surgiram as primeiras muralhas que cercam a então vila de Miranda, actualmente o centro histórico desta mesma vila, que começaram a ser construídas em 1287 e terminaram dez anos depois, ainda por ordem do Rei D. Dinis.

Foram reconstruídas, tendo esta reconstrução abrangido dois reinados, de D. João I e de D. Manuel I. Nesta altura, para além de remodeladas foram fortificadas com um fosso interior entre a muralha e as arribas do Douro. Em 1762 os castelhanos derrubaram parte da fortaleza e muralhas e mais tarde, em 1780, houve a intenção de reconstruir com a Rainha D. Maria I, acabando o projecto por ficar por terra devido ao aumento de armas de artilharia em toda a Europa.

Fortaleza e muralha pré-românica

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Eça de Queirós: "O Tesouro"

Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. 

Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. 

Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos. 

Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro! 

No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos as cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforjes de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram  para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforjes e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.  

— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do cinturão. 

Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente: 

— Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave! 

— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal. 

Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente: 

Olé! Olé! 

Sale la cruz de la iglesia, 

Vestida de negro luto... 

II 

Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água. brotando entre rochas: caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas  retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um  melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome. 

Então Rui, que tirara o sombreiro e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com  eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em  Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas. 

— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal! 

O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:  

— Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo! 

— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo. 

Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idéia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.

— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...

— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.

— Queres? 

Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:

— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e de «torpe», por não saberes a letra nem os números.

— Malvado!

— Vem!

Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um  vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o roo, recomeçou a bocejar, com tome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforjes.

Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:

Olé! Olé!

Sale la cruz de la iglesia,

Vestida de negro luto...

Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.

Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.

— A chave! — gritou Rui.

E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.

Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.

A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse urna estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.

Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso forrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando. 

III

Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforjes, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro. alguns ossos sem nome. ele seria u magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!

Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforjes — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!

Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que recendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.

Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.

Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam  ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.

De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforjes. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume  vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:

— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!

Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.

Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente; esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:

— É veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforjes, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.

Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham  pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.   O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes. 

Nota:
Texto-fonte: Conto de Eça de Queirós, obra póstuma publicada em 1902