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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 10 de outubro de 2026

Sacrum – II DUO

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


A pá da máquina continuava a atacar afincadamente a parede de terra, no mesmo local onde se iniciara o serviço há dois anos. Aqueles últimos três metros da colina teriam de desaparecer, transformados num planalto onde seriam instalados os painéis solares. O local alternativo ordenado pelo pai não tinha suficiente exposição solar e ficaria sempre com menos aproveitamento.

Cada pazada removida era como que uma libertação e uma afirmação de autoridade. Ao atirá-la na ribanceira, era como se estivesse ele próprio a enterrar o cadáver do pai.

Uma pazada pelas vezes em que o pai lhe gritara por conjugar mal o latim; outra pelos livros que o obrigara a ler e pelos símbolos odiados que queria vê-lo decorar; outra ainda pelas mãos velhas e húmidas, que fora obrigado a apertar, e pelos ósculos babados das mulheres que acompanhavam aqueles homens silenciosos. Empurrava cada uma daquelas lembranças pela colina abaixo, mas não se sentia aliviado.

Tomás não abrandou. A pá continuou a ferir a colina, arrancando-lhe terra pazada após pazada, enquanto a voz do pai lhe roncava ainda na memória.

O céu cobria-se gradualmente com as nuvens escuras e reflexos faiscantes iluminavam-nas a espaços.

Repentinamente, o som de metal a raspar em pedra firme misturou-se com outro, oco e profundo, que rompeu os ares e fez vibrar o chão.

O cão sobressaltou-se e ergueu as orelhas, antes de avançar, saltitante, para ver o que produzira o som.

Também Tomás saltou da escavadora para tentar perceber o que acontecera.

 Perante eles estava uma superfície de pedra calcária completamente lisa que desaparecia na terra em todas as direções e a abertura que ele fizera já tinha mais de dois metros de diâmetro. Não era esperado encontrar ali vestígios de construção.

Tomás pegou numa pá da cabine da máquina e escavou um pouco de cada lado, tentando chegar ao extremo da pedra. Abriu mais um metro para a esquerda e para a direita sem encontrar o fim, mas revelou uma fratura oblíqua antiga, suficientemente larga para albergar uma mão na sua parte mais aberta.

Decidiu-se pelo que lhe pareceu o caminho mais rápido e voltou à máquina. Com a pá, fincou um dos dentes na fissura e usou toda a potência para empurrar para o lado. Novo som oco e outra vibração forte fizeram-se sentir, enquanto a fratura se alargava e a laje parecia querer enterrar-se no chão.

O cão ladrava nervosamente na direção da abertura.

Tentou outra vez recorrer à força bruta da escavadora, mas cada vez que afastava o pedaço da laje para o lado, o resto da pedra inclinava-se mais, fechando a abertura.

— Raios partam… — resmungou Tomás ao descer da cabine. — Cala-te Freixo! — Gritou para o cão que não parava de ladrar. — Nem consigo ouvir os meus pensamentos.

O animal pareceu ressentir-se da ordem e olhou-o com aqueles olhos quase humanos, enquanto emitia um ronco de despeito.

Durante a vida de Afonso de Rochaforte, Freixo acompanhara-o nas caminhadas e nas caçadas. Depois da morte do patriarca, passara a seguir Tomás para toda a parte. Mantinha-se sempre perto, vigilante e sereno, mas raramente procurava uma carícia. Às vezes, quando o surpreendia a observá-lo em silêncio, Tomás tinha a impressão incómoda de que o cão ainda esperava ordens de outro homem.

A escavadora trazia consigo uma caixa com todo o tipo de ferramentas próprias para a remoção de terras e pedras. Escolheu uma barra de mina com cerca de um metro de comprido e tentou afastar as pedras espetando o ferro pontiagudo na fenda e usando o peso do corpo para empurrar. Praticamente não se moviam.

Voltou para a máquina e começou a escavar tentando encontrar o extremo esquerdo do pedaço que se soltava da pedra maior. Freixo recomeçou a ladrar insistentemente na direção da abertura.

Por fim logrou encontrar o limite, após cerca de mais um metro de escavação. Assim que o conseguiu, a parte mais pequena pareceu rodar sobre si mesma e desapareceu deixando uma abertura escura.

O cão estava possuído. Ladrava furiosamente e corria em volta da abertura até que entrou de chofre e desapareceu no escuro.

— Freixo! Para! — Gritou Tomás inutilmente. — Anda cá, rapaz! Espera, não entres aí!

Episódio seguinte - Sacrum – III TRES

By Manuel Amaro Mendonça 4 de Setembro, 2026

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Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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