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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 16 de março de 2019

A verdade que o aumento histórico das exportações de vinho português não revela

As exportações de vinho português alcançaram um resultado histórico em 2018, ao ultrapassarem os 800 milhões de euros. Mas a realidade crua por trás desta boa notícia mostra-nos um país com um peso quase insignificante no negócio mundial e a insistir no erro de querer vender muito e barato.
Paulo Ricca

Em 2018, Portugal exportou cerca de três milhões de hectolitros de vinho, que renderam 803 milhões de euros. O resultado é histórico e tanto a Viniportugal (a entidade que faz a promoção externa) como a tutela do sector viram nestes números a confirmação de que o vinho português está em alta e a impor-se no mundo. Mas uma análise mais fina dos dados mostra uma outra realidade. Na verdade, não há muitas razões para festejar

Sim, Portugal vendeu mais vinho em 2018. O país é o 11.º maior produtor de vinho do mundo e o 8.º maior exportador. Desde 2010, as nossas exportações subiram 11% em volume e 31% em valor. Esta é a verdadeira boa notícia. Mas que tipo de vinho vende Portugal? Vinho barato, sobretudo. O preço médio do vinho português exportado no último ano foi de 2,71 euros o litro, bem abaixo do preço médio mundial, que é de cerca de 4 euros. Em relação a 2017, o vinho português valorizou cerca de 10 cêntimos. Melhor do que nada, mas, ainda assim, muito pouco face à qualidade geral do vinho português e às baixas produções por hectare. Só para se ter uma ideia do que está em causa: a Alemanha tem uma produção média de 103 hectolitros por hectare, a África do Sul produz 73 hectolitros, a Argentina 65 e a Itália 55; Portugal, por sua vez, produz apenas 23 hectolitros por hectare, menos de metade da produção média mundial, que é de 50 hectolitros por hectare.

Tal como acontece com o azeite, exportamos muito vinho mas também importamos muito. Em 2018, foram dois milhões de hectolitros, a um preço de 0,78 euros o litro. O grosso das importações foi de vinho a granel. Ou seja, basicamente, exportamos bom e barato e bebemos barato e mau.

O negócio do granel é, de resto, uma das grandes ameaças ao vinho português. Quando se julgava que a venda de vinho engarrafado na origem era uma conquista consagrada, eis que o fantasma do granel volta a assombrar os mercados. O negócio está de tal modo em alta que já há várias feiras mundiais dedicadas à compra e venda de vinho a granel. A maior está agendada para o final de Maio, em Yantai, na China.

Actualmente, 40% de todo o vinho exportado mundialmente é a granel. Há razões ambientais por trás deste fenómeno: engarrafando no destino, é possível reduzir um pouco a pegada ecológica do vinho. Mas a causa principal tem mesmo a ver com a concorrência e a pressão das grandes cadeias de distribuição, que apostam cada vez mais em marcas próprias e em preços mais baixos para combater as marcas mais populares do mundo. A perversão das grandes cadeias é total: não só esmagam os preços dos produtores como ainda criam marcas para concorrer directamente com eles. Algumas são autênticas cópias. Em Portugal, esta tendência também está em crescendo.

O mercado do Reino Unido, como principal montra do negócio mundial do vinho e segundo maior mercado (o primeiro é os Estados Unidos e é também o mercado com mais potencial para os vinhos portugueses), é um bom espelho do que está a acontecer. Os supermercados são responsáveis por 72% das vendas de vinhos e 36% das importações de vinho correspondem a vinho a granel. Do total do vinho vendido no Reino Unido, cerca de 43% não passa das cinco libras. Apenas 3% atinge ou ultrapassa as dez libras.

No negócio do vinho nos supermercados ingleses, Portugal detém uma quota de 0,7%. É o 11.º com maior volume. Vende cerca de 550 mil caixas (de 12 garrafas), a um preço médio de 5,39 libras cada garrafa, um nadinha abaixo da média do Reino Unido, que é de 5,57 libras. Com a libra a valer 1,16 euros (cotação da passada quarta-feira), dá um valor por garrafa de 6,24 euros. Quem desdenharia de um preço destes? O problema surge quando analisamos a estrutura deste preço e constamos que, numa garrafa vendida a 5 libras, cerca de 4 libras correspondem a taxas, IVA e margem do retalhista, sobrando apenas uma libra para o vinho, o packaging e o transporte.

O grosso do vinho português vendido dos supermercados britânicos é rosé (61% ). Deste bolo, a marca Mateus Rosé, da Sogrape, tem uma fatia de 39%. Cada garrafa custa entre 5 e 5,25 libras. A seguir ao Mateus Rosé, a marca portuguesa com maior quota nos supermercados britânicos (9%) é o vinho Porta 6, da Vidigal Wines (região de Lisboa), um verdadeiro caso de estudo, pela forma rápida como se tem imposto naquele mercado e pelo preço a que é vendido: 8,29 libras.

Trata-se de um preço extraordinário, sobretudo se o compararmos com o preço dos vinhos do Douro mais vendidos no Reino Unido pelas cadeias Aldi e Lidl. A segunda vende o vinho Azinhaga de Ouro Reserva (da empresa Christies) a 5,99 libras; e a primeira vende o Animus Douro (do enólogo e comerciante de vinhos Vicente Faria, ex-Aveleda), a 4,99 euros. Com a quebra de produção de 2017 no Douro e o aumento do preço do vinho a granel, o Animus Douro tornou-se inviável e, já este ano, a cadeia Aldi passou a vender Animus feito com vinho a granel de outras regiões do país, já sem a designação Douro.


As conclusões de tudo isto são fáceis de tirar. A primeira é a de que Portugal ainda conta muito pouco no negócio mundial do vinho. A segunda é ainda pior: o país continua demasiado focado nos vinhos de baixo preço, concorrendo num segmento onde há concorrentes mais poderosos e com muitos mais argumentos comerciais. Mas a conclusão principal tem também algo de desafio: face às tendências mundiais, de redução do consumo e aumento do negócio do granel, Portugal só pode aspirar a ser bem-sucedido se esquecer o volume e apostar na qualidade e no valor cultural associado ao vinho, tirando partido da história e diversidade do país e do seu extraordinário património de castas. Não é preciso saber muito de economia para perceber que vender menos e melhor pode ser muito mais rentável do que vender muito e mal.

Pedro Garcias
Fugas
Jornal Público

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