A propriedade foi sempre da empresa A Voz do Nordeste, Edições e Artes Gráficas Lda., que começou com cinco sócios e terminou com dois: César Urbino Rodrigues, com uma quota de 97,5%, até 2007, e Armando Vara, com uma quota de 2,5%. A partir de setembro de 2007, Vítor Pereira adquiriu a quota do primeiro.
| Primeira página de a Voz do Nordeste, em 2006 |
A Voz do Nordeste nasceu porque, após o 25 de Abril, o eleitorado do Distrito de Bragança, maioritariamente rural, manteve-se fiel a uma matriz conservadora, para a qual o socialismo era sinónimo de coletivização dos meios de produção. Por isso, em todas as eleições havidas entre 1974 e 1985, o PSD – Partido Social Democrata e o CDS – Centro da Democracia Cristã tiveram sempre uma larga maioria, traduzida na eleição de dez das 12 Câmaras existentes e de três dos quatro deputados que lhe cabiam na Assembleia da República.
Ao nível da imprensa escrita havia apenas um jornal, o Mensageiro de Bragança, que, entre finais de 1974 e 1979, não só apoiou os partidos mais à Direita (precisamente o PSD e o CDS), como manifestava, por vezes, claras saudades do anterior regime. D. António Rafael, por exemplo, após ter sido nomeado bispo da Diocese de Bragança-Miranda, publicou vários textos no Mensageiro de Bragança em que zurzia no que ele apelidava de “soarismo-marxista-almeidista-alegrete”, numa clara referência ao PS – Partido Socialista de Mário Soares, Almeida Santos e Manuel Alegre.
Nesse contexto, pensava César Rodrigues que seria importante libertar a população do Distrito do espartilho do caciquismo económico, religioso e cultural em que se encontrava envolvida desde há séculos, e que, para o efeito, seria indispensável atuar através da comunicação social. Promoveu, então, um programa radiofónico na RDP Nordeste, que durou seis meses, até junho de 1985.
Foi precisamente no início do verão de 1985 que Armando Vara abordou César Urbino Rodrigues no sentido de fundarem um jornal que o Partido Socialista financiaria nos primeiros seis meses de publicação. Aos dois associaram-se, por convite, Fernando Peixinho, Fernando Calado e Eduardo Amaral, todos militantes daquela força partidária. O Partido Socialista não pagou mais do que metade de cada uma das duas primeiras edições.
No entanto, a partir de finais de 1985, o jornal passou a ser impresso na CEIG, uma tipografia que o PS tinha no Dafundo, com preços muito mais acessíveis do que os de Bragança. Com o tempo, porém, esta solução mostrou-se inviável por duas razões: em primeiro lugar, porque não era sustentável um jornal quinzenal que demorava 15 dias a ser impresso, o que fazia com que as notícias chegassem com um mês de atraso junto dos leitores; em segundo lugar, a empresa Cabanelas recusou-se, a partir de uma determinada altura, a transportar o jornal de Lisboa para Bragança. Por isso, dois anos depois, regressou-se às tipografias locais.
Entretanto, o jornal foi-se consolidando como empresa e como projeto de valores e de causas, traduzidos nos seguintes objetivos: combater o caciquismo dominante; denunciar a corrupção e a prepotência burocrática; combater o compadrio e o clientelismo do poder; e pugnar por um regime em que a democracia fosse um valor posto ao serviço das pessoas e não um mero instrumento de conquista ou de preservação do poder pelos membros da classe política.
A Voz do Nordeste foi um dos primeiros jornais portugueses a informatizar-se, logo no verão de 1986, numa altura em que os computadores estavam a dar os seus primeiros passos e muito poucos serviços eram informatizados.
Jornais como O Correio da Manhã e outros de âmbito nacional informatizaram as suas redações já depois de A Voz do Nordeste o ter feito.
O impacto deste jornal na vida política e social do Distrito de Bragança ficou bem patente nas demissões forçadas de dois coordenadores da Administração Regional de Saúde de Bragança nos governos de Cavaco Silva, e da diretora do Centro de Emprego e Formação Profissional de Mirandela, no Governo de António Guterres, por força das notícias e denúncias publicadas, e no facto de, por diversas vezes, notícias e reportagens suas terem alimentado notícias e reportagens nalguns telejornais nacionais e em vários outros órgãos da comunicação social nacional. Como exemplo mais flagrante desta influência, em fevereiro de 1988, a RTP – Rádio Televisão Portuguesa abriu um dos seus telejornais das 20 horas com a primeira página de A Voz do Nordeste, por causa de um documento assinado por quatro cónegos da Sé de Bragança contra D. António José Rafael, documento esse que o jornal bragançano publicou em primeira mão.
O caráter interventivo e crítico de A Voz do Nordeste traduziu-se numa perseguição constante dos seus opositores, que recorriam frequentemente ao tribunal de Bragança com queixas por difamação. O diretor de A Voz do Nordeste foi condenado três vezes por crimes de difamação. À terceira vez, depois de ter tido conhecimento da possibilidade do recurso para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, levou o caso àquela instância internacional, tendo sido atendido na sua pretensão pelos juízes europeus que participaram no processo. César Urbino Rodrigues foi assim o primeiro jornalista da imprensa regional portuguesa e o segundo de toda a imprensa nacional a conseguir a condenação do Estado Português no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que não só teve de anular a sua condenação nos tribunais portugueses, como teve que lhe pagar uma indemnização de 1 900 euros.
César Rodrigues foi diretor da Voz do Nordeste durante 22 anos ininterruptos, desde outubro de 1985 a setembro de 2007, o que faz dele o diretor de jornais do Distrito com mais tempo no exercício dessas funções. Em setembro de 2007, cedeu a sua quota a um casal de jornalistas – Vítor Pereira e Ana Fragoso – que, ao fim de três anos, em maio de 2010, a venderam à empresa proprietária do Jornal Nordeste, que detém, neste momento, a propriedade do título, tendo-o convertido numa revista mensal, que distribuiu com o Jornal Nordeste até ao final do ano de 2012, passando, a partir daí, a designar-se apenas A Voz.
Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa
Sem comentários:
Enviar um comentário