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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Granizo e chuva do fim-de-semana estragam parte da maçã de Carrazeda de Ansiães

 O granizo e a chuva torrencial deste fim de semana provocaram prejuízos em algumas culturas da região, nomeadamente em pomares de macieiras e vinhas


A Associação dos Fruticultores, Viticultores e Olivicultores do Planalto de Ansiães já fez o levantamento dos prejuízos causados pela intempérie, nomeadamente nos pomares de macieiras. Duarte Borges, fruticultor e técnico da associação, conta que muitos dos frutos ficaram com ferimentos irreversíveis, pelo que já vão conseguir ter qualidade para o consumo em fresco. “Tivemos a queda de granizo, com pedras com alguma dimensão, junta com pedras mais pequeninas, que fez um picotado nos frutos bastante acentuado. Em algumas situações acabou mesmo por romper a parede celular do fruto e há frutos que têm muitos toques”, disse Duarte Borges, que explicou ainda que os toques mais pequenos conseguem disfarçar-se com o próprio crescimento da fruta e com a aplicação de algum cálcio, já os toques maiores, com profundidade, vão deformar a maçã, que tem que ir para concentrados, para sumos, perdendo valor.

Duarte Borges calcula que 40% dos 800 hectares de pomares do Planalto de Ansiães possam ter sido afetados pelo mau tempo. Quanto a prejuízos, no que toca a maçã que não será aproveitada, diz que ainda é prematuro fazer essa avaliação, já que se está a meio da campanha, com os frutos ainda com pequenas dimensões. “Temos uma noção do prejuízo mas até ao final da campanha vai fazer-se uma avaliação mais rigoroso em relação à fruta que não pode ser introduzida no mercado”, esclareceu.

Para além dos pomares de macieiras no Planalto de Ansiães, há também registo de estragos, nomeadamente em vinhas e terrenos de outras culturas, noutros concelhos da região.

Escrito por Rádio Ansiães

Praça da Sé - BRAGANÇA

segunda-feira, 29 de maio de 2023

7.º BISPO DE MIRANDA - Desde 1599 a fins de 1608 (pelo menos)

 D. Diogo de Sousa – Natural de Braga. De bispo de Miranda passou a arcebispo de Évora, onde faleceu e está sepultado (81).
Leite de Vasconcelos (82) dá-o «como merecedor dos seus cargos não só por suas virtudes, como por suas letras», baseando tal juízo na Evora Gloriosa (83).
Parece que Frei Fernando de Abreu confundiu este bispo com outro seu homónimo que o foi do Porto, e depois arcebispo de Braga, onde morreu em 1532 (84), muito antes, portanto, de o nosso ser bispo e até nascido.
Foi este bispo quem fundou o Seminário de S. José de Miranda no ano de 1600, destinando para as suas despesas o rendimento de colectas pecuniárias impostas em benefícios, fábricas e comendas da diocese, que tudo montava antes da extinção dos dízimos em 1195$348 réis (85). A este Seminário de Miranda uniu também o de S. Pedro de Bragança

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(81) PIRES, Manuel António – Lista dos Bispos de Miranda, in «Estatutos da Sé de Miranda», Opúsculo de Considerações Históricas, p. 23.
(82) VASCONCELOS, José Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, vol. I, p. 135.
(83) FONSECA, Francisco da; FIALHO,Manuel; – Évora Gloriosa. Roma, 1728, p. 306.
(84) ABREU, Fernando de, Frei – Catálogo dos Bispos de Miranda. CUNHA, Rodrigo da – Catálogo e História dos Bispos do Porto, parte II, p. 270.
(85) RIBEIRO, Silvestre – História dos Estabelecimentos Literários, Científicos e Artísticos de Portugal, vol. III, p. 63.
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(86) e deu Estatutos em 1599 à Colegiada de Santa Maria de Bragança.
A 27 de Novembro de 1608 foi eleito arcebispo de Évora, tomando posse a 27 de Maio de 1610, e morreu a 30 de Dezembro do mesmo ano.
Em Évora apenas se sabe que foi ele quem fez povoar de novo o conventinho de Valverde (87).
Foi para felicitar este bispo, por ter sido elevado a arcebispo de Évora, que Manuel Severim de Faria veio a Miranda, escrevendo sobre o assunto um trabalho noticioso.
O seu retrato, existente no Paço Episcopal de Bragança, tem na tela a legenda: D. Didacus de Sousa / Bracharae natus ad arc / hiepiscupatum Evoremsem / permutatus, ibi obiit, ibi, / que Jacet.

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(86) Livro de Contas do Seminário de S. José de Miranda, manuscrito existente na Biblioteca do Seminário de Bragança, fl. 5.
(87) FONSECA, Francisco da – Évora Gloriosa, p. 306.
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

𝐁𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐚 𝐌𝐢𝐫𝐚𝐧𝐝𝐚 𝐛𝐞𝐫 𝐥𝐬 𝐏𝐚𝐮𝐥𝐢𝐭𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬

 Os Pauliteiros de Miranda são o símbolo local incontornável de Património Cultural imaterial de Miranda do Douro.
Enquanto grupo de danças tradicionais representam uma das principais atrações do nosso concelho, sendo que o trabalho desenvolvido pelos grupos e Associações têm contribuído de forma exemplar para a divulgação do património, etnografia e cultura mirandesa, bem como o artesanato que lhe está associado.

A preservação desta nossa identidade cultural é uma base sólida para um futuro mais rico, que passa pela contínua divulgação e valorização do que nos pertence.

Neste sentido e para que efetivamente os nossos visitantes possam ber ls Pauliteiros o Município de Miranda do Douro promove a iniciativa "Bamos a Miranda ber ls Pauliteiros".

👉 Assim, de 1 de junho a 30 de setembro, aos sábados, serão dançados “Lhaços” pelas ruas da cidade, para que desta forma todos aqueles que nos visitam possam desfrutar de um acolhimento salutar bem próprio do povo mirandês.

𝓥𝓲𝓼𝓲𝓽𝓮-𝓷𝓸𝓼...

📲 Saiba mais AQUI.

𝗔𝗽𝗿𝗲𝘀𝗲𝗻𝘁𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝗹𝗶𝘃𝗿𝗼 " 𝗘𝗺 𝗢𝘂𝘁𝗿𝗮 𝗩𝗶𝗱𝗮"

Feira da Cereja da Serra em Bornes

 No dias 3 e 4 de junho, vai decorrer na localidade de Bornes, a VI edição da Feira da Cereja da Serra e outros produtos do nosso território.
Caminhada na serra de Bornes, exposição de máquinas agrícolas, mostra e venda do que melhor se produz no nosso território e muita animação.

O certame é organizado pela Junta de Freguesia de Bornes e Burga, com o apoio do Município Macedense e Geopark.

Nota de Imprensa | Alfândega da Fé recebe a Meia Maratona da Cereja este fim de semana

 No próximo domingo, 4 de junho, Alfândega da Fé recebe a 6ª edição da Meia Maratona da Cereja.
A prova de 21,1 Km integra o calendário de provas da Associação de Atletismo de Bragança para a época 2022/2023, constituindo o Campeonato Distrital de Meia Maratona (em etapa única).
Alfândega da Fé recebe a Meia Maratona da Cereja este fim de semana

No próximo domingo, 4 de junho, Alfândega da Fé recebe a 6ª edição da Meia Maratona da Cereja. Incluída no projeto Running Place Alfândega da Fé, a Meia Maratona da Cereja é organizada pela Associação Recreativa Alfandeguense (ARA), em parceria com o Município de Alfândega da Fé, e envolve a colaboração da Associação de Atletismo de Bragança. A prova de 21,1 Km integra o calendário de provas da Associação de Atletismo de Bragança para a época 2022/2023, constituindo o Campeonato Distrital de Meia Maratona (em etapa única).
Este é um evento de atletismo de referência na região, umbilicalmente associado à “Festa da Cereja” há cerca de 4 décadas. Este ano conta com a Meia Maratona em percurso mais plano, partindo do Jardim Municipal, passando nos pomares de cereja e na barragem, percorrendo o planalto e a vila de Alfândega da Fé.
Estando inserida na Bio-Região Lagos do Sabor, o mote é assumir-se como a Meia Maratona mais sustentável. Neste sentido foi realizado um “plogging”, no passado dia 26 de maio, pelo percurso da prova, no qual os participantes recolheram lixo e detritos das bermas, ao mesmo tempo que caminharam e apreciaram as magníficas paisagens do território. Também os troféus vão ser produzidos em materiais ecológicos e a organização terá especial atenção aos materiais a utilizar durante a prova.
Esta é também a prova de atletismo mais deliciosa do país devido à cereja de Alfândega da Fé que faz parte dos vários reforços ao longo do percurso.
Em simultâneo com a Meia Maratona decorrem outras provas: a corrida de 10 Km e as corridas para escalões jovens (dos 7 aos 17 anos). A iniciativa desportiva está aberta a atletas federados e não federados.


Olho por Olho - Na Madrugada dos Tempos – Parte 10

 A guerra é, a princípio, a esperança de que a vida nos venha a correr melhor,
a seguir, a expectativa de que corra pior aos outros,
depois, a satisfação por ela também não correr melhor aos outros, e,
mais tarde, a surpresa por ela correr pior a ambos.

Karl Kraus, Escritor austríaco
  (1874-1936)
Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Partiram ainda noite escura, em silêncio, uma extensa fila com vinte e dois elementos que marchava com dificuldade sobre a neve fofa debaixo de um ameaçador céu de chumbo. Entre as lanças empunhadas pela maioria destacavam-se os dois arcos de madeira e osso, fabricados por Alim e Beki, os nómadas adotados na aldeia. Este último e também Dogan, sobrinho-neto de Erem eram exímios atiradores e tornaram-se uma mais-valia entre os caçadores, permitindo-lhes matar ou ferir as presas, surpreendendo-as a grande distância.
À cabeça do grupo seguiam Erem e Naci. Se o primeiro seguia de cenho carregado e apreensivo, o segundo exibia um ar de satisfação feroz. Atrás seguiam os restantes, maioritariamente homens, escolhidos a dedo por Lemi que, com exceção dos estrangeiros, conhecia intimamente cada um deles a quem ensinara as artes da caça desde crianças. As quatro mulheres escolhidas eram Ezgi e Eda, que já tinham revelado a sua mestria com a funda no primeiro ataque e duas outras estrangeiras, empunhando lanças e que quase só se distinguiam dos homens por não terem barba. Zia não acompanhou o grupo, para desilusão desta; o chefe convenceu-a a ficar com Nehir e Asil, porque decidira que desta vez não arriscaria que toda a governação do clã se perdesse de uma vez só.
A luz da manhã já iluminava, tristonha, os montes de cristas nevadas e a paisagem ondulante de vegetação rasteira coberta por um manto branco. Esta região distinguia-se dos planaltos onde o clã vivia, era agreste, com pouquíssimas árvores e cortada por profundas brechas ou montes desproporcionais. Os deuses deviam estar furiosos quando fizeram aquela parte do mundo e via-se que era um terreno de exílio para uma espécie que se refugiava, a terra que ninguém queria.
Num autêntico “déjà-vu”, o grupo reuniu-se no promontório que permitia uma ampla vista da entrada da gruta, mas que estava separado desta por uma funda garganta. Aquele era um bom ponto de observação, conseguiam ver, não só o seu objetivo, como uma grande distância em redor… o local ideal para uma sentinela. As pegadas recentes na neve fofa testemunhavam que houve atividade ali nas últimas horas. Havia a forte possibilidade de terem sido avistados.
Erem observou atentamente todos os pormenores, enquanto lamentava não ter trazido Lemi, o seu indiscutível estratega. Ao fim de alguns segundos fez um gesto aos outros e todos se afastaram da crista para uma zona onde não seriam vistos pelo inimigo.
O chefe ficou em silêncio fitando o chão, formados em círculo à sua volta, os outros respeitavam a introspeção. Depois ele ergueu os olhos para cada um deles, fixando-se nos dois archeiros.
— Acham que conseguem atingir a entrada da gruta desde este promontório? — Atirou Erem repentinamente. — Derrubar quem apareça à entrada?
Dogan, um dos mais jovens do grupo, fez uma expressão de incerteza, mas Beki, o mais velho dos filhos do nómada Alim, acenou com a cabeça afirmativamente.
— Então está decidido. — O chefe concluiu. — Desta vez não seremos surpreendidos antes de estarmos todos no planalto de entrada. Eles manterão a vigilância, — explicou dirigindo-se aos outros — e se algum daqueles monstros sair, será morto ou pelo menos afugentado. Vamos escalar a parede até ao planalto e ninguém — aqui olhou conspicuamente para Naci —, repito, ninguém, ataca sem todos terminarem a subida. Subiremos em linhas de quatro, os mais novos e fortes à frente e ajudam os outros assim que chegarem. — Tomando a dianteira, ordenou: — Agora vamos!
Os dois archeiros tomaram posição, o olhar fixo na entrada da gruta, sem descurar os companheiros que desciam a garganta.
Uma águia piou no alto, na sua busca por alguma presa que se aventurasse fora da toca em cima da neve fofa. Tirando isso, não se avistava vivalma, o que começava a ser estranho. Era dia claro e aparentemente ninguém saía da gruta… esperavam que, pelo menos os caçadores, já estivessem fora há muito.
Foram estes pensamentos que fizeram Beki olhar pelas redondezas dos seus companheiros e detetar o pequeno grupo de homens-macaco que, no fundo da garganta, saía de uma fenda na parede e avançava na direção deles. Gritou o alarme e começou a enviar dardos na direção dos inimigos. A primeira flecha cravou-se no tronco de um e a segunda no pescoço de outro, os restantes inimigos, porém, saíram da vista do atirador refugiando-se na parede contrária. Uma última flecha partiu-se contra as pedras; Dogan conseguira finalmente vencer as tremuras e atirar o primeiro dardo.
Naci, Fikri, Altan e dois dos estrangeiros, à cabeça dos restantes, correram na direção indicada por Beki. Gritos de guerra e dor ecoavam no fundo da garganta fora da vista dos aflitos archeiros. Por fim, à medida que o restolho da refrega reduzia, viram um dos mais jovens estrangeiros a fugir perseguido de perto por um homem-macaco. Beki armou o arco e preparava-se para desfechar sobre o inimigo quando se apercebeu que Fikri corria logo a seguir. O corpulento inimigo estava quase a deitar as mãos ao franzino rapaz quando a lança do filho de Lemi cravou-se com um baque surdo nas costas dele, derrubando-o. O fugitivo parou imediatamente de correr e, fazendo jus à sede vingativa que os movia a todos, saltou sobre o homem-macaco tombado e começou a espetá-lo furiosamente com a faca de sílex. Era o filho de uma das mulheres assassinadas no assalto à aldeia. Fikri arrancou o seu dardo das costas do inimigo e ergueu-o num gesto de triunfo para os dois archeiros. Lentamente, os atacantes reuniram-se no fundo da garganta, havia feridos, mas não parecia faltar ninguém.
Não havia agora dúvidas de que haviam sido avistados e os homens-macaco já estavam à espera do ataque. Deixaram aqueles fora da gruta para os apanhar pelas costas enquanto subiam e decerto haveria mais surpresas pela frente.
Rapidamente e sem hesitação, todos se lançaram na escalada. Os dois archeiros mantinham-se vigilantes entre a observação atenta da entrada da gruta e a preocupação dos companheiros que subiam com esforço. Conseguiram perceber que alguém espreitava rapidamente da abertura escura e avisaram por gestos os primeiros que concluíram a subida, invariavelmente Naci e Fikri.
Enquanto os archeiros concentravam a sua atenção nos companheiros, um restolho fê-los voltar-se de supetão; um homem-macaco erguia uma temível clava sobre Dogan. Tinha a cabeça e o rosto coberto de sangue pingando profusamente da haste partida de uma flecha cravada logo abaixo do ombro esquerdo. Beki, que nunca deixara de ter um dardo a postos no seu arco, lançou-o imediatamente sobre o inimigo, mas demasiado tarde para evitar que este descarregasse a moca em cima do companheiro. O infeliz Dogan ainda tentou esquivar-se da pancada, mas esta atingiu-o com violência sobre a clavícula e o braço com que se protegeu. O arco que empunhava desfez-se em pedaços quando o jovem rolou sobre ele.
Tendo uma das ameaças eliminada, o homem-macaco, agora com nova flecha cravada no pescoço, soltou um grunhido inumano ao mesmo tempo que levantava a clava para atacar o outro. Beki recebeu-o atabalhoadamente com novo dardo no peito, mas não parou o ataque. Dogan, tombado aos pés do inimigo e com um braço sem ação, apanhou uma pedra e feriu-o várias vezes na parte desprotegida das pernas entre as botas de pele e a túnica de couro que envergava. Surpreendido pela dor inesperada, o formidável adversário saltou para o lado, pronto para lhe esmagar a cabeça, mas estes segundos foram preciosos para Beki empunhar a sua faca de cobre e saltar sobre ele. Sem espaço para manobrar a clava e sem poder fazer mais do que tentar esmagar o inimigo que se colava a ele, o homem-macaco caiu e debateu-se, enquanto Beki lhe cravava sucessivamente a adaga até aos copos, procurando atingir o coração. Dogan conseguiu arrastar-se até junto dos contendores e rasgou-lhe a garganta com a faca de sílex. Só assim terminou o combate.
Beki ergueu-se ofegante e ajudou o companheiro, que se retorcia com dores, a sentar-se mais comodamente. Aparentava ter o úmero e a clavícula partidos e fora um esforço sobre-humano para se arrastar e ajudá-lo. Devia-lhe a vida com toda a certeza. Depois olhou para os restantes companheiros que terminavam a escalada, ignorando a luta de vida ou morte que acabara de ser travada.
No patamar de acesso à gruta, os atacantes ajudaram os últimos a terminar a escalada e começaram a formar uma linha de cada lado da entrada. Começavam a tombar suavemente diáfanos flocos que pousavam sobre a neve calcada e suja do chão. Não se escutava qualquer ruído do interior escuro e intimidante. Um dos estrangeiros, ansioso por mostrar-se mais valente que os restantes ou incapaz de suportar a expetativa, avançou para a goela negra, tendo sido presenteado com uma lança no peito que o projetou para fora. Tombou numa posição pouco natural, com o peso do dardo a curvar-lhe o corpo para trás, os olhos esbugalhados perderam o brilho rapidamente… uma mancha rubra espalhou-se imediatamente sobre o tapete alvo.
Desta vez, Naci tivera o bom senso de não se precipitar, mas mais dois corajosos jovens se lançaram para a abertura hiante para serem confrontados de imediato com um homem-macaco que derrubou ambos com possantes pancadas da clava que empunhava. Por estarem demasiado próximos, nenhum deles teve tempo de usar a lança que empunhava. Este foi o sinal, porém, para Erem gritar para o resto do grupo se lançar decididamente no ataque. Uns ainda com as lanças, outros, optando por armas mais manejáveis em lugares estreitos, largaram-nas e empunharam os machados de sílex que traziam à cintura.
Chocados com a diferença entre a luz exterior e a penumbra da gruta, os primeiros invasores tiveram de combater por instinto com os quatro inimigos que os receberam com clavas e lanças. A vaga inicial quase foi travada, não fosse Naci espetar a sua lança, por cima do ombro de um dos companheiros, diretamente no pescoço de um dos defensores. Imitando a técnica, os seus companheiros eliminaram rapidamente a resistência e passaram por cima de mortos e feridos. Com os machados e as facas, acabaram violenta e sangrentamente com quantos inimigos tombados depararam. A presença dos amigos feridos e mortos só serviram para aumentar o ódio e raiva que sentiam. Ninguém ficou para os ajudar, todos respingados e inebriados de sangue, como demónios ululantes, atravessaram a estreita entrada e desembocaram numa ampla gruta fracamente iluminada pela fogueira que ardia sozinha no centro. As silhuetas de vários homens-macaco movimentavam-se a esconder-se nas sombras ou nas cavidades em redor.
Soltando gritos horrendos, a horda demoníaca lançou-se como um rio que desagua num lago de águas calmas. Para ambos os lados partiram homens e mulheres com os machados ensanguentados em punho. Atacaram todas as figuras difusas que lhes apareciam pela frente. Fosse a fugir, fosse a defender-se, todos tombavam perante aquela maré de fúria homicida. Gritos apavorados de mulheres e crianças, misturavam-se com urros masculinos de dor ou raiva. Palavras desconhecidas misturavam-se com maldições, todas ecoando na alta abóbada da gruta.
Ferido num braço por uma lança e a sangrar da cabeça por uma pancada de uma clava, para Erem tudo não passava de uma névoa rosada, enquanto se desviava dos ataques e devolvia pancadas selvagens com o seu machado. O corpo e os ferimentos doíam-lhe e começavam a faltar-lhe as forças para manejar a arma.
Gradualmente, a gritaria converteu-se em murmúrios e gemidos, alguns calados violentamente ao som de pancadas surdas.
Sem inimigos à vista, Erem deixou-se sentar pesadamente, arrastando as costas pela parede áspera. O chão de pedra estava morno e viscoso. Passou a mão pela cara para limpar os olhos, mas ficou a ver ainda pior. Deixou cair a cabeça para a frente e fechou os olhos, esgotado.
— Pai? — A voz de Naci sobressaltou-o. — Estás bem?
Levantou o rosto e sentiu a água gelada que lhe despejavam na cara. Esfregou os olhos e estava novamente na penumbra avermelhada da caverna. O cheiro fétido a sangue e carne era indescritível e misturava-se com o fedor de cabelos e pele queimados. Por onde os seus olhos vagueavam só via corpos caídos de bruços ou dorsal, em posições pouco naturais… quase só mulheres e crianças. Havia mesmo bebés tombados sem vida ao lado das progenitoras…
Suspirou e escondeu o rosto entre as mãos. O estupor tomava conta dele ao mesmo tempo que se inteirava da enormidade do que haviam feito. Sentia as forças a faltar-lhe e era de muito longe que lhe chegavam as vozes dos companheiros.
— Vencemos! — Apregoavam uns.
— Acabamos com eles todos! — Gritavam outros.
— Viva Erem, que nos trouxe a uma grande vitória! — Soltou outra voz, logo ovacionada por todos.
O chefe ergueu-se ajudado por Naci e Fikri, que se haviam colocado um de cada lado e depois olhou os seus valorosos companheiros, onde não havia um rosto incólume. Abraçou o filho e deu umas palmadas afetuosas no ombro do filho de Lemi, enquanto sorria e acenava a cabeça tristemente para os outros.
— Vamos pegar os nossos mortos e feridos e vamos embora deste lugar maldito. — Soltou Erem num quase gemido.
Foi num silêncio quase total que revistaram o espaço pejado de cadáveres em busca dos companheiros perdidos, antes de se reunirem todos no exterior. O ataque “bem-sucedido”, saldara-se em seis mortos e quatro feridos com gravidade. Na realidade, ninguém escapara sem ferimentos e a distinção era apenas se precisava de ajuda para andar ou não. Da parte dos homens-macaco, a derrota fora total; quase trinta adultos e várias crianças. Não restara nenhum vivo, os atacantes certificaram-se disso enquanto procuravam os amigos.
Havia poucos deles em condições para arrastar um corpo morto durante as várias horas que lhes levaria o regresso à aldeia, além disso, precisavam de transportar a carne seca e os cereais que encontraram por isso e após animada discussão, resolveram deixá-los. Os cadáveres dos companheiros foram alinhados numa pira feita com a lenha que os inimigos haviam armazenado e incendiada. Os corpos dos homens-macaco ficaram onde caíram, os lobos e os abutres teriam o festim assegurado por vários dias.

Manuel Amaro Mendonça
nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016), "Daqueles Além Marão" (Abril 2017) e "Entre o Preto e o Branco" (2020), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Foi reconhecido em quatro concursos de escrita e os seus textos já foram selecionados para duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e sairão em breve. Siga as últimas novidades AQUI.

𝗘𝗡𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗢 𝗜𝗡𝗧𝗘𝗥𝗡𝗔𝗖𝗜𝗢𝗡𝗔𝗟 𝗗𝗘 𝗚𝗔𝗦𝗧𝗥𝗢𝗡𝗢𝗠𝗜𝗔 📌 A ARTE DA ALIMENTAÇÃO EM BRAGANÇA

 Mais informação AQUI.

Festival Literário de Bragança foi o "mais participado de sempre"

 O Douro foi inspiração para 50 escritores transmontanos que participaram na colectânea da Academia de Letras de Trás-os-Montes

Foto: CMB
Os textos foram escritos de propósito para a obra e são de diversos estilos literários, poesia, crónica, contos, biografias, vivências. Apresentada, este sábado, no Festival Literário de Bragança, fala muito mais do que o rio Douro, disse a presidente da academia, Maria Assunção Morais.

“Deixando marcas do território, das gentes, da paisagem, do rio, do património imaterial, desde a gastronomia, as rezas, as lendas, todas associadas ao rio, à região e naturalmente a Trás-os-Montes, porque o rio Douro, não é só o rio que separa regiões, mas que liga uma região transmontana e, portanto, quando se fala do Douro inevitavelmente a região de Trás-os-Montes está associada”, referiu.

A presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes não tem dúvidas de que as experiências e vivências dos transmontanos estão bem patentes nas suas obras.

“Diria que há uma literatura que transborda aquilo que é a génese de Trás-os-Montes. Nós acabamos por ser moldados pelas nossas vivências, pelo frio do Inverno, pelas nossas comidas, pelas nossas paisagens, pelos nossos rituais de trabalho, tudo isso faz de nós autênticos e isso é transbordada na literatura”, sublinhou.

A apresentação da colectânea culminou com o encerramento do Festival Literário de Bragança, que decorreu entre quarta-feira e sábado. A edição mais participada de sempre.

“Foi o festival mais participado de sempre, inclusivamente no envolvimento da comunidade escola, o que revela um trabalho muito interessante que as bibliotecárias escolares têm vindo a desenvolver e também nas sessões da noite para público em geral, o que significa que as pessoas se revêem cada vez mais nestas iniciativas e vêm a leitura como um meio de inclusão e de se autoconhecerem melhor”, avançou a vereadora da cultura, Fernanda Silva.

A Academia de Letras de Trás-os-Montes conta com 150 associados e tem já 10 colectâneas editadas. A deste ano com intitulada “Douro: Um Território de Palavras”.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

Inauguradas obras na escola D. Afonso III em Vinhais

 Está finalmente a funcionar a escola D. Afonso III, frequentada por mais de 370 alunos, do primeiro ao décimo segundo ano


As obras de melhoria começaram há três anos e só neste terceiro período os estudantes puderam finalmente ter aulas nas novas instalações. Na inauguração as obras, na sexta-feira, o presidente da câmara de Vinhais, Luís Fernandes, disse que é um dos investimentos mais importantes para o concelho, mas que há ainda algumas coisas a melhorar.

“Ainda há espaços que podemos potenciar. Por exemplo, ao nível do primeiro ciclo foi construído um pavilhão completamente novo e há aqui um espaço que pode ser aproveitado para criar condições desportivas e em termos de recreio para os alunos do primeiro ciclo. Há sempre outras valências que se podem melhorar, mas o fundamental está feito”, disse.

As obras na escola D. Afonso III custaram 4 milhões de euros. Além de terem sido recuperados alguns espaços, foram ainda construídos outros. A empreitada foi financiada por fundos comunitários, através da Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes, pela câmara municipal de Vinhais e pelo Ministério da Educação.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

Julgamento do processo “Semente em Pó” começou em Bragança com quatro arguidos

 O Tribunal de Bragança começou hoje a julgar o processo conhecido como “Semente em Pó”, relacionado com uma alegada rede de tráfico de droga que operava no Norte de Portugal.


O processo tinha cinco arguidos, mas um dos acusados morreu na cadeia de Bragança, onde se encontrava em prisão preventiva a aguardar julgamento.

No banco dos réus estão agora três homens e uma mulher, com idades entre os 33 e os 56 anos, acusados dos crimes de tráfico de estupefacientes, detenção de arma proibida e tráfico e mediação de armas.

Os arguidos são uma engenheira e um agricultor de Mirandela, um porteiro de Vila Nova de Gaia e um mecânico de Boticas, três dos quais estão em prisão preventiva.

O grupo foi detido em junho de 2022 numa operação policial denominada “Semente em Pó” realizada durante dois dias em vários concelhos do Norte do país para dar cumprimento a cinco mandados de detenção, nove mandados de buscas domiciliárias e a 15 mandados de buscas em veículos, anexos e estabelecimentos.

As autoridades apreenderam 500 doses de cocaína, 26 de haxixe, 40 de canábis folhas, 63 plantas e sementes de canábis, quatro balanças de precisão, outro material relacionado com o tráfico de droga, além de mais de cinco mil euros em dinheiro, duas viaturas, armas de fogo e munições, bastões, catanas e material informático, entre outro.

Da operação policial resultaram seis detidos, mas o Ministério Público acabou por deduzir acusação apenas contra cinco dos visados.

A alegada rede de tráfico de droga teria base em Mirandela, no distrito de Bragança, e estava a ser investigada há cerca de dois anos.

A investigação apurou que a droga era adquirida nos distritos do Porto e Vila Real e “tratada, acondicionada e enterrada em locais ermos do concelho de Mirandela para ser revendida a consumidores dos concelhos de Mirandela, Valpaços, Vila Flor, Chaves e Boticas”.

“Paralelamente a essa atividade, o grupo cultivava plantas de canábis, aproveitando locais em que a vegetação não permitia detetar a presença das mesmas, procedendo à sua secagem e embalamento em armazéns, no concelho de Mirandela, para posteriormente a vender aos consumidores”, segundo a investigação.

O Ministério Público arrolou quase 80 testemunhas para o julgamento que começou hoje, em Bragança, e durante o qual os arguidos estarão ausentes da sala de audiências, a pedido do Ministério Público.

O pedido foi justificado “considerando os constrangimentos e receios que as testemunhas consumidores podem apresentar, de forma a garantir um depoimento livre e consonante com a verdade”.

HFI//LIL
Lusa/fim

Trago Música nos meus Bolsos

 Catrapum anda em viagem. Traz consigo uma mala. Uma mala cheia de bolsos: grandes, pequenos e assim/assim… Os bolsos são mágicos e têm coisas lá dentro, mas só funcionam com música: é preciso descobrir a canção mágica! Instrumentos, melodias, harmonias, ritmos e outros sons e sonoridades vão surgir! Em cada bolso, uma canção, de bolso a bolso, uma composição.
Esta é uma iniciativa promovida pelo Município em parceria com as equipas AAAF, CPCJ Alfândega da Fé  e CLDS Liga dos Amigos do Centro de Saúde de Alfândega da Fé , como forma de comemoramos o Dia Mundial da Criança.

Dia 1 de junho, às 15h30, no auditório Manuel Faria - CCA.

𝗥𝗼𝘁𝗮 𝗱𝗮 𝗖𝗶𝗴𝗮𝗱𝗼𝗻𝗵𝗮

domingo, 28 de maio de 2023

Também seria essa a minha escolha…

 Hoje, 28 de maio de 2023 e como complemento à prenda de anos no 40º aniversário da minha filha, disse-lhe que escolhesse sem limite de quantidade discos em vinil que guardei “religiosamente” durante décadas a fio.
Em 78 rotações optou por música clássica. Em 45 rotações, curiosamente, escolheu os que eu escolheria se me fosse dada a mesma oportunidade. Curiosamente, também, fiquei feliz em ver “partir” levado por parte de mim… um pouco da minha juventude.
Há um tempo para “tirar as coisas do caixote” e voltar a dar-lhes “vida"…
Para o próximo fim-de-semana é a vez do meu filho, no seu 37º aniversário, efectuar as suas escolhas, também como complemento à prenda de anos.
Os “bens” materiais se não forem utilizados, usufruídos, apreciados, partilhados... parados, para que servem?

HM

Atrás do esférico

Por: Manuel Eduardo Pires
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Não pesco nadinha de futebol. Aprecio um bom jogo entre equipas que se batam taco-a-taco e discutam o resultado até ao último segundo. Gosto de saber que a seleção ocupa as primeiras posições dos rankings e animo-me quando põe em sentido as melhores do mundo. Tirando isso, e mesmo sem estar já naquela fase da maior parte das senhoras que conheço, para quem um fora-de-jogo é um conceito misterioso, se não mesmo absurdo, ainda assim nunca cheguei a perceber muito bem o que é um trinco, escapa-me por completo que tática está a ser usada e passa-me geralmente ao lado se e quando um jogador que ocupa determinada posição deve ou não dar lugar a outro.
Isto talvez explique a minha habitual resmunguice contra tudo o que vive à custa de quem dá o litro dentro das quatro linhas. Enjoa-me a estopada que se grama diariamente nas televisões. Aqueles caga-lérias pagos para fazerem de hienas e se maltratarem nos espaços de comentários parecem-me uma afronta a qualquer criatura com mais de três ligações entre neurónios. Penso que talvez nosso senhor os tenha castigado pelos seus pecados colocando-lhes bolas sobre os ombros, em vez de cabeças. 
Por outro lado, em se tratando do comportamento humano, raramente o que parece é. Acontece muito olharmos e não vermos o filme todo. Como tal, e tendo em conta a importância que damos ao assunto, não deixa de ser legítimo colocar a hipótese de haver na bola algo mais para lá daquilo que se enxerga, coisas que os doentinhos da dita dizem sem saber que as dizem, intenções nas entrelinhas de que nem os donos das linhas desconfiam. 
O futebol leva-se tanto a peito porque, representando a própria vida, mexe com dimensões situadas no mais fundo e autêntico de nós. Não deixa de ser estranho, por exemplo, que a baliza onde se tenta a todo o custo introduzir algo por entre oposições, incertezas e canseiras possa ter conotações eróticas e que a bola que vai ao fundo das redes represente uma união sexual consumada cheia de promessas de reprodução. As dúvidas amolecem, no entanto, sempre que se vê alguém marcar um golo e festejá-lo com um gesto claramente obsceno, ou imitando uma gravidez, o embalar de um bebé, uma chupeta na boca…
Há jogadores que simulam disparar armas de fogo, o que embora não pareça significa o mesmo. Mas neste caso acresce outra razão. Note-se que o futebol foi buscar muitas palavras à arte da guerra. Nele se fala a cada passo de hostilidades, torneios, táticas, estratégias, manobras, armas secretas, defesas, ataques, contra-ataques, alas direitas e esquerdas, capitães, extremos (o nome dado às linhas da frente na idade-média), pontas-de-lança, pés-canhão, tiros, petardos, bombas, vitórias arrancadas a ferros, troféus, baixas, reservas, bem como de recrutar, comandar as operações, armar (o remate), desarmar, bater, fuzilar, matar (o jogo), eliminar, etc. Não é por acaso. Como os desportos em geral, ele pretende desviar a nossa agressividade e ser um substituto mais civilizado dos conflitos coletivos. Acontece que a linha que em nós separa a brutalidade da civilização é muito fina. Mesmo pondo de lado o tribalismo assassino de certas claques, a pancadaria que a cada passo estala nos relvados, nas assistências, dentro e fora dos estádios, fala por si. 
Mas desçamos mais uns degraus. As guerras não se dão só entre países. Travam-se no dia a dia entre pessoas e, sobretudo, dentro das pessoas. Cheios de limitações, derreados por sentimentos de impotência, ocultos mas reais, a nossa vida é feita de lutas continuadas contra forças que de algum modo se nos opõem. Uma maneira de compensar isso é acolhermo-nos à proteção de equipas que têm como símbolos águias, leões, dragões e outros animais de poder. Ganham mais vezes do que perdem e as suas vitórias sabem a desforras consoladoras contra as debilidades pessoais.
Ainda que a brincar, apreciamos essas conquistas alheias e esforçadas porque elas lembram o nosso próprio esforço diário para sobreviver, algo demasiado sério para ser entregue a pés tortos. É por isso que o mérito, a justiça, a verdade em campo nos são fundamentais. Não é comum subornar um treinador para lhe impor quem deverá jogar, nem este pactuar com favorecimentos, amizades, cunhas da família, amigos, conhecidos na hora de formar o onze principal. Aqui é irrelevante ser-se membro do partido x ou da estrebaria maçónica y. Exigimos ser representados pelos mais aptos. O nosso prestígio, segurança e autoconceito dependem disso.

28 de maio de 2023

Manuel Eduardo Pires
. Estes montes e esta cultura sempre foram o meu alimento espiritual, por onde quer que andasse. Os primeiros para já estão menos mal, enquanto a onda avassaladora do chamado progresso não decidir arrasá-los para construir sabe-se lá o quê, mas que nunca será tão bom. A cultura, essa está moribunda, e eu com ela. Daí talvez a nostalgia e o azedume naquilo que às vezes digo. De modo que peço paciência a quem tiver a paciência de me ir lendo.

1° Festival do Careto

 A dois meses do início do 1° Festival do Careto, divulgamos algumas das atividades do evento. Brevemente vamos lançar o Cartaz Oficial.

Como regar as suas plantas durante as férias?

 Na série “Abra espaço para a natureza”, Carine Azevedo responde às dúvidas que temos quando pensamos em tornar um espaço mais amigo do mundo natural.

Foto: Joana Bourgard

Numa altura em que as férias se aproximam, saber como regar as plantas durante esse período é sempre importante, para garantir que se mantenham vivas e saudáveis durante a sua ausência.

A importância da rega

A água é essencial para as plantas em todas as etapas do seu desenvolvimento. É necessária para que as sementes germinem e ao longo do seu desenvolvimento, já que é responsável por várias funções importantes dentro dos tecidos vegetais. A planta usa a água para produzir energia, regular a temperatura e obter nutrientes essenciais.  

Quando uma planta é regada, a água é absorvida pelas raízes e transportada para as folhas. Nas folhas, a água é usada na fotossíntese para converter a energia do sol em energia química, que permitirá à planta produzir o seu próprio alimento, nutrientes e açúcares, que são depois dissolvidos na água e conduzidos para as diferentes partes da planta para que esta possa crescer e prosperar.

Foto: Joana Bourgard

As plantas também usam a água para regular a temperatura interna. Através da transpiração, as plantas libertam água para regular e equilibrar o sistema interno, evitando que sobreaqueçam.

Também os “ajudantes” das plantas dependem da água. Os organismos benéficos do solo que ajudam as plantas a crescer dependem do acesso à água para sobreviverem.

Assim, regar uma planta é essencial para sua saúde e vitalidade.

Como, quando e quanto regar as plantas?

Embora não existam regras universais sobre a frequência e quantidade de rega para cada planta, sabemos que, sejam árvores ou arbustos recém-plantados, plantas anuais ou perenes, estejam em vaso ou diretamente no solo, todas as plantas precisam de água.

O que pode variar é a quantidade de água que cada planta necessita. Nem todas as plantas têm as mesmas necessidades hídricas.

As plantas nativas, os catos e as plantas suculentas, por exemplo, são menos exigentes em água e toleram mais facilmente a falta de água. Já as plantas tropicais, os fetos e os bambus têm necessidades hídricas superiores.

Além disso, a forma como as plantas são mantidas (em vaso, ou diretamente no solo), o tipo de substrato e o ambiente em que estão, também poderão influenciar a quantidade de água que precisam.

Por exemplo, as plantas em vaso ou em floreiras, geralmente necessitam de quantidades superiores de água quando comparadas com as plantas instaladas em terreno livre devendo, por isso, ser regadas com mais regularidade já que o solo tem tendência a secar muito mais rápido.

As plantas jovens também precisam de ser regadas com mais frequência, do que as plantas adultas, porque têm sistemas radiculares mais pequenos e menos eficientes na absorção de água do solo. 

Já as plantas recém-plantadas precisam de mais água, porque ainda não estabeleceram os seus sistemas radiculares, não podendo assim absorver de forma eficiente a água de que necessitam, como acontece com as plantas estabelecidas.

Por outro lado, as plantas recém-plantadas também perdem mais água por transpiração do que as plantas estabelecidas porque têm mais folhas por unidade de massa de raiz.

No auge do verão, quando as temperaturas estão mais elevadas, é natural que as plantas necessitem de regas mais regulares e a ocorrência de vento é outro fator a ter em conta já que este favorece a secura dos solos.

Ainda ao nível dos solos, é importante saber que os mais arenosos e leves tendem a precisar de doses mais frequentes de água, do que os solos mais pesados e argilosos.

Dicas para manter as plantas regadas durante as férias

Se não tiver qualquer sistema de rega e as férias forem curtas (até uma semana, sensivelmente) uma rega generosa antes de partir, permitirá que as plantas se mantenham saudáveis e hidratadas até ao seu regresso.

Para plantas em vaso ou em floreiras, mergulhá-las em água, durante alguns segundos, pode ser benéfico, já que garantirá uma distribuição homogénea de água no solo e simultaneamente ajudará a que todas as raízes tenham acesso a água.

O uso de pratos no fundo dos vasos também é fundamental para garantir uma disponibilidade de água maior durante a sua ausência. Depois de bem regadas as plantas, encha-os com água.

Se as plantas estiverem no interior, tenha o cuidado de as manter afastadas de janelas ensolaradas e de locais demasiado quentes. O mesmo poderá fazer para as plantas ao ar livre, que estejam em vaso ou em floreiras.

Foto: Joana Bourgard

A escolha de locais frescos, com alguma luminosidade, mas sem sol direto, favorecerá as plantas, já que as necessidades hídricas serão menores.

Outras dicas

Existem outras dicas e técnicas caseiras, simples e baratas, que assegurarão a hidratação adequada das suas plantas enquanto estiver ausente:

– Se tiver muitas plantas, pode optar por deixá-las todas juntas, tendo o cuidado de as agrupar por tipo e por tamanhos, de forma que se possam “ajudar” umas às outras, através da humidade e do calor umas das outras. É fundamental que as plantas mais pequenas não fiquem “escondidas” atrás das mais altas, para que recebam luz.

– Outra técnica passa por usar uma garrafa, preferencialmente de vidro e com um gargalo comprido. Encha a garrafa com água, vire-a de cabeça para baixo e enterre-a até tapar totalmente o gargalo, para que a garrafa permaneça no lugar. Esta técnica permitirá que a água seja libertada lentamente, em função da secura do solo.

– As cordas e os fios de algodão também podem ser usados para criar um sistema de rega caseiro. O algodão é um material absorvente que irá facilmente transferir água para as plantas. Para isso, precisa de enterrar, nos vasos das plantas a regar, alguns centímetros de corda ou fio de algodão e colocar a outra extremidade num recipiente cheio de água. É importante certificar-se de que fio fique a tocar no fundo do recipiente, para que nunca fique sem água, e que o recipiente fique a uma cota ligeiramente acima dos vasos que pretende regar, para que a gravidade ajude no processo.

– O uso de coberturas do solo, nomeadamente a casca de pinheiro, o musgo, a fibra de coco, a palha, o mulching e até mesmo as pedras decorativas, ajudam a conservar a humidade e a frescura do solo. A cobertura em torno das raízes das plantas é suficiente para ajudar a conservar a frescura do solo.

– Também pode optar por colocar os vasos dentro de um recipiente de grandes dimensões, cujo fundo esteja revestido de pedras e com alguns centímetros de água, até cobrir as pedras. As pedras permanecerão húmidas, depois da água ser totalmente absorvida, e ajudarão a criar uma atmosfera mais fresca.

Foto: Joana Bourgard

A banheira ou o lavatório podem ser boas alternativas, no entanto, é importante ressalvar que esta técnica é adequada apenas para as plantas que exigem muita água. Também é necessário ter em atenção a luminosidade já que, em muitas casas, a casa-de-banho é a divisão com menos luz e menos arejada, logo, mais quente.

Se o período de férias for muito longo, pode instalar um sistema de rega automático. Os sistemas de rega gota-a-gota são uma excelente solução, já que fornecem água na medida certa, além de ser uma solução que permitirá regar as plantas enquanto estiver de férias ou mesmo quando estiver em casa.

Teste qualquer uma destas soluções umas semanas antes das suas férias para verificar qual a alternativa que melhor se adequa à sua situação em particular. 

Depois disso, pode ir de férias sem preocupações e aproveitar ao máximo sabendo que as suas plantas têm a água que precisam.

Carine Azevedo

Plataforma Água Sustentável pede mais microrewilding urbano e reflorestação e menos barragens e transvases

 O problema da falta de água do país poderá ser resolvido com 14 medidas, entre elas o microrewilding urbano – fileiras de jardins e vegetação em telhados e paredes – e a reflorestação com espécies autóctones, avançou hoje a Plataforma Água Sustentável. As ONGA criticam barragens, transvases e a dessalinização.

Telhado verde. Foto: wasi1370/Pixabay

A escassez hídrica no país, em especial no Algarve, tem estado no centro das preocupações da Plataforma Água Sustentável, iniciativa criada em Novembro de 2020 e que reúne 14 organizações não governamentais.

No final de Abril, “verificou-se um aumento significativo da área em seca meteorológica, que já abrange quase todo o território, assim como da sua intensidade”, segundo o Índice PDSI (Palmer Drought Severity Index). Este índice tem em conta a precipitação, temperatura do ar e capacidade de água disponível no solo e permite detectar a ocorrência de períodos de seca classificando-os em termos de intensidade (fraca, moderada, severa e extrema).

Assim, no final de Abril Portugal tinha 33,2% do território em seca moderada, 22% em seca fraca, 19,9% em seca severa e 14,1% em seca extrema. Apenas 10,8% do território tinha situação considerada normal. Os distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro são os mais afectados pela seca severa a extrema.

Para enfrentar o problema, a Plataforma acredita que o país não precisa de unidades dessalinizadoras, de barragens ou de transvases, propostas oficiais.

“O Estado (…) tem sugerido a construção de novas barragens e a solução ‘Captação de Água no Guadiana”, lembra a plataforma. Mas estas medidas “têm fortes impactos, entre eles a diminuição do caudal dos rios, com impactos no local de captação e nos ecossistemas a jusante”. Recorda também que “o aumento da temperatura/evaporação e diminuição da pluviosidade tornará o volume de água a armazenar cada vez menor”.

Além disso, a plataforma discorda o estudo “Regadio 2030” que propôs “que se alargue a área de regadio no Algarve e Alentejo”. “Como se explica este alargamento perante a escassez de água? Qual é a estratégia a curto, médio e longo prazo?”.

Antes precisa de medidas que dêem “resposta à escassez hídrica” e que nos ajudem a “caminhar no sentido da sustentabilidade dos nossos recursos hídricos”, defende em comunicado enviado hoje à Wilder.

Entre as propostas que considera “cruciais “prioritárias e estruturantes” estão a conservação do solo – para optimizar a retenção da água da chuva -; a reflorestação com espécies autóctones, diversificadas e resilientes; o restauro de linhas de água; a captação e armazenamento de águas pluviais nos edifícios e a reutilização de águas cinzentas.

As suas propostas incluem também a substituição dos relvados nas cidades por prados de sequeiro, a plantação de árvores ou arbustos da flora local, menos exigentes em água, e a promoção do microrewilding urbano. Ou seja, “pensar cada superfície como potencial hospedeiro de vegetação e formar corredores de habitat (colocar vegetação nos telhados, em paredes, fileiras de jardins)”.

A utilização de águas residuais tratadas em campos de golfe ou rega de espaços verdes; a reabilitação das redes coletoras de águas residuais urbanas e pluviais para evitar perdas; o licenciamento e fiscalização de captações de água subterrâneas e superficiais; e a adequação das culturas agrícolas à água disponível (regulamentando a proliferação de monoculturas) são outras das propostas desta Plataforma.

“A resolução da situação actual não é simples, pois serão necessárias medidas de curto prazo de cariz urgente e medidas de longo prazo mas não será encontrada com grandes obras de construção civil que aumentam a pegada ecológica agravando, consequentemente, o consumo de água, a desflorestação e a poluição do mar o que, por sua vez, desequilibra ainda mais o clima”, conclui a Plataforma.

Helena Geraldes