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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 15 de junho de 2019

“Angueira Atalaia”: Breve Retrato… Grandes Desafios

Por: António Preto Torrão
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Os vestígios dos castros existentes nos montes da “Quecolha” e do “Gago”, sítios do termo de Angueira, evidenciam que o povoamento do seu território antecedeu a dominação romana, que esteve na origem da povoação. Segundo o saudoso Amadeu Ferreira, o topónimo An­gueira remontará aos séculos VI ou VII. Para além de salientar a antiguidade da “capielha de San Miguel”, o insigne mirandês assinala a existência de vários documentos escritos – um dos quais do século XII refere a pertença a Dom Telo Fernandes –, quatro moinhos de água e a doa­ção de terras de Angueira ao mosteiro de Moreyrola, atualmente da Província de Zamora, em Espanha.

Mais recentemente, de 1864, ano em que contava 396 almas, até à atualidade, Angueira foi sofrendo oscilações da sua população: de sentido crescente até 1950, ano em que contava 668 habi­tantes; decrescente, a partir de 1960, mas mais acentuada a partir de 1970. Atualmente, a po­pulação que, permanentemente, reside em Angueira está reduzida a cerca de 80 habitan­tes.

A diminuição da população é consequência da “diáspora”, que, até meados do século passado, foi sobretudo para o Brasil e, a partir dos anos 60, para França. A partir dos anos 70, a saída de jovens para estudar e trabalhar nas cidades e no litoral e a redução da natalidade, que deixou de compensar a saída de migrantes, agravaram ainda mais os, já de si, tão graves efeitos de tal debandada.

Já no século XXI, se a redução da população residente atingiu níveis que ameaçam comprome­ter a própria sobrevivência de Angueira, mais preocupante é ainda a idade dos residentes. Fal­tam, hoje, crianças e jovens que a possam revitalizar e garantir, assim, a sua continuidade.

São vários os problemas que Angueira, uma povoação milenar a que nos prendem os laços familiares, atualmente, defronta. É uma dor de alma assistir ao encerramento da escola, ver dezenas de casas desabitadas, hortas e terras sem cultivo, moinhos em ruína, açudes e “calen­dras” ao abandono. Mas, o que ainda mais dói é vermos tantos familiares, amigos e conheci­dos que nos foram deixando para sempre. Para além de traduzirem o despovoamento e a conse­quente paralisação da atividade económica, tais sinais ilustram também o desacerto das políticas nacional e local: o abandono a que, fazendo jus ao velho aforismo – “Lisboa é a capi­tal e o resto é província!” –, as localida­des do Interior têm sido deixadas.


Apesar de tudo, constata-se que, nunca como atualmente, An­gueira e o concelho de Vimioso dispu­se­ram de condições tão confor­táveis para alber­gar os residen­tes e aco­lher os natu­rais, que se viram força­dos a deixá-la, e os seus descenden­tes, bem ainda os amigos e visitan­tes. Fo­ram e continuam a ser recupe­radas vá­rias casas de habita­ção, boa parte das quais recor­rendo à utiliza­ção de materiais tradicio­nais. Um bom pre­núncio, sem dú­vida. Mas, sendo ainda pouco, é preciso e importa, pois, fazer mais.

Se ficarmos indiferentes, impassíveis ou à espera, Angueira e as mais localida­des do concelho de Vimioso correm o risco de perder a sua identi­dade e, pior que isso, de defi­nhar irre­mediavel­mente. Está nas nossas mãos ajudar a evitá-lo. Revitalizá-las é, pois, o grande desafio que, atualmente, se coloca aos naturais, residentes ou não, e aos seus des­cendentes, espalha­dos por Portu­gal e pelo Mundo, bem ainda aos seus ami­gos. Estou crente de que, irmana­dos neste ideal e aproveitando o que de bom tam­bém nos trouxe a cha­mada aldeia global, cada um e o con­junto dos membros do grupo An­gueira Atalaia, inte­grante do grupo maior A Ata­laia, va­mos dar o melhor de nós, o que poderá ser um inestimá­vel con­tri­buto para afastar tais amea­ças. Da con­fluên­cia de esforços, do estreita­mento de laços e do diálogo entre os mem­bros do grupo de cada uma e das várias localidades que o integram, potenciando siner­gias, para além de servir de ponte, num longo abraço e na recriação ou no estreitamento de laços, entre os naturais e os descendente de outros naturais que, em resultado da “diáspora”, há mais ou menos tempo, se encontram espalhados pelo mundo, há de resul­tar também – pelo menos, esperamos que resulte – a revitalização e o engrandeci­mento das localida­des e do concelho de Vimioso. Contribuiremos, assim, para os conhecer e tornar melho­res e mais apetecíveis para trabalhar, visitar e (con)viver.

Angueira e o concelho de Vimioso precisam e merecem. Vamos a isso!

Um abraço a todos.

Notas:

1) A primeira casa, que era do “tiu Joan Fresco” ou “Joan Ratico”, foi recuperada por Vítor Brancal. A foto foi, gentilmente, cedida por Fátima Malheiro, a quem agradeço a simpatia.

2) A segunda casa, que era do “tiu Ferreiro”, foi recuperada por Emílio Torrão, que, gentil­mente cedeu também a foto. Agradeço-lhe também tal simpatia.

3) Felizmente, há ainda mais casas já recuperadas e outras em recuperação. Porém, não disponho de fotos das mesmas que me permitam reproduzi-las aqui.


António Preto Torrão. Licenciado em Filosofia (Universidade do Porto)
DESE em Administração Escolar (ESE do Porto)
Mestre em Educação – Filosofia da Educação (Universidade do Minho)
Pós-graduado em Inspeção da Educação (Universidade de Aveiro)
Professor e Presidente Conselho Diretivo/Executivo
Orientador de Projetos do DESE em Administração Escolar (ESE do Porto)
Autor de livros e artigos sobre Administração Educativa
Formador Pessoal Docente e Diretores de AE/Escolas
Inspetor e Diretor de Serviços na Delegação Regional/Área Territorial do Norte da IGE/IGEC

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