É verdade que hoje somos todos caretos. Mas para que isso se tornasse possível, foi necessário muito trabalho, motivado por uma paixão inigualável pelos populares daquela pequena aldeia.
Lembro, como macedense, que nem sempre o termo ‘careto’ teve uma conotação positiva. Era utilizado, talvez até, como um termo rude e pejorativo. Com o passar dos anos, não só esta conotação se alterou, como, agora, queremos ser todos caretos. E assumimo-lo com orgulho e referimos isso, se for preciso, bem alto!
Convém não esquecer que Podence era uma aldeia como tantas outras do interior do país e do concelho de Macedo de Cavaleiros, com poucos habitantes, envelhecida e que se enchia de alegria apenas no verão, quando chegavam os emigrantes. No entanto, graças ao amor incondicional da gente de Podence pela aldeia, por aqueles que adornavam os trajes e faziam as máscaras, por toda uma cultura que lhes era divina e superior – à qual estavam em dívida, como estamos todos – Podence é hoje o ex-libris de Macedo de Cavaleiros e do Nordeste Transmontano. Quando se entra na aldeia, mesmo fora da época de Carnaval, somos imediatamente imbuídos para um sentimento cultural nunca antes visto. Podence ganhou vida nos últimos anos, com o reconhecimento do seu carnaval, que é o mais genuíno de Portugal. As ruas da aldeia são arte. Pinturas e desenhos alusivos aos caretos preenchem as principais artérias da aldeia, dão vida àqueles palheiros, que outrora serviram o seu povo, mas que hoje servem uma nação quando no Entrudo Chocalheiro dão a conhecer aos portugueses o melhor que há em Trás-os-Montes.
Hoje todos somos caretos, ao mesmo tempo que, hoje, também temos que ser transmontanos e macedenses e não esquecer as tradições e os costumes que identificam as nossas aldeias e as nossas gentes. Tal como Podence, também as outras aldeias e localidades do mundo rural podem explorar os seus recursos, potenciar as suas tradições e dar a conhecer ao mundo a sua identidade. Tomamos Podence como exemplo para que possamos promover a vida rural, a nossa identidade e os nossos valores culturais e sociais.
João Pedro Baptista


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