Era um sábado.
25 de janeiro de 1975.
Fui logo de manhãzinha ver-te ao hospital. Perguntei-te se estavas bem, se podia ir fazer o jogo de futebol que estava marcado contra a equipa de Vinhais, para animar as festas da vila.
Olhaste para mim e disseste que sim… vai, filho.
Dei-te um beijo. Um último beijo, sem o saber.
E lá fui, com o resto da rapaziada, rumo a Vinhais.
Já no balneário, enquanto me equipava, entra o Raul.
O Raul Azeiteiro, assim lhe chamavam, porque além de mil e uma coisas, também vendia azeite. O Raul era grande amigo do meu Pai.
Ele não precisou de dizer uma única palavra.
A simples presença dele ali… atordoava.
Olhei-o nos olhos e perguntei apenas:
- O meu Pai morreu, não foi?
Sim. Tinha sido.
De outra forma, a presença do Raul ali, em Vinhais, não faria sentido.
Vamos…
Despi a parte do equipamento que já tinha vestido. A cabeça recusava-se a aceitar o que o coração já sabia. Da equipa, só me lembro do Germano, que me tinha feito o convite para o jogo. Não vi mais ninguém. Não me lembro de mais ninguém.
Entrei no velho Citroen branco do Raul, com a sua Mariazinha ao lado, e seguimos caminho para Bragança.
Foi tudo rápido demais…
Rápido demais para ter sido justo.
Ficou tanto por dizer. Tanta coisa por viver. Tantas palavras presas no tempo.
Um beijo, Pai.
Já tarda o dia de ir ter contigo.
Os 51 anos passaram a voar.
Tenho tantas coisas para te contar.
Tantas…
Tenho saudades tuas.

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