In illo tempore, ou seja, em pleno verão duplamente quente de 1975 e estando eu em Bragança há já uns meses e perfeitamente adaptado, questionei a minha entourage sobre o que se fazia nas férias. A resposta foi pronta, unânime e definitiva: trabalhar. Como assim, perguntei eu. Considerando a escassez crónica de dinheiro, torna-se necessário este expediente para se arranjar recursos para tabaco, cerveja, roupa, cinema, discos, etc., durante algum tempo. Mas trabalhar em quê se não aprendi a fazer nada. O que me foi dito: obras, estrada, vindimas e lúpulo. Lúpulo, o que é isso? É uma planta que serve para fazer cerveja. Boa. Vamos a isso. E realmente foi na apanha do lúpulo que conseguimos arranjar trabalho.
Organizamos uma equipa de quatro elementos (eu, o Tozé Lopes e os irmãos Pêra, Zé e Nuno). Note-se que a plantação e o restante equipamento de secagem da empresa agrícola que nos contratou, situavam-se no sítio do Cavalhão, algures entre Pinela e Paredes. Em face disso, resolvemos acampar no local, montando duas tendas junto às citadas instalações.
No dia aprazado para o início dos trabalhos, embora não me recordando de que forma nos deslocámos, apresentámo-nos para o efeito, devidamente ataviados, como se diz na gíria. Só que no meu caso, pelo menos, esse ataviamento não era o mais adequado. Desconhecendo completamente o modo e a forma de recolher as plantas de lúpulo, desconhecendo inclusivamente o aspeto da própria planta, eis que me apresento ao trabalho, juntamente com o resto dos diversos trabalhadores. Já não me lembro porquê, fui parar ao reboque de um trator, sem mais nenhum elemento da minha equipa. Não tenho ideia se eles foram para outro trator ou se foram alocados a outro tipo de tarefas, como os secadores, por exemplo. O certo é que me encontrei no reboque de um trator, acompanhado de mais meia dúzia de rapazes e raparigas, provavelmente daquela zona ou, simplesmente, conhecidos. O meu equipamento de trabalho, para que conste, consistia numas calças velhas e uma camisola sem mangas, tipo camisola de basquete. Aspeto de menino estiloso, oriundo da cidade.
Episódio n.º 1: Ainda antes de arrancarmos, dei conta de olhares travessos e risinhos abafados, daquele tipo que deixam um tipo meio envergonhado e, naturalmente, com alguma insegurança, questionando-me qual seria a razão daquele ambiente adverso ou jocoso. Algo constrangido, lá seguimos para os campos de corte e recolha do dito lúpulo. Verifiquei, com surpresa, que se tratava de uma planta tipo trepadeira, com uma altura de cinco ou seis metros e suspensa em arames aos quais se prendiam fios individuais para cada uma das plantas. A nossa função era recolher as plantas compridas que iam caindo no reboque e que um outro trabalhador ia cortando. Verifiquei também, quiçá demasiado tardiamente, que as plantas eram bastante agressivas na queda, não sei se pela sua própria biologia, se por causa de caldas fitossanitárias que, eventualmente, lhes aplicassem e provocavam vergões enormes quando em contacto com a pele humana. O ardor era de tal forma dilacerante, que só apetecia arrancar a pele.
Ora estão a ver este meu primeiro dia de trabalho, com a famigerada camisola de basquete azul. Fiquei como um cristo. E os meus ilustres companheiros de trabalho, em vez de me alertarem para o que se iria seguir e para a vestimenta mais adequada, optaram por rir à socapa e gozar com o triste resultado.
Felizmente, no dia seguinte, um dos operadores da dupla de secagem ficou sem o parceiro e convidou-me para a vaga surgida, tendo eu aceitado, sem qualquer relutância. Daqui até ao fim o trabalho decorreu sem qualquer ocorrência digna de registo, exceto um episódio extraordinário que teve lugar fora da envolvência laboral, mas em completa consequência do mesmo.
Seguindo a narrativa e atendendo à nossa condição de “campistas”, era necessário que alguém se deslocasse a Bragança, não me lembro com que regularidade, para aquisição de provisões. Resolvemos que, de acordo com a disponibilidade dos horários, seriam duas pessoas a assegurar esse serviço, essencial para aguentarmos os dias de árduo trabalho. Para enquadrar a história que se segue, direi que nesse dia, fomos escalados eu e o Tozé Lopes. A missão: trazer comes e bebes.
De manhã viemos na carrinha da casa, que se deslocava diariamente para trazer o lúpulo já seco para a Lupulex. Cada um foi para sua casa tratar dos respetivos assuntos, após o que adquirimos os referidos víveres e nos preparamos para regressar. E regressar como? À boleia, evidentemente. À boleia, hichhiking, a forma “suprema” de deslocação, onde se misturava o desconhecido, a sensação de liberdade, o implícito risco calculado, um caldinho que o nosso amigo António Pires tão bem retratou na sua bela crónica publicada recentemente.
Por volta das 17/18 horas eis-nos a caminho da Flor da Ponte, carregados de sacos, para aí tentarmos apanhar uma boleia que nos levasse até Paredes ou Pinela. Estivemos algum tempo de braços esticados, sem sucesso, até que vimos aparecer no findar da ponte um maravilhoso Austin 1300.
Episódio n.º 2: Nós estávamos estrategicamente situados junto à entrada do Parque Florestal e, nessa altura, pusemo-nos em posição de ataque, simplesmente a efetuar o gesto típico da boleia e já com pouca convicção. Mas o carro parou ao pé destas duas almas, perguntaram-nos para onde íamos e, perante a nossa resposta, mandaram-nos entrar.
No dito automóvel iam duas pessoas, do género masculino, o condutor e um acompanhante. Depois de uma pequena conversa da treta, verificamos uns gestos e umas palavras em surdina que, na minha perspetiva, me deixaram alguma inquietação. E, se calhar, tinha razão para estar inquieto.
Passados poucos metros da Florestal e no seguimento da tal atitude mais ou menos suspeita por parte dos ocupantes do carro, o condutor começa a carregar no acelerador, mais e mais. Eu o Tozé lá íamos trocando uns olhares de receio, ou “cagufa” mesmo, provavelmente a pensar com quem nos tínhamos metido. O rally continuou em alta velocidade e então quando começámos as curvas do Penacal, aí é que a coisa começou a ter contornos de desespero. Nós bem nos agarrávamos às portas, mas a coragem já era pouca. Curva e contra-curva, travagens e chiadeira, tombo para um lado, tombo para o outro, fomo-nos aproximando rapidamente (só podia!) da ponte. Eis senão quando, numa deriva de cortar a respiração, o condutor vira bruscamente para a faixa contrária e parando a derrapar num espaço em terra existente fora da estrada. Ora nós, se já estávamos à rasca, ficamos quase em colapso nos segundos subsequentes, alcançando o clímax dramático da epopeia. Não sei mesmo se não molhámos as calças. Os ditos cujos pararam o carro de supetão, abriram os dois as portas ao mesmo tempo, saem para fora num ápice, sacam de uma caçadeira e à frente do carro mandam uns tiros para o ar. Estão a imaginar dois miúdos, colados aos bancos, brancos como a cal e mudos de nascença. Que tragédia.
E então, mistério resolvido, mas a custo. Os fulanos, tranquilamente, perguntam-nos se não queríamos sair. Eu acho que nem conseguimos responder, tão abalados estávamos. Os senhores insistiram e explicaram que tinham adquirido uma arma nova e que aproveitaram aquele espaço para a experimentarem. E nós a pensarmos que eles tinham estado a gozar com a nossa cara, que na verdade tinham combinado todo aquele teatro para nos pregarem um susto tremendo. Como não ficamos a saber quem era a dupla e eles tiveram a gentileza de nos transportarem até Paredes, fizemos o resto do caminho a pé, com uma vontade enorme de chegarmos para contarmos esta inusitada aventura.
Moral da história: De tropeções se faz uma vida. Experimentem ouvir a música “The cars hiss by my window”, dos Doors, enquanto se divertem a ler esta estrambólica crónica.
Janeiro 2026

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