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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MUDAM-SE OS TEMPOS; MUDAM-SE OS CONCEITOS

Por: Humberto Pinho da Silva 
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 No mês de dezembro, mês húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar num centro comercial.

Após suculento repasto, juntamente com minha mulher, percorri pausadamente vários estabelecimentos, e estaquei, por fim, numa livraria – das poucas que conseguiram sobreviver à falência da leitura.

Estava eu a ver as novidades livreiras, quando acidentalmente, escutei diálogo travado entre senhora, e jovem de pouco mais de doze anos, logo presumi que era sua filha.

- Preciso de comprar os "Maias" – disse a menina. O professor de português recomendou a leitura desse livro, que é próprio para a nossa idade.

Inclinando pudicamente os olhos, a mãe murmurou, quase segredando:

-Já o li. Parece incrível que menina da tua idade o leia. Como é possível, que professor diga – que esse livro é próprio para a tua idade!...

Tagarelando afetuosamente, encaminharam-se para a saída de mãos enlaçadas. A menina saltitava de contentamento, levando na mão o grosso volume.

O diálogo entre mãe e filha, fez-me lembrar o que Dona Emília Cabral, me contou, quase à puridade: a cena ocorrida entre a Marquesa do Ficalho e a nora, Dona Maria das Dores, neta (como ela,) de Eça de Queiroz.

Certa ocasião a Marquesa encontrou-a enterrada no macio sofá da biblioteca, lendo, sofregamente, livro do avô. Qual? Já não me recordo:

- “Menina! - Bradou irada a respeitada fidalga. Esse livro não é indicado para jovens da sua idade!...”

Devo revelar o leitor, se ainda não conhece, que o escritor não queria que os filhos, principalmente a Maria, lessem as suas obras.

A filha querida do grande estilista, só conheceu as obras do pai, em Portugal, em Tornes, com avançada idade!

Tive oportunidade de conhecer as netas do genial escritor, que me revelaram os escrúpulos de Dona Emília de Castro Pamplona (Resende), sentia quando tinha que abordar livros do marido.

No tempo do Eça, mesmo décadas depois da morte, a 16 de agosto de 1900, as meninas, mormente senhoras, consideradas da boa sociedade, eram bastante recatadas; e se o aguilhão da curiosidade as acicatasse a lerem livros do Eça, faziam no decoro do quarto. E nunca revelavam que as conheciam, porque o pejo não lhas permitia.

Agora, em plena liberdade, na decadência da civilização, as nossas donzelas: leem, conversam e debatem, temas mais apimentados, que as cenas escabrosas, descritas pelo romancista.

Não admira, portanto, que os professores as recomendem, até as incentivem, essas, e outras, moralmente mais reprováveis.

Não estamos no século XXI, onde tudo deve ser lido, provado e incentivado?

Não estamos num " Mundo em Chamas", interessante obra de Billy Graham ?


Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

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