(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Quando pretendemos compreender a História de um lugar, particularmente a que se refere ao seu povoamento, não devemos resumir-nos aos documentos escritos que nos foram legados. Assim fosse, Cércio apenas teria nascido há cerca de 770 anos, quando surge documentada, pela primeira vez, sob a forma «Cerceo». O que não corresponde, inteiramente, à verdade… Isso nos assevera o recurso às disciplinas ou ciências auxiliares da História, como o podem ser a Arqueologia, a Hagiografia ou a Toponímia.
Na área territorial de Cércio, ou na sua abrangência, está atestada a permanência dos nossos antepassados desde há milhares de anos, cujo expoente máximo será o «Abrigo Rupestre da Solhapa» (à custa dele é que fui conhecer a região de Duas Igrejas...). Havendo, ainda, a Urreta da Malhada ou, nas próprias imediações de Cércio, os vestígios de um povoado fortificado, designado por «Casa do Quinteiro» (ou Castro de Cércio). Ou, como ontem aqui trouxe, o testemunho de um habitat de época Romana, no local onde se implanta a Capela de Santa Marinha. Significando isto que a área onde se ergue a povoação há muito é apelativa para populações humanas, atravessando as diversas épocas históricas.
O facto de Cércio ter como padroeira Santa Leocádia também é significativo quanto à sua antiguidade enquanto paróquia. Por motivos que seria fastidioso estar aqui a explanar, Cércio poderá anteceder, em alguns séculos, a sua primeira referência documental, em meados do século XIII, tendo sido fundada como tal num período sempre posterior ao século IX, época no qual foi erguido, no norte peninsular, o primeiro templo em sua honra. Se lhe juntarmos o culto a Santa Marinha, também ele ocorrido pela mesma época e, tal como Santa Leocádia, proveniente do actual território espanhol, fica a saber-se que Cércio será (mesmo) muito antiga.
Assim como o poderá confirmar a compreensão do seu «estranho» nome. Porquê Cércio? O que significará, de facto, a expressão «Cércio»? O primeiro de que tenho conhecimento a tentar justificar o nome, foi Leite de Vasconcellos, o ilustre estudioso que a estas bandas veio, em finais do século XIX, para perceber, por indicações do «nosso» Trindade Coelho, que «língua esquisita» aqui se falava (daí nasceria a expressão «Dialecto Mirandês»…). Deixou-nos preciosas indicações, uma das quais que, nessa época, os habitantes de Cércio a designavam como «Cercéno», na sua linguagem «mirandesa». Assim mesmo, mantendo o tão característico [n] intervocálico. Estranho sendo que, na actualidade, não surja essa versão alternativa para Cércio, tal como acontece com «Dues Eigreijas» ou «Bal de Mira». Adiante…
A partir dessa variação «Cercéno», Leite de Vasconcellos justificaria o nome através da designação de uma espécie de uma árvore autóctone, o carvalho. Mais tarde, o insigne Abade de Baçal, por se ter deparado, num «manual de arboricultura», com o nome científico de uma outra árvore semelhante a Cércio, levantou a hipótese de a povoação dever o seu nome a essa dita árvore (ou arbusto). Porém, tanto um autor como o outro, com os meios que tinham à disposição, desconheceriam que havia outras povoações com o mesmo nome, ou com designações daí derivadas. Como são bons exemplos Cercio e Cercias, ambas na Galiza. Ou outras, com designações da mesma família, em França, na Itália e na mais longínqua… Arménia!
E, veja-se lá, já no século II a.C. a palavra «cercio» vem mencionada nas obras de um conhecido escritor Romano! «E esta, hein?», como diria um conhecido apresentador. E, veja-se lá, de novo, a palavra «cércio» até existe em Galego! Palavra que também existe em Castelhano, sob a forma «cierzo»! Palavras que provêm das palavras latinas «cercius» ou «circius», por sua vez originárias no Grego κίρκιος (kírkios), a partir de Κιρκαῖον (Kirkaîon). Nome este que daria origem a uma antiga cidade Romana, onde hoje se ergue a emblemática San Felice Circeo.
Palavra que também existe em Francês, sob a forma «sers», e que até dá nome a duas cidades… O significado de «cércio», «cierzo» ou «sers», deixo ao cuidado dos leitores mais atentos… Porque poderá, perfeitamente, ser essa a origem do topónimo «Cércio». Podendo, no entanto, haver outra, com a qual até tendo a concordar mais…
Porque «cercio» também surge, com outro significado, em inúmeros cartulários de mosteiros, particularmente franceses, a partir dos séculos IX/X. E o que chama, particularmente, a atenção, é que abunda num dos que mais influenciou a nossa região, a partir da regra que foi seguida pelo nosso Mosteiro de Castro de Avelãs, que tanta influência teve na escrita e na fala desta região. Coincidentemente, até serve como justificação para a existência de uma outra cidade italiana, Cerchio… Deixo ao critério dos leitores a escolha da melhor opção…
A finalizar, neste deambular pelos encantos que Cércio guarda, descobri que também há, por lá, um «Balouço de Santo Andrés», que desconhecia. E que, suponho, deverá ficar perto da Capela de Santo André, à qual também designam como «eremitério». Havendo, igualmente, um zimbro emblemático, que também não conhecia. Não se pode conhecer tudo, não é verdade?...
(Foto: Município de Miranda do Douro)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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