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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

E ainda Cércio, uma terra com nome invulgar… e outras curiosidades

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Quando pretendemos compreender a História de um lugar, particularmente a que se refere ao seu povoamento, não devemos resumir-nos aos documentos escritos que nos foram legados. Assim fosse, Cércio apenas teria nascido há cerca de 770 anos, quando surge documentada, pela primeira vez, sob a forma «Cerceo». O que não corresponde, inteiramente, à verdade… Isso nos assevera o recurso às disciplinas ou ciências auxiliares da História, como o podem ser a Arqueologia, a Hagiografia ou a Toponímia. 

Na área territorial de Cércio, ou na sua abrangência, está atestada a permanência dos nossos antepassados desde há milhares de anos, cujo expoente máximo será o «Abrigo Rupestre da Solhapa» (à custa dele é que fui conhecer a região de Duas Igrejas...). Havendo, ainda, a Urreta da Malhada ou, nas próprias imediações de Cércio, os vestígios de um povoado fortificado, designado por «Casa do Quinteiro» (ou Castro de Cércio). Ou, como ontem aqui trouxe, o testemunho de um habitat de época Romana, no local onde se implanta a Capela de Santa Marinha. Significando isto que a área onde se ergue a povoação há muito é apelativa para populações humanas, atravessando as diversas épocas históricas. 

O facto de Cércio ter como padroeira Santa Leocádia também é significativo quanto à sua antiguidade enquanto paróquia. Por motivos que seria fastidioso estar aqui a explanar, Cércio poderá anteceder, em alguns séculos, a sua primeira referência documental, em meados do século XIII, tendo sido fundada como tal num período sempre posterior ao século IX, época no qual foi erguido, no norte peninsular, o primeiro templo em sua honra. Se lhe juntarmos o culto a Santa Marinha, também ele ocorrido pela mesma época e, tal como Santa Leocádia, proveniente do actual território espanhol, fica a saber-se que Cércio será (mesmo) muito antiga. 

Assim como o poderá confirmar a compreensão do seu «estranho» nome. Porquê Cércio? O que significará, de facto, a expressão «Cércio»? O primeiro de que tenho conhecimento a tentar justificar o nome, foi Leite de Vasconcellos, o ilustre estudioso que a estas bandas veio, em finais do século XIX, para perceber, por indicações do «nosso» Trindade Coelho, que «língua esquisita» aqui se falava (daí nasceria a expressão «Dialecto Mirandês»…). Deixou-nos preciosas indicações, uma das quais que, nessa época, os habitantes de Cércio a designavam como «Cercéno», na sua linguagem «mirandesa». Assim mesmo, mantendo o tão característico [n] intervocálico. Estranho sendo que, na actualidade, não surja essa versão alternativa para Cércio, tal como acontece com «Dues Eigreijas» ou «Bal de Mira». Adiante… 

A partir dessa variação «Cercéno», Leite de Vasconcellos justificaria o nome através da designação de uma espécie de uma árvore autóctone, o carvalho. Mais tarde, o insigne Abade de Baçal, por se ter deparado, num «manual de arboricultura», com o nome científico de uma outra árvore semelhante a Cércio, levantou a hipótese de a povoação dever o seu nome a essa dita árvore (ou arbusto). Porém, tanto um autor como o outro, com os meios que tinham à disposição, desconheceriam que havia outras povoações com o mesmo nome, ou com designações daí derivadas. Como são bons exemplos Cercio e Cercias, ambas na Galiza. Ou outras, com designações da mesma família, em França, na Itália e na mais longínqua… Arménia! 

E, veja-se lá, já no século II a.C. a palavra «cercio» vem mencionada nas obras de um conhecido escritor Romano! «E esta, hein?», como diria um conhecido apresentador. E, veja-se lá, de novo, a palavra «cércio» até existe em Galego! Palavra que também existe em Castelhano, sob a forma «cierzo»! Palavras que provêm das palavras latinas «cercius» ou «circius», por sua vez originárias no Grego κίρκιος (kírkios), a partir de Κιρκαῖον (Kirkaîon). Nome este que daria origem a uma antiga cidade Romana, onde hoje se ergue a emblemática San Felice Circeo. 

Palavra que também existe em Francês, sob a forma «sers», e que até dá nome a duas cidades… O significado de «cércio», «cierzo» ou «sers», deixo ao cuidado dos leitores mais atentos… Porque poderá, perfeitamente, ser essa a origem do topónimo «Cércio». Podendo, no entanto, haver outra, com a qual até tendo a concordar mais…

Porque «cercio» também surge, com outro significado, em inúmeros cartulários de mosteiros, particularmente franceses, a partir dos séculos IX/X. E o que chama, particularmente, a atenção, é que abunda num dos que mais influenciou a nossa região, a partir da regra que foi seguida pelo nosso Mosteiro de Castro de Avelãs, que tanta influência teve na escrita e na fala desta região. Coincidentemente, até serve como justificação para a existência de uma outra cidade italiana, Cerchio… Deixo ao critério dos leitores a escolha da melhor opção…

A finalizar, neste deambular pelos encantos que Cércio guarda, descobri que também há, por lá, um «Balouço de Santo Andrés», que desconhecia. E que, suponho, deverá ficar perto da Capela de Santo André, à qual também designam como «eremitério». Havendo, igualmente, um zimbro emblemático, que também não conhecia. Não se pode conhecer tudo, não é verdade?... 

(Foto: Município de Miranda do Douro)


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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