(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Quando se aborda Miranda, é comum pensar-se, desde logo, em Pauliteiros. Curiosamente, quando comecei esta cruzada de procurar entender a distinção das «minhas» terras, os primeiros Pauliteiros com que me deparei, em históricos âmbitos, foram os de... Cércio! Mas não vim aqui por causa dos Pauliteiros, porém vindo por causa de uma terra com nome invulgar.
Hoje, uma anexa da freguesia de Duas Igrejas, Dues Eigreijas em genuinidade, tempos outros foi freguesia, até há cerca de 180 anos, e até tinha a actual sede de freguesia de si dependente, em termos eclesiásticos, que o título de Abadia possuía, como Abadia de Santa Leocádia de Cércio. E, coincidentemente, foi isso que aqui, efectivamente, me trouxe. Porque, às voltas com o impacto dos Hospitalários, futura Ordem de Malta, por estas bandas, me deparei com a nomeação de um novo Abade de Cércio, há precisamente 530 anos. Nomeação que dependia do chamado «direito de apresentação» que a Ordem do Hospital aí tinha, que o Abade seguinte, apenas quatro anos volvidos, até era o Capelão do «Hospital de São João de Jerusalém».
Direito esse que já vinha de muito longe, desde quando uma grande parte das medievais Terras de Miranda estavam na dependência da Comenda Hospitalária de São Sebastião de Algoso. Direito que incluía um conjunto de posses dos Hospitalários, representadas por casais agrícolas, em Cércio, através de inúmeras doações, nomeadamente dos Bragançãos. Assim seria corroborado por um acordo entre D. Dinis e o Prior da Ordem do Hospital, em finais do século XIII. E muita da vida de Cércio, até ao século XIX, dependeu da ligação à Comenda de Algoso e do facto de ser uma Abadia, com uns rendimentos consideráveis, cujo Abade era de nomeação do... Comendador de Algoso.
Talvez por isso, num sítio fabuloso, ali a bordejar as arribas do Douro, permaneçam as ruínas de uma capela que, tempos outros, era a principal devoção das gentes de Cércio. Há 250 anos ainda assim era, com direito a romaria a Santo André. Capela esta que tem, por Cércio, umas histórias lendárias associadas a... frades. Pois sim… Que Santo André, muitos o desconhecerão, até é uma devoção que tem uma ligação particular com a… Ordem do Hospital. A tal que «mandava» por Cércio. Estão a ver a ligação?… Até diz a literatura que está orientada para a cidade de Jerusalém, que nome deu à Ordem do Hospital (São João de Jerusalém). Outras capelas existindo por Cércio, que em ruínas também já estiveram, e hoje recuperadas estão. A lindíssima Capela do Divino Espírito Santo, no “Pobo”, e a peculiar Capela de Santa Marinha, à saída para a Freixiosa.
E esta última, para lá de, nos últimos 30 anos, se ter tornado o maior motivo de devoção para as gentes de Cércio, é encantadora! Não apenas pela sua configuração, mas também pelos «inexplicáveis menires» que tem na sua entrada. Diz o Povo que ali terá sido a primitiva povoação. O que terá apenas um «fundinho» de verdade… Porque, em simultâneo se trata de um sítio arqueológico, considerado como um possível habitat de época Romana. Assim o confirmam os materiais por lá recolhidos, bem como uma lápide funerária em honra de um filho ou filha de um Severo, que terá morrido com 22 anos. Lápide esta descoberta nos anos 40 do século passado, quando a capela ainda se encontrava em ruínas… Felizmente, recuperaram-na… No entanto, não deverá confundir-se o sítio com a antiga povoação correspondente à actual Cércio.
Mais não seja pela padroeira de Cércio e pelas primeira indicações documentais relativas à povoação. Padroeira, Santa Leocádia, que também serve para atestar a antiguidade da povoação, que isto dos padroeiros escolhidos para igrejas ou para capelas tem muito que se lhe diga, também é de modas, e serve-nos de indicador de cronologia relativa para uma povoação. Santa Leocádia em relação à qual, em todo o distrito, só conheço mais uma invocação, numa povoação do concelho de Bragança, na qual também é padroeira. Se juntarmos Santa Leocádia a Santa Marinha, temos a particularidade de uma povoação que venera duas santas… espanholas! O que diz muito sobre a referida antiguidade de Cércio. Mas não irei alongar-me sobre isso.
Tendo de fazer uma pausa para referir a curiosa Igreja de Santa Leocádia. Edifício que, para lá da particularidade de possuir uma fachada cega, muito comum em igrejas antigas do lado de lá da fronteira, também possui, no seu interior, a riqueza de umas magníficas pinturas murais do século XVI, muito comuns em igrejas relacionadas com a referida Ordem do Hospital. Mas isto daria pano para mangas…
Assim como o daria o próprio nome de Cércio… Que até existe noutros países… E que, suponho, poucos saberão de onde deriva. Mas isso, já cá trarei noutro dia, se interesse houver, que a escrita já vai longa. Não, sem antes, regressar à Capela de Santa Marinha. Onde terei de regressar, lá para Julho, para apreciar a inusitada «Festa dos Caracóis» (e de outros petiscos)… Até nisso Cércio é uma das tantas povoações encantadoras que este distrito possui.
Já cá voltarei, amanhã, ou «passado manhãna», para mais umas voltas pela formidável Cércio. Já alguma vez se deixou encantar pelos… encantos de Cércio?
(Foto 1: Capela de Santa Marinha – Rota da Terra Fria)
(Foto 2: Capela de Santo André – NG Portugal; Hugo Marques)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.


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