quinta-feira, 26 de maio de 2022

UMA CARTA QUE ARREPIA

"Mãe escrevo-lhe para lhe pedir perdão. Perdoe-me mãe. Perdoe-me. 
Minha querida mãe desculpe a letra, mas choro tanto que mal consigo escrever. A Isabel e os meninos estão na sala e estão bem. Não consigo deixar de pensar em si mãe, rezando todos os dias de joelhos, com toda a minha fé, pedindo a Deus que nada lhe aconteça. Ainda não sei falar alemão, mas na fábrica também não é preciso, estou na secção de cortar chapa e com gestos lá me vou desenrascando. A nossa casinha aqui é pequena, mas dá para nós os cinco. Os meninos estão agora num infantário social e a Isabel já começou a trabalhar para uns senhores que têm uma Quinta. Ela não arranjou emprego na área dela mas está nas limpezas e como fala bem inglês e os donos da Quinta também, está a dar-se bem, melhor do que eu. Minha querida mãe sei que está aí sozinha e que não tem medo, mas perceber que está sozinha e sem apoio tritura-me o coração. Queria tanto estar aí mãe, tanto! A fazer o que quer que fosse, mas a senhora sabe bem que vim por causa dos meninos. Já não aguentava ver os armários vazios e os meninos a chorar para comer. Não aguentava ver a Inês a precisar de medicamentos e a ter de pedir dinheiro aos amigos. Minha mãe desculpe, por favor! Sei que me disse para vir, mas sei também que chora dia e noite. Desculpe mãe! Esta vida é tão curta que não deveríamos estar assim tão separados, não deveria ter a coragem de a deixar sozinha, não deveria ser tão cobarde assim. Choro, choro, choro muito minha querida mãe, pois amo-a tanto e não a consigo sequer ouvir! Se ganhar dinheiro juro que lhe compro um telefone em Agosto. Ouve mal, eu sei, mas basta atender e dizer "estou". Se ouvir a sua voz irei sofrer menos um bocadinho. Mãe desculpe, amo-a tanto. As lágrimas caem-me pelo rosto, as mãos tremem-me, as pernas quase perdem a força... mas sei que compreende o meu esforço, pelas crianças. Como gostava de ter um trabalho qualquer aí perto de si, dava tudo, poderia ser um trabalho duro, mas que desse para viver. Não aguentava mais a situação de desespero minha querida mãe e por isso vim, mas não sei se vou aguentar. Imagino-a sozinha, sem mim, a pensar no pai e a rezar para partir. Mas peço-lhe mãezinha, por favor, não parta já, aguente, deixe-me ganhar algum dinheiro para ir para ao pé de si. E prometo que nunca mais a deixo, prometo. É tão linda mãe e tenho-a no meu coração, a todo o instante. Amo-a tanto mãe. Estou aqui mas nunca saí daí do seu lado mãe, sente, não sente? 
Perdoe-me!"

Foto: Rui Pires
Texto: Paulo Costa

Sem comentários:

Enviar um comentário