sábado, 28 de maio de 2022

Carrazeda de Ansiães: roteiro para descobrir o Tua a caminhar

 Em Carrazeda de Ansiães, as caminhadas pela natureza permitem conhecer paisagens dos vales dos rios Douro e Tua, património histórico e cultural, museus, gastronomia e vinhos.

Olhos do Tua, Carrazeda de Ansiães. (Fotografia de Maria João Gala/GI)

Não há nada como comer uma maçã de Carrazeda à dentada. A primeira é sempre uma explosão de sumo, como se ali estivesse à espera de ser libertado. Mas as seguintes não se ficam atrás. É maçã de altitude produzida no planalto de Ansiães, tão cheia como os bagos de uva que dão afamados vinhos ou os de azeitona com os quais se produzem reputados azeites. Há mais sumo nas terras que tiveram dos primeiros forais do território que é hoje Portugal, traduzido em património histórico, cultural e natural. E, por isso, vale a pena deter-se nelas por uns dias.

Aos poucos, a Câmara Municipal de Carrazeda tem vindo a criar uma rede de trilhos pedestres com distâncias e dificuldades para todos os gostos. Muito para atrair os amantes das caminhadas. Tanto os que são de fora e se deslocam de propósito, mas também para os locais conhecerem melhor a sua terra. O presidente, João Gonçalves, não esconde que um dos objetivos é “atrair turistas” e é o que tem acontecido, com muitas pessoas a irem “passar o fim de semana para fazerem os percursos”.

Também há quem os percorra de manhã e regresse a casa após o almoço. Foi o caso de António Saraiva que saiu de Coimbra às 3.00 horas da madrugada para chegar a tempo de fazer um trilho que começa e acaba em Vilarinho da Castanheira, no mesmo dia em que também lá estavam Maria Magalhães e Fernando Oliveira, que tinham viajado desde Esposende. Não se importam de levantar cedo e percorrer centenas de quilómetros à procura dos melhores trilhos.

O Miradouro dos Olhos do Tua, com vista para o vale e rio. (Fotografias de Maria João Gala/GI)
O miradouro fica no limite nordeste da aldeia do Castanheiro do Norte.

Já havia três no Parque Natural Regional do Vale do Tua e esta primavera estão a ser inaugurados mais cinco. Todos homologados e sinalizados para que possam ser feitos em total autonomia e segurança. Alguns têm vista para o rio Douro, nas áreas de Vilarinho da Castanheira, Pinhal do Douro, Ribalonga e Linhares. Ao percorrê-los pode demorar-se várias horas entre belas paisagens com vinhas e olivais ou matos tipicamente mediterrânicos.

Estes trilhos foram desenhados pela Portugal NTN, com sede em Mirandela. Já tem “cerca de mil quilómetros de pequenas rotas traçados nos distritos Bragança e Vila Real”, de acordo com Domingos Pires, sócio-gerente da empresa. Uma das principais caraterísticas dos cinco trilhos que agora estão a ser inaugurados em Carrazeda é que podem ser calcorreados de forma isolada, ou em conjunto, à medida da capacidade física de cada um, pois todos têm troços em comum. Digamos que “apesar de serem pequenas rotas, já que todas têm menos de 30 quilómetros de extensão, é possível ter no terreno percursos com mais que aquela distância”, salienta ainda Domingos Pires.

Ao desenhar os trilhos houve sempre o cuidado de os fazer passar junto a locais com interesse histórico, como moinhos de água ou monumentos, aldeias ou miradouros, em que pontuam o da “Fraga da Ola”, qual varanda sobre o vale do rio Douro, e os que se debruçam para o vale do rio Tua, “Olhos do Tua” e “São Lourenço”, ambos construídos em ferro e assinados por Paulo Moura. Estes dois últimos estão no parque natural cuja fortuna está, para além das vistas, na diversidade florística e faunística.

Joia da coroa

Esta oferta de Carrazeda de Ansiães é o mote para poder descobrir muitas mais riquezas deste concelho do sul do distrito de Bragança. A joia da coroa do património é a Vila Amuralhada de Ansiães, mais conhecida por Castelo, Monumento Nacional desde 1910. Uma fortificação com mais de cinco mil anos de história, que foi importante baluarte defensivo durante a Reconquista Cristã. O rei leonês Fernando Magno não ficou indiferente e atribuiu a Ansiães a primeira a carta Foral, no século XI. É uma das cinco mais antigas do território que hoje é Portugal.

A Vila Amuralhada de Ansiães. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)
Este património soma mais de cinco mil anos de história.

Até ao século XVIII ainda viveram lá pessoas. Hoje resta a ruína, em algumas partes ainda bem preservada. A Igreja de São Salvador, com um portal principal que é um exemplo puro do Românico, é a principal referência. O tímpano “Pantocrator” destaca-se pela iconografia de “Cristo em majestade”. À volta do templo há vestígios da atividade que ali foi desenvolvida em tempos, como o que se supõe serem lagares escavados na rocha para a produção de vinho, necrópoles e ruínas das antigas casas. Fora dos muros, mais sepulturas junto à Igreja de São João Batista.

Do Castelo de Ansiães a vista alcança terras de vários concelhos vizinhos e o Castelo de Numão, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Diz-se que haverá um túnel que em tempos ligou os dois passando por baixo do rio Douro. Apesar de não existirem evidências de que alguma vez tenha existido, não custa nada, olhando desde a cisterna, imaginar o trabalho que teria sido necessário para o construir. No chamado “fundo da vila” de Carrazeda foi criado o Centro Interpretativo do Castelo de Ansiães, onde é possível conhecer melhor a história do monumento, bem como, por ordem cronológica, a do próprio concelho.

Memória rural

Há quem lhe chame Castelo da Lavandeira, a aldeia mais próxima, que terá acolhido muitos dos que abandonaram a vila amuralhada procurando uma vida menos difícil. A Câmara de Carrazeda criou ali o Núcleo Museológico do Azeite que faz parte do Museu da Memória Rural. Fotografias de Leonel de Castro mostram o processo desde a colheita ao seu emprego na produção de bolos económicos, por exemplo. Há ainda um lagar tradicional de prensa com parafuso central e muitos utensílios ligados à arte. Ainda em Lavandeira, vale a pena apreciar a Igreja de Santa Eufémia, em cujo teto sobressaem 12 caixotões pintados.

O Núcleo Museológico do Azeite. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)

Outro núcleo daquele museu foi criado junto à aldeia de Luzelos. Pretende mostrar ao visitante, através de utensílios, documentos e imagens, como era produzida a telha tradicional, desde a recolha do barro, passando pela modelagem e a cozedura, até à distribuição. Painéis gráficos e documentos de vídeo que recorrem a imagens de recolha etnográfica e documentação fotográfica antiga ajudam a compreender o processo.

Para breve está prevista a abertura de mais um núcleo em Seixo de Ansiães, dedicado aos ferreiros e aos ferradores. Vai albergar o espólio doado por um antigo ferrador e recriar uma oficina de ferreiro, para além de abordar aspetos relacionados com elementos patrimoniais, como são os cinco núcleos de insculturas rupestres, popularmente conhecidas como “fragas das ferraduras”.

O Museu da Memória Rural, em Vilarinho da Castanheira.

A sede do Museu da Memória Rural está em Vilarinho da Castanheira. É abrangente em relação à preservação da cultura rural e do património imaterial de Trás-os-Montes e Alto Douro. Diferentes ofícios tradicionais como ferrador, canastreiro, pescador do rio Douro, padeira, queijeira, pastor, tanoeiro, sapateiro, funileiro, tosquiador, tecedeira, moleiro e corticeiro, entre outros estão ali representados. Além da exposição estática de objetos e utensílios, este espaço serve-se da tecnologia para melhor passar a mensagem. E recusa-se a ser apenas um espaço expositivo. Frequentemente realiza iniciativas ligadas ao ciclo do queijo ou da lã, para que os visitantes possam, por assim, dizer, “meter as mãos na massa”.

Moinhos

Junto à aldeia de Vilarinho da Castanheira foram recuperados os moinhos de rodízio do Ribeiro do Coito. Estão inseridos num espaço de lazer bucólico, denominado localmente como “aldeia dos moinhos”, em que o visitante pode aproveitar o contacto com a natureza enquanto apura a compreensão do engenho que foi empregue na construção daquelas estruturas

Por falar em moinhos, ainda está para se perceber a razão por que foi instalado um de vento junto à que hoje é uma das portas de entrada na vila de Carrazeda. A arqueóloga da autarquia, Alexandra Lopes, tem tentado encontrar explicações, até porque são estruturas para moagem de cereal que não abundam na região de Trás-os-Montes. Só há sete e cinco estão no concelho carrazedense ou junto aos seus limites.

O moinho de vento de vento às portas de entrada na vila de Carrazeda.

O moinho de vento junto à vila data de 1900 e, segundo Alexandra Lopes, funcionou “no máximo 15 anos”. O formato, muito baixo e largo, também levanta interrogações, pois “não se enquadra nos parâmetros” deste tipo de estruturas. Apesar disso, a recuperação promovida pela autarquia conseguiu que funcionasse, mesmo que só para turista ver, uma estrutura granítica que todos se habituaram a ver em ruínas e albergue de silvas.

Esculturas em granito

Porque é a andar a pé que melhor se conhecem as localidades, é dessa forma que visitam as dez obras em granito que compõem o Parque Internacional de Escultura de Carrazeda de Ansiães, que foi desenvolvido entre 2000 e 2009. A ideia foi de Alberto Carneiro, um dos nomes maiores da escultura em Portugal, falecido em 2017, e que tem uma galeria no CITICA. Além de ter assinado “Os Sete Livros da Vida”, junto à Biblioteca Municipal, convidou mais nove escultores de renome portugueses e estrangeiros para deixarem a sua marca no concelho.

A Loja Interativa de Turismo dispõe de informação detalhada para que as pessoas possam apreciar as esculturas em posse de maior conhecimento. Nos roteiros distribuídos aos turistas são dadas coordenadas para se orientarem durante a visita. Na vila, ainda há para ver obras em granito de escultores da terra, como a “Escultura Interior (Es)” de Paulo Moura, junto à Agrupamento de Escolas, e as “Pedras de Identidade” de Hélder de Carvalho.

Vale do Tua

Um dos locais mais atrativos do concelho de Carrazeda de Ansiães é a localidade de Foz-Tua, onde muita gente chega de comboio, quantas vezes apenas para comer nos restaurantes locais e conviver, antes de regressar a casa pela mesma via, na última viagem do dia. Num dos antigos armazéns da estação ferroviária foi instalada uma das portas de entrada no Vale do Tua. Tem lá informação vasta sobre onde deve ir, o que comer e onde ficar no concelho.

Do outro lado da linha ferroviária do Douro, noutro velho armazém recuperado, está o Centro Interpretativo do Vale do Tua. O guia José Luís Carvalho explica a dimensão cultural e humana dos cinco concelhos que fazem parte do vale (Carrazeda, Alijó, Vila Flor, Murça e Mirandela), bem como a história da linha de comboio e a construção da barragem que alterou completamente a fisionomia do vale.

O Centro Interpretativo do Vale do Tua. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)

Desde a estação ferroviária há um percurso pedestre com 3,5 quilómetros de extensão que leva o visitante até um miradouro onde é possível ver de perto do paredão da barragem de Foz-Tua, bem como a central hidroelétrica desenhada por Eduardo Souto de Moura. Este prestigiado arquiteto conseguiu que quase ficasse dissimulada na paisagem, de forma a não colidir com o estatuto de Património Mundial de que o Alto Douro Vinhateiro se orgulha desde finais de 2001.

Ao passar naquele trilho, junto à Estrada Nacional 212 e à ponte sobre o rio Tua que une os concelhos de Alijó e Carrazeda, localiza-se a antiga casa dos cantoneiros que a autarquia transformou na Foz-Tua Wine House. Dispõe de uma sala de exposição e venda de produtos regionais, outra de provas, um pequeno auditório e uma esplanada com vista para os rios Tua e Douro. Onde se guardavam enxadas, ancinhos e demais ferramentas dos homens que traziam as estradas um brinco, divulgam-se e vendem-se agora vinhos, fumeiro, compotas, mel, queijos, frutos secos, entre muitas outras iguarias do concelho a preço de produtor.

Há provas de vinhos e degustações na Foz-Tua Wine House.

Funciona também como um posto de turismo avançado no território, onde é prestada toda a informação sobre os locais a visitar e o horário de funcionamento das infraestruturas turísticas e culturais do concelho de Carrazeda.

Novo alojamento

Para comer não faltam sugestões, como os restaurantes Beira Rio, na aldeia ribeirinha de Foz-Tua, e a Taberna da Helena e o Convívio, ambos nas proximidades da igreja na vila de Carrazeda. Ao lado deste último acaba de ser inaugurado o alojamento The Village House que resulta da recuperação de um velho edifício em pedra. Possui sete quartos com todas as comodidades e ainda uma piscina. Resulta de um sonho de André Morgado, filho dos gerentes do restaurante, e da namorada, com o objetivo de ser “mais uma opção de qualidade para passar uns dias no concelho”.

A posta com batata a murro e o polvo do restaurante Beira-Rio. (Fotografias de Rui Manuel Ferreira/GI)
Luís Morgado, responsável pelo restaurante Convívio.
A Taberna da Helena.
O The Village House, um novo alojamento local.

À entrada da vila existe o único hotel de quatro estrelas do concelho – o Grapple Hotel & SPA. O nome resulta da conjugação das palavras uva (grape) e maçã (apple), duas das principais culturas agrícolas do concelho. Abriu em finais de 2021 graças ao empenho de Carmina González, uma lusodescendente de 36 anos que se mudou para Carrazeda de Ansiães, concelho ao qual tem ligações familiares. Assumindo que foi um “risco bem estudado” investiu ali 2,8 milhões de euros, com apoio de fundos europeus. “Portugal não é só Lisboa, Porto e Algarve. Há que chamar as pessoas para verem o que temos”, salienta Carmina.

Nos primeiros meses de funcionamento tem conseguido o objetivo de manter uma boa ocupação, tanto nos nove quartos e nas três vilas de tipologia T1 e T2 como no restaurante, onde o chef Hélder Sousa se aplica para dar uma vida diferente aos pratos típicos da região. “Estamos a ter um bom retorno, o que me confere o sentimento de que fiz bem em investir”, salienta Carmina, satisfeita por estar a ver também uma “grande adesão” de quem vive na região.

O Grapple Hotel & SPA é o único quatro estrelas do concelho.
O hotel foi inaugurado recentemente em Carrazeda de Ansiães.

O hotel, onde trabalham 14 pessoas, tem ainda sala de eventos, piscinas exteriores de água salgada, SPA com piscina interior, jacuzzi, sauna e banho turco. É um projeto da arquiteta Daniela Rebelo e tem decoração da autoria da reconhecida decoradora nacional, Nini Andrade Silva.

Publicação original aqui.
Eduardo Pinto

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