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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 16 de março de 2018

OUTEIRO: Capela do Santo Cristo

• Dia 3 de Maio • A ele concorrem sempre continuamente em romagem e com maior concurso que se faz uma solene festa à imagem do Senhor exposto com a chaga no peito. Milagres: «O Santo Cristo é uma imagem que inculca a maior devoção, quando se patenteia, que é com muita solenidade e grandeza.
Porém para dar uma notícia de gosto e com clareza a respeito deste milagroso Senhor, deste portento dos portentos, é de saber que nesta vila de Outeiro, que é da Excelentíssima Casa de Bragança, no meio dela, aonde chamam as Eiras do Meio, estava uma capela da invocação da Santa Cruz, obra pequena que a piedade de seus moradores edificou. E para nela com mais devoção louvarem a Deus, colocaram na dita capela uma imagem de Jesus, pequena de estatura, que terá pouco mais de três palmos de alto, mas muito perfeita, devota e de muita veneração neste lugar.
Era buscado este Senhor com frequência, assim dos moradores como da gente da terra, principalmente no tempo da Quaresma e festas de Cristo, aonde se celebravam missas e havia concurso de gente. E muito mais no dia de Quinta Feira Santa, no qual só consta saísse fora da capela a imagem, e por isso saudosos, os moradores e vizinhos concorriam em procissão, a que se fazia de penitência, doendo-se e pesando-lhe a todos de o ter ofendido, pedindo misericórdia e perdão de suas culpas.
Nesta forma se passaram muitos anos que esta sacrossanta imagem foi adorada, venerada e estimada de todo o povo, até que Deus Senhor Nosso, por sua misericórdia, foi servido no ano de mil seicentos e quarenta livrar seu Reino das garras do de Castella, ao depois de sessenta anos de cativeiro, e dá-lo ao muito alto e poderoso Senhor Rei D. João, o Quarto, que santa glória haja, e pôr este Reino naquela liberdade que antes tinha desde o princípio que o dito Senhor dele fez mercê ao muito grande Rei, o Senhor D. Afonso Henriques.
Como porém fosse necessário que os senhores reis deste Reino se defendessem das cruéis guerras que os de Castela faziam a este para o pôrem debaixo do seu domínio, também era preciso que os vassalos se ocupassem nesta justa defesa, uns acudindo às praças, outros com bagagens e carretos, e com estes pretextos se foi esquecendo a devoção do nosso Santo Cristo. Já nam havia concurso de gente, já ninguém se lembrava de tal imagem, já era preciso fechar a porta da ermida para que os gados não entrassem dentro a tomar a sesta que no cálido que tinha era contínuo, enfim, estava totalmente abolida a lembrança da imagem.
Até que no ano de mil e seiscentos e noventa e oito, no dia vinte e seis de Abril, foi Deus, Senhor Nosso, servido usar um dos maiores que se tem visto nem ouvido de prodígios e milagres. Que depois de dizer missa na referida capelinha, o reverendo padre Fr. Luís de S. José, religioso de Nossa Senhora do Carmo dos Calçados, assistente nesta vila com seu irmão, o doutor juiz de fora, foi visto pelo dito religioso suar gotas de água a imagem do Santo Cristo, o que também foi visto pelo padre João de Almeida e Filipe de Almeida, desta vila. E dando-se parte ao reverendo pároco do milagre e prodígio que tinha sucedido pelas onze no dia relatado, viera ao sol posto, e indo com pessoas fidedignas à ermida, e olhando para a imagem vira em o braço esquerdo gotas de água e no dia seguinte, que era Domingo, dia vinte sete do mencionado mês, foi visto por muitas pessoas suar a imagem por várias partes do corpo gotas de água, de cujo facto deu logo parte o reverendo Agostinho da Cunha, que era cura, digo, o padre João Rodrigues de Coronha, cura actual, ao reverendo doutor provisor, que era José de Frias, cónego da Sé de Miranda, que pessoalmente veio a esta vila indagar, autenticar o prodígio que achou o dito reverendo doutor provisor por muitas pessoas e testemunhas, auto de exame, que fez ser verdadeiro o sucesso recontado. E que para memória e lembrança de tão grande prodígio, se lançasse nos Livros do Santo Cristo este sucesso e que no mesmo se escrevessem as testemunhas, e tudo o mais que judicialmente se processou. Com tão nova maravilha concorreu a gente não só desta terra, mas de toda a Província e ainda de Castela, Galiza, com procissões e voluntárias oblações, estando no entanto o Senhor em novenas, no qual tempo se despovoam os lugares vizinhos e cidades, como de Bragança e toda sua terra, e Miranda, donde consta não ficou homem, mulher, nem senhoras que não viessem a tributar cultos e render adorações.
Os milagres que o Senhor fazia eram muitos, digam-no os cegos, ainda a nativitate, que lhe restituiu vista, os coxos, os mudos, surdos, hidrópicos, febricitantes e todos os enfermos de todas as qualidades que concorriam depois de conseguirem o alívio, a agradecer o benefício e juntamente mostrar-se agradecidos ou com as suas promessas, ou com suas esmolas. Como os milagres continuaram sem peso, nem medida, também parece o não havia em oferecer grandiosas esmolas, assim deste Reino, como de Galiza, donde houve cavaleiros que deram seiscentos mil réis de esmola e quatrocentos. Com estas e outras esmolas determinaram fabricar um templo de grande arquitectura para nele pôr a imagem do Senhor, e logo erigiram uma confraria e irmandade de irmãos, que é governada por oficiais de juiz, procurador, tesoureiro, escrivão, irmãos de mesa, é eclesiástica. 
Logo na sua criação teve cinco mil irmãos, em que entram seculares, eclesiásticos de toda a graduação, paga cada um uma quarta de pão anualmente e faz-lhe a confraria, quando falecem, um ofício de nove lições com seis missas.
por vivos e defuntos anualmente um aniversário de quantos sacerdotes se juntam, que são muitos».

Memórias Paroquiais de 1758 do Distrito de Bragança

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