O som dos chocalhos ecoou na Casa do Careto de Podence quando na transmissão em direto da Colômbia se ouviu a confirmação de que os tradicionais mascarados transmontanos são Património Imaterial da Humanidade.
Um grupo de Caretos fez a festa sem a habitual algazarra e tropelias pelas ruas que marcam o carnaval na aldeia, deserta num dia chuvoso e frio.
São poucos, menos de 200, os habitantes, mas no Entrudo, que é Chocalheiro e Património da Humanidade, regressam de onde estão emigrados para participar no mais genuíno carnaval português.
“No Entrudo, parece o mês de agosto”, garantiu à Lusa, o careto Rui Carneiro, que assistiu à aprovação da candidatura pela UNESCO, sem reparos, nem observações.
Desde que se conhece que Rui é careto, e nunca imaginou que os mascarados desta aldeia de Macedo de Cavaleiros chegassem ao patamar da Humanidade.
“É um orgulho, mas é mais um reconhecimento de todo o trabalho que temos tido ao longo destes anos”, considerou.
A partir de agora, “o Careto vai ter mais visibilidade pelo mundo, mas a responsabilidade é sempre a mesma que é vestir o fato e desempenhar bem a função”.
E há cada vez mais gente a vestir os fatos de lã farfalhudos e coloridos e as máscaras de lata e ferro, que já deram origem a negócios na própria aldeia.
Além de considerar a candidatura do Carnaval de Podence exemplar, a UNESCO sublinhou também o papel desta pequena comunidade na defesa e preservação do património.
Tal como outras tradições locais, o Entrudo Chocalheiro estava em vias de extinção, até que, na década de 1980, se iniciou o processo de revitalização e se tornaram mais emblemáticos das Festas de Inverno do Nordeste Transmontano.
O dia de hoje vai “ficar na história da vida” de António Carneiro, o homem que tem conduzido este processo e que falou à Lusa, por videochamada, da Colômbia, visivelmente emocionado.
“É uma caminhada de muitos anos, 30, 40 anos. Podence está de parabéns”, sublinhou.
O Carnaval de Podence são quatro dias e no próximo, entre 22 a 25 de fevereiro, António Carneiro, que é presidente da Associação dos Caretos de Podence, antevê que a aldeia vai ficar pequena para tanta gente.
Em 2019, contabilizaram cerca de 30 mil visitantes portugueses e estrangeiros para assistirem aos rituais dos Caretos.
Falta logística na aldeia para tanta gente e é preciso “criar infraestruturas”, como defendeu António Carneiro.
O primeiro passo já foi dado, com o desafio lançado ao arquiteto Souto de Moura para projetar um novo largo e infraestruturas em Podence e dar uma nova dinâmica à aldeia.
Em Podence existe já a Casa do Careto, sede da associação responsável pela dinamização do Entrudo Chocalheiro, onde os Caretos assistiram, pela Internet, à transmissão da sessão da UNESCO, onde foi anunciada a aprovação da candidatura.
Os tradicionais mascarados estão representados na Colômbia por uma comitiva constituída por autarcas, o presidente da Associação dos Caretos e a investigadora que fez a recolha para a candidatura, Patrícia Cordeiro.
A coordenadora técnica da candidatura explicou à Lusa que “esta é uma festa com raízes muito antigas, que, num contexto contemporâneo, consegue superar os processos de despovoamento e de alteração das condições económicas, que espoletam nos anos 60 e que marcam todo o interior do país”.
Para a investigadora, “é incrível como uma aldeia tão pequena com tão poucos habitantes consegue com muito esforço e muito compromisso atravessar décadas de grandes mudanças e manter esta tradição que é inicialmente alimentada por uma associação e hoje totalmente querida pelos emigrantes”.
“Podence está de parabéns por isso e por colocar Portugal neste universo das máscaras e dos carnavais do mundo”, afirmou a técnica, expressando felicidade por ter participado neste processo.
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(Henrique Martins)
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