quinta-feira, 28 de julho de 2022

A SINDROMA DO MENINO TONECAS

 Um dos programas mais deletérios que passam presentemente [em 1998] na nossa bem-amada televisão é o que dá pelo nome inocente de “As lições do menino Tonecas”. Corre na RTP-1 este monumento ao que há de mais charro no humor nacional, todo ele feito de trocadilhos baratos e segundos sentidos primários. 
Por casualidade, ou talvez não, o programa anda sempre nos top twenties das audiências. Na semana de 8 a 12 de Março, por exemplo, diz-me um jornal que informa sobre estas coisas da audiometria que 12,2% dos portugueses o viram. Viram – e presumivelmente, digo eu, deleitaram-se com as saídas do dito menino Tonecas.
 É o país que temos: quase europeu até à hora de ligar a televisão; daí para diante, terceiro-mundista de todo.
 O programa é deletério, a meu ver, porque constitui uma glorificação da indisciplina, do desrespeito e do reguilismo infantil. Reguilismo é palavra minha, julgo: fi-la a partir de “reguila”, que em calão quer dizer “malcriadamente desenvolto”. 
Repare-se bem: o professor é infalivelmente a vítima. Ele suscita o riso pelas visagens de impaciência que faz, nunca pelas palavras que diz. O menino Tonecas, pelo contrário, é o herói: faz rir pela desenvoltura das saídas com que encosta o professor à parede, de princípio a fim da aula. 
Embora eu seja professor, não faço esta análise por defesa corporativa. Faço-a por genuína revolta contra um cenário de permanente perversão das relações professor-aluno e até aluno-colegas que o programa apresenta e, pelo mecanismo do riso e da simpatia que este induz, glorifica.
Encorajados por esta glorificação do Tonecas, há milhentos alunos por essas escolas fora que o tomam por modelo e procuram reproduzir-lhe as gracinhas nas respectivas salas de aula. Isto, numa época em que a disciplina já não andava grande coisa, tem o efeito que facilmente se deixa adivinhar: desespero do professor, risadas, balbúrdia, retardamento das matérias, insucesso, etc. e tal.
Junte-se ao menino Tonecas todo o cortejo de programas violentos que a televisão, generosa como sempre, dá todas as noites – e o caso agrava-se.
Aparecem então os Ivos. O Ivo – para quem ande distraído destas coisas – é uma criança de oito anos cujo hobby principal parece ser aterrorizar a escola em bloco: professores, funcionários e alunos. Cerca de trezentas pessoas, mais coisa menos coisa. Acontece isto na Rinchoa, ali às portas da capital, numa escola que até nem é, segundo a Direcção Regional de Educação de Lisboa, “uma escola de risco”.
Aparentemente o Ivo desenvolveu “comportamentos de liderança” e, segundo os colegas, para os exercer apoiava-se em correntes e facas que trazia na mochila.
Aparentemente também, as autoridades escolares têm um sentimento de culpa por terem deixado as coisas chegar ao ponto a que chegaram (“Alguma coisa correu estrondosamente mal”, diz uma das responsáveis, num tocante mea culpa.) E agora andam com o menino nas palminhas. Transferiram-no de escola e destacaram um professor para o “tutelar” em exclusivo, possivelmente convencidos de que a coisa voltará assim ao normal. 
Aposto dobrado contra singelo que não volta. Porque o Ivo continuará a ter, à noite, no televisor, o menino Tonecas, o Predador partes 1 e 2, o Rocky partes 1, 2, 3, 4 e 5, e toda uma panóplia de filmes que lhe fornecerão os modelos para, no dia seguinte, moer a paciência do professor e andar ao murro, quando não à facada, a colegas, funcionários e professores.
Longe de mim pretender desenterrar a palmatória lá do purgatório onde jaz, mas um puxão de orelhas a tempo poderia talvez ter evitado tudo isto. Isso causaria talvez algum desconforto físico e psicológico ao menino Tonecas, perdão, menino Ivo. Mas evitaria o mesmo ou pior desconforto a 300 pessoas inocentes.
Cá para mim, o que anda a correr estrondosamente mal na escola, há muito tempo, é a sua permissividade demissionária. Podia-se lá traumatizar o menino, tadinho, impedindo-o de aterrorizar quem ele muito bem quiser e lhe apetecer... Arrisco-me a muito ao escrever isto, mas é isto mesmo que eu penso.

Repórter do Marão, 20 de Março de 1998

A. M. Pires Cabral

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