Em setembro passado, a EDITORA ÂNCORA do meu amigo Baptista Lopes fez o favor de editar uma narrativa ficcionada que eu lhe havia enviado. Narrativa que titulei de “A ALMA TAMBÉM MORRE”. Não “uma alma individual”, mas “a alma” de um território e dos humanos modos de vida que nesse território se afirmaram.
Nas apresentações que já fiz - em Santa Marta de Penaguião e Vila Real -, tentei explicitar aqueles que eu escolhi serem os porquês e a essência dessa narrativa:
«Nasci transmontano, no Nordeste mais Nordeste. Naquele exato local – territórios da freguesia de Pinelo, concelho de Vimioso – onde a raia, vinda no sentido norte/sul ao longo da Ribeira das Maças, toma o rumo do nascente, à procura do Rio Douro em Terras de Miranda. Nesse chão, que no próprio livro é dito como o “mais esquecido e desprezado de toda a Terra de Portugal”, vivi os dez primeiros anos numa infância tutelada por um pai viciado em leituras e papéis, com o qual aprendi o fascínio das palavras e dos livros. Dez anos pautados de sensações e encantamentos nunca esquecidos, porque para sempre embrulhados na nostalgia tão peculiar dos olhares, sons, cheiros, gostos e matizes, apreendidos e aprendidos nas breves colinas e nos espaços abertos do pré-planalto mirandês.
Sensações e encantamentos que me conduziram - diria, quase obrigaram! – ao jeito deste longo contar que é “A ALMA TAMBÉM MORRE”. Narrativa de ficção que tentei – se o consegui outros dirão! – fosse um hino a três memórias, duas de gratidão: uma para com o meu pai, um HOMEM sábio e tão só ele. Memória de gratidão também para com o CHÃO que primeiro me modelou e tão decididamente me influenciou. Mas MEMÓRIA CÍVICA ainda, que, desfeito o nó que longo tempo me apertou na garganta, tenta ser também um demorado e insistente alertar contra o criminoso e continuado abandono com que estamos a deixar morrer os nossos territórios do interior e as suas tão únicas e genuínas afirmações de portugalidade.
MILHANO - o palco da narrativa - é uma imaginada aldeia moribunda e já sem permanentes moradores. Povoação (ou Povo, como por lá se diz) que podia ser e é mesmo muito parecida, com as naturais diferenças a que a ficção obriga, com Pinelo, a terra onde nasci. Mas também não muito diversa de dezenas e dezenas de outras localidades desse Nordeste fronteiriço, que vindo de Vinhais e Bragança, mais genuíno e despojado se afirma por Terras de Vimioso e Miranda.
Aldeia, onde nasceu e praticamente sempre viveu AUGUSTO – o herói e protagonista da narrativa -, como nos é contado: “ao longo de noventa anos, este tinha sido o seu único meio natural. Ferreiro e lavrador, por ali viveu e trabalhou, e só naqueles montes, planuras ou vales encontrava o gosto e a paixão nunca degustados noutros sítios. Pois apenas na concha limitada por tão bendito céu e pelos horizontes que o sustêm, os dias lhe concediam, como num ventre maternal, a placenta a protegê-lo no jeito de viver e no sonho de, com vontade, um pouco de alegria mesmo, continuar a resistir”
Augusto – ferreiro e lavrador como o meu pai! - que nas insuficiências desses já seus noventa anos, tem agora que, resignado, viver com a filha na cidade: “com ar de cão abandonado pelo dono, peixe fora de água, ou planta transplantada para clima e solo estranhos, definhava por Bragança”; mas que, aproveitando uma ausência dela, arranja maneira de conseguir uns dias de escapatória vividos bem no seu Milhano.
Seis dias, com particular e assumido destaque para o último, que por feliz coincidência será o mais longo dos dias do ano. O solstício do Verão que na sua MADRUGADA, MANHÃ, MEIO DO DIA, TARDE e CREPÚSCULO, Augusto o quis pensar e viver assim a modos de um filme em que trará aos olhos e à memória o que mais e melhor guardou dos seus noventa anos. Mas filme também no qual, inscrevendo e recordando as suas vivências, dará imagem e voz aos ritmos, histórias, tradições e trabalhos que foram a essência do Milhano do seu tempo.
Ritmos, histórias, tradições e trabalhos seus, de Augusto. Mas também das gentes que fizeram parte e tanto coloriram os seus dias: a mulher Isabel e os três filhos; os avós, pais e sogros; os mais amigos e outros muitos que, como ele e com ele, deram vida e razão de ser à aldeia e ao seu termo/território. Gentes inteiras, genuínas e tão puras, de trabalhos tão intensos e sofridos, com experiências de vida, assentes em realidades tecidas no sereno evoluir de séculos, talvez milénios…»


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