Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 24 de janeiro de 2026

A ALMA TAMBÉM MORRE

 Em setembro passado, a EDITORA ÂNCORA do meu amigo Baptista Lopes fez o favor de editar uma narrativa ficcionada que eu lhe havia enviado. Narrativa que titulei de “A ALMA TAMBÉM MORRE”. Não “uma alma individual”, mas “a alma” de um território e dos humanos modos de vida que nesse território se afirmaram.


Nas apresentações que já fiz - em Santa Marta de Penaguião e Vila Real -, tentei explicitar aqueles que eu escolhi serem os porquês e a essência dessa narrativa:

«Nasci transmontano, no Nordeste mais Nordeste. Naquele exato local – territórios da freguesia de Pinelo, concelho de Vimioso – onde a raia, vinda no sentido norte/sul ao longo da Ribeira das Maças, toma o rumo do nascente, à procura do Rio Douro em Terras de Miranda. Nesse chão, que no próprio livro é dito como o “mais esquecido e desprezado de toda a Terra de Portugal”, vivi os dez primeiros anos numa infância tutelada por um pai viciado em leituras e papéis, com o qual aprendi o fascínio das palavras e dos livros. Dez anos pautados de sensações e encantamentos nunca esquecidos, porque para sempre embrulhados na nostalgia tão peculiar dos olhares, sons, cheiros, gostos e matizes, apreendidos e aprendidos nas breves colinas e nos espaços abertos do pré-planalto mirandês.

Sensações e encantamentos que me conduziram - diria, quase obrigaram! – ao jeito deste longo contar que é “A ALMA TAMBÉM MORRE”. Narrativa de ficção que tentei – se o consegui outros dirão! – fosse um hino a três memórias, duas de gratidão: uma para com o meu pai, um HOMEM sábio e tão só ele. Memória de gratidão também para com o CHÃO que primeiro me modelou e tão decididamente me influenciou. Mas MEMÓRIA CÍVICA ainda, que, desfeito o nó que longo tempo me apertou na garganta, tenta ser também um demorado e insistente alertar contra o criminoso e continuado abandono com que estamos a deixar morrer os nossos territórios do interior e as suas tão únicas e genuínas afirmações de portugalidade.

MILHANO - o palco da narrativa - é uma imaginada aldeia moribunda e já sem permanentes moradores. Povoação (ou Povo, como por lá se diz) que podia ser e é mesmo muito parecida, com as naturais diferenças a que a ficção obriga, com Pinelo, a terra onde nasci. Mas também não muito diversa de dezenas e dezenas de outras localidades desse Nordeste fronteiriço, que vindo de Vinhais e Bragança, mais genuíno e despojado se afirma por Terras de Vimioso e Miranda.

Aldeia, onde nasceu e praticamente sempre viveu AUGUSTO – o herói e protagonista da narrativa -, como nos é contado: “ao longo de noventa anos, este tinha sido o seu único meio natural. Ferreiro e lavrador, por ali viveu e trabalhou, e só naqueles montes, planuras ou vales encontrava o gosto e a paixão nunca degustados noutros sítios. Pois apenas na concha limitada por tão bendito céu e pelos horizontes que o sustêm, os dias lhe concediam, como num ventre maternal, a placenta a protegê-lo no jeito de viver e no sonho de, com vontade, um pouco de alegria mesmo, continuar a resistir”

Augusto – ferreiro e lavrador como o meu pai! - que nas insuficiências desses já seus noventa anos, tem agora que, resignado, viver com a filha na cidade: “com ar de cão abandonado pelo dono, peixe fora de água, ou planta transplantada para clima e solo estranhos, definhava por Bragança”; mas que, aproveitando uma ausência dela, arranja maneira de conseguir uns dias de escapatória vividos bem no seu Milhano.

Seis dias, com particular e assumido destaque para o último, que por feliz coincidência será o mais longo dos dias do ano. O solstício do Verão que na sua MADRUGADA, MANHÃ, MEIO DO DIA, TARDE e CREPÚSCULO, Augusto o quis pensar e viver assim a modos de um filme em que trará aos olhos e à memória o que mais e melhor guardou dos seus noventa anos. Mas filme também no qual, inscrevendo e recordando as suas vivências, dará imagem e voz aos ritmos, histórias, tradições e trabalhos que foram a essência do Milhano do seu tempo.

Ritmos, histórias, tradições e trabalhos seus, de Augusto. Mas também das gentes que fizeram parte e tanto coloriram os seus dias: a mulher Isabel e os três filhos; os avós, pais e sogros; os mais amigos e outros muitos que, como ele e com ele, deram vida e razão de ser à aldeia e ao seu termo/território. Gentes inteiras, genuínas e tão puras, de trabalhos tão intensos e sofridos, com experiências de vida, assentes em realidades tecidas no sereno evoluir de séculos, talvez milénios…»

Artur Vaz

Sem comentários:

Enviar um comentário