Hoje vi, da minha janela, um fragmento do pequeno mundo de Bragança. Um desses instantes que não pedem atenção, mas que insistem em ficar.
Um homem já com alguma idade. Equipamento desportivo, sapatilhas brancas, limpas o suficiente para contrastar com o cenário. Estacionou o carro, sim, o carro, um pouco antes do ecoponto. Não parecia perdido, nem apressado. Parecia apenas atento. À espera do momento certo.
Quando se apercebeu de que dificilmente estaria a ser visto, fez a primeira incursão ao caixote do lixo. Com calma. Lentidão. Sem pressas nem vergonha. Retirou algo que, à distância, me pareceu um pequeno par de calças.
Abriu depois a mala do carro e de lá tirou um objecto, uma extensão do braço, que lhe permitia revirar o conteúdo do caixote com mais eficácia. Um gesto treinado, quase técnico.
De repente, um intervalo inesperado. Um canito a correr. Tinha trela, mas não tinha ninguém na outra ponta. A cena ganhou estranheza. Fiquei curioso.
Logo a seguir, surge a “senhora”. Muito frio, imagino, trazia as orelhas protegidas com algo semelhante a auriculares de neve. Mais um canito ao lado. Na mão, uma pequena caixa de papelão. Não sei o que continha. Sei apenas que, talvez por dar trabalho usar o ecoponto, deixou a caixa no chão, no passeio. Um abandono simples, quase automático.
O senhor, já dentro do carro, esperou. Observou. Só quando ela desapareceu no horizonte voltou a sair. Caminhou dois metros. Verificou o conteúdo da caixa de papelão. Nada, pelos vistos. Ainda assim, regressou ao caixote do lixo. Talvez para confirmar que nada lhe tinha escapado. Ou talvez por hábito.
Depois entrou no carro e arrancou. O carro não era, pelo menos aparentemente, nenhum ferro velho.
A gasolina deve ser grátis para alguns.
É difícil entender o que se passa com todos nós. Mas, às vezes, basta uma janela e um ecoponto para perceber que andamos todos a fazer pequenas incursões, uns no lixo, outros na indiferença, à procura de algo que nem sabemos bem o que é.
Não é ficção… foi exatamente assim que aconteceu.
Vendem-nos um País que não existe! Basta olharmos pela janela para os podermos desmentir!
O que mais me marcou foi a “senhora” nem ter olhado para o ecoponto. Colocou a caixa com o seu lixo no passeio, em frente ao papelão, e seguiu o seu caminho. Deve ser gente fina. Dois canitos e protecção nas orelhas para proteger do frio… O cidadão que andava a "pescar" no caixote do lixo... foi de carro.
Podemos imaginar como será nas grandes urbes...

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