Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

As viagens, à boleia, no antigamente

Por: António Pires 
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 O hábito de andar à boleia, na minha juventude, era uma aventura saudável, de rebeldia libertadora; uma forma de nos deslocarmos, em regime de “bar aberto”, no asfalto, porque também o vil metal, para muitos de nós que o fazíamos, era um bem escassíssimo.

Ainda que provindo duma família de origens economicamente modesta – nunca o essencial me  faltou,  quer em criança, quer na juventude –, o que verdadeiramente me movia,  na condição de “mochileiro” era, além da impagável sensação de autonomia, liberdade e maioridade, a de evitar as sofríveis viagens na carreira do Cabanelas, que, não raras vezes, me levaram ao enjoo e consequente vómito. 

A “renúncia” às viagens de “carreira” - em veículos cuja falta de conforto se explicavam à luz dos tempos de então, que libertavam um irrespirável e nauseabundo cheiro a gasóleo queimado, onde era permitido fumar nos lugares traseiros – começou, por volta dos meus 12/13 anos, sempre na inseparável companhia do meu saudoso irmão Mário, com origem em Bragança e destino em Vale de Frades e/S. Joanico, e vice-versa, enfrentando as traumatizantes curvas de Milhão, Outeiro e Pinelo.

Numa dessas memoráveis viagens, de S. Joanico para Bragança, apanhei boleia numa camioneta Bedford, já velhinha, cor vermelha, carregada de areia molhada. Viríamos a uma velocidade não superior a 30 k/h.  A um dado momento do percurso, à entrada de Outeiro, o camionista, visivelmente faltoso de sono, anunciou que iria parar ali uns quinze minutinhos, para o reparador “descanso do guerreiro”. Aproveitando o sono profundo do senhor – que, segundos depois, já “arrastar móveis” -, aproveitei e, de mansinho, saí da camioneta e apanhei nova boleia. 

Estaríamos ali por volta do início do mês de setembro do ano de 1979, quando, com 18 aninhos, sem que nada o previsse, eu e o João Pinheiro, amigo de infância, nos lembrámos de “desafiar as odes”, e ir às vindimas a França, mais precisamente a Montepellier. De Bragança a Andorra fomos com o meu irmão Manuel, no memorável volkswagen brasília amarelo, da família – o primeiro, desta marca e modelo a circular em Bragança. Recordo-me que na passagem pelas estradas e localidades de Espanha, os nuestros hermanos olhavam com estupefação para aquela máquina, por lhes ser estranha e desconhecida.

Sem qualquer rede de protecção – não tínhamos telemóvel e os conhecimentos da língua de Victor Hugo não iam muito além dos ministrados pelo professor Anselmo, no Liceu -, fizemo-nos à vida. À beira da estrada, dedo polegar erguido em posição horizontal, no primeiro “lançamento/arremesso do isco”, apanhámos boleia até Carcassone, numa distância de quase 200 quilómetros. Como levámos tenda de campismo, fizemos acampamento selvagem, debaixo duma ponte. Derrotados pelo cansaço, não foi preciso muito tempo para cedermos ao sono, que, como na melhor das aventuras, foi interrompido por uma impiedosa e enorme tromba d` água, que se abateu sobre o abrigo, arrastando consigo a tenda.

No dia seguinte, ao raiar da aurora, mais uma boleia que nos haveria de levar ao destino. Chegados à zona vinhateira (não tínhamos contrato, fomos às cegas), aconteceu-nos o mesmo que ao Raul Solnado, que, tendo chegado à porta da guerra, a dita “estava fechada”. Ou seja, aparecemos naquele preciso momento em que se ouve, no final da celebração eucarística, o “missa dita est”: o trabalho das vindimas já tinha acabado.

Mas nada está perdido, quando temos espírito positivo, não se entra em depressão e existe um plano b: para ganharmos algum dinheiro e termos direito a alguns momentos de diversão, no dia seguinte e durante uma semana, empreendemos a dura tarefa da apanha do tomate. 

O regresso ao nosso querido Portugal, já com alguns francos no bolso, foi feito em duas etapas: até Zamora, de autocarro; de Zamora para Bragança, numa boleia com um taxista muito simpático, da aldeia de Baçal – uma cara que nunca mais esqueci.

Destas gratificantes aventuras à boleia – são incontáveis –, fico com a sensação de que, se os jogos olímpicos, na altura, contemplassem a modalidade da “boleia”, conseguiria os mínimos para representar o meu país e, quem sabe,  um honroso lugar no pódio(kkk).

Na verdade, eu era mesmo aquela pessoa que tinha sorte nesta arte. Como sorte tenho em ter vivido estas estimulantes experiências. Ao contrário do que, estranhamente, muitos dizem, numa espécie de frase – feita, eu sempre soube que era feliz.

António Pires


António Pires
, natural de Vale de Frades/S. Joanico, Vimioso. 
Residente em Bragança.
Liceu Nacional de Bragança, FLUP, DRAPN.

Sem comentários:

Enviar um comentário