(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Hoje, ao percorrer esta magnífica página, deparei-me com uma não menos magnífica imagem referente à aldeia de Montesinho. Muitos a conhecerão, é uma das «Aldeias de Portugal», e bem merece o título. Actualmente localizada na freguesia de França, até há cerca de 180 anos era, no entanto, freguesia autónoma.
Quando se percorrem as ruas de Montesinho, entra-se noutra dimensão, onde a raridade, ao contrário de muitas aldeias trasmontanas, são as «maisons», aqui permanecendo muita da génese da arquitectura popular, onde sobressaem os telhados em lousa e as paredes de granito, ou as varandas típicas, algumas encantadoramente floridas. E, para os mais aventureiros, a uns quilómetros, a Barragem da Serra Serrada, e, um pouco adiante, sempre por paisagens que assoberbam os sentidos, um dos grandes desperdícios do Parque Natural de Montesinho, a Casa da Lama Grande. Era uma da, julgo, meia dúzia que fazia parte do conjunto de «abrigos de montanha» do Parque. Hoje, é o reflexo da forma como um país trata o seu património… Mas não vim aqui para escrever sobre isso…
O que aqui me trouxe foi uma imagem… Que me fez recuar alguns anos, quando era mais dado a aventuras por este território único, incomparável, distinto. E a surpresa que tive quando me deparei, pela primeira vez, com a Igreja de Santo António, em Montesinho. Coisa que, na época, estranhei, porque desde remotos tempos, a dita igreja era da Santa Cruz. Embora já por lá existisse a invocação ao «nosso Sant’Antoninho». Entre outras coisas, nisso me detive, enquanto apreciava a arquitectura ímpar do edifício religioso, e já por aqui o trouxe, Santo António não é apenas «nosso» por ser o mais popular santo dos «santos populares». Também é «nosso» porque carregava «sangue bragançano», bisneto que foi de uma Bragançã. E são essas coisas que me absorvem quando visito a incontável riqueza contida nas nossas aldeias.
E fico a imaginar, no caso específico de Montesinho, os seus frades beneditinos fundadores, a circularem por velhos caminhos medievais, em simultâneo tratando da espiritualidade dos primeiros habitantes de Montesinho. Já lá vão quase 800 anos desde que um mosteiro que já por aqui trouxe, o de Santa Maria de Moreirola, com autorização do Arcebispo de Braga, fundou uma igreja em Montesinho e consolidou mais um pedaço do seu vasto património fundiário. Parece, inclusive, que um outro mosteiro leonês também por lá teve propriedades, o de São Martinho da Castanheira, que também já aflorei aqui. Percebem por que «falamos de uma forma estranha»? A nossa História foi imensamente feita por cavaleiros e frades leoneses…
D. Afonso III tentou dar a primeira «machadada» nas imensas posses que os mosteiros leoneses tinham por aqui. O seu filho, D. Dinis, tratou de, embora reconhecendo-lhes as posses, dar ordens para que fossem cobrados os respectivos direitos régios. A «machadada» final seria dada pelo seu neto, D. Afonso IV, que retirou ao Mosteiro de Moreirola a jurisdição que tinha sobre Montesinho. Coincidentemente, esta decisão régia ocorreu, num início de Janeiro, há exactamente 686 anos.
Circulando pelas esplêndidas ruas de Montesinho, também me lembro que a aldeia, então ainda freguesia, fez parte de uma Comenda da Ordem de Cristo, na dependência do «nosso» Duque de Bragança. E lembro-me de tanto mais… Mas isso sou eu, que procuro ver as nossas aldeias com outros olhos. E, em Montesinho, moram, pelo menos, 800 anos anos consecutivos de História documentada… O que dá para muita “scritura”…
Por acaso já se atreveu a ir a Montesinho?
(Foto 1: Rua em Montesinho – Aldeias de Portugal)
(Foto 2: Igreja de Montesinho – C. M. Bragança)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.


Sem comentários:
Enviar um comentário