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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Jogo do Fito… e outros jogos


 Os jogos tradicionais de Trás-os-Montes fazem parte de um património cultural rico e profundamente ligado à vida comunitária e rural da região. Nascidos da simplicidade do quotidiano, aproveitando materiais do campo e das aldeias, estes jogos eram formas de convívio, de lazer e também de destreza física e mental. Muitos deles eram praticados em festas, romarias ou simplesmente nos tempos livres, reunindo crianças, jovens e adultos em torno de desafios cheios de alegria e rivalidade saudável.

O Fito é um dos mais conhecidos. Consiste em lançar pedras ou discos metálicos, contra um pino (20) ou anilhas, para um pequeno ferro espetado no chão. O objetivo é derrubar o fito ou colocar a anilha o mais próximo possível. Exige concentração, pontaria e força no gesto. Era e é um momento de convívio, jogado muitas vezes à porta das tabernas ou em descampados.

Outro jogo típico é a Relha, também chamada “jogo da relha do arado”. Aqui, utilizava-se a própria peça metálica do arado (a relha), que era lançada em força para se enterrar no solo. O desafio era ver quem conseguia cravá-la mais fundo ou a uma maior distância. Era um jogo que refletia a ligação dos transmontanos à terra e ao trabalho agrícola, transformando um instrumento de lavoura em peça de lazer e competição.

Além destes, existiam muitos outros jogos:

O Jogo da Malha ou “chinquilho”, semelhante ao fito, mas jogado com discos pesados que se lançavam para derrubar um pino metálico.

O Jogo do Pau, praticado com varas longas, que tinha tanto de lúdico como de treino físico e até marcial.

O Jogo da Barra, onde se lançava uma barra de ferro o mais longe possível, numa demonstração de força e destreza.

A Cabra-Cega, o Rabo da Raposa e outros jogos de roda e perseguição, muito praticados pelas crianças.

Estes jogos tradicionais transmitiam valores de partilha, reforçavam os laços da comunidade e representavam a criatividade de um povo que, com poucos recursos, sabia inventar formas de se divertir. Hoje, muitos deles são reavivados em festas populares e encontros culturais, como forma de manter viva a memória e a identidade transmontana.

Em Trás-os-Montes, os jogos tradicionais eram o pulsar da vida comunitária, o elo entre gerações e a prova de que a alegria simples bastava para encher os dias. Nas tardes quentes de verão ou nos domingos depois da missa, era comum ver-se a roda de homens e rapazes junto ao largo, enquanto as mulheres observavam e comentavam, entre gargalhadas e picardias.

O fito era rei nesses encontros. O som seco da anilha a bater no ferro marcava o silêncio do campo, seguido de aplausos ou de protestos ruidosos. Havia quem jogasse com a calma da experiência, outros com a impetuosidade da juventude, mas todos partilhavam a mesma emoção, a espera ansiosa de ver se a sorte e a pontaria lhes sorririam.

Já a relha era um jogo de força e de engenho. Lançar ao chão aquela peça do arado, transformada em brinquedo, era quase um gesto simbólico, como se o lavrador, cansado da dureza da terra, encontrasse no jogo uma forma de celebrar a sua ligação a ela. Cada arremesso levantava poeira e arrancava exclamações de admiração, num ritual que parecia unir o suor do trabalho à alegria da festa.

E havia ainda as malhas, as barras, os jogos de roda das crianças, todos eles feitos de pedra, ferro ou madeira, matérias-primas do quotidiano rural. Nada de plástico, nada de luxo, apenas a imaginação e a vontade de estar juntos.

Esses jogos eram encontros de corpos e de almas. Ali, na simplicidade da aldeia, os homens mediam forças e destrezas, mas também teciam laços. Ganhava-se e perdia-se, mas o que realmente ficava era o riso partilhado, a memória de uma comunidade que sabia fazer da dureza da vida um motivo de união.

Hoje, ao recordá-los, é como ouvir novamente o som da anilha no ferro, o estrondo da relha a cravar-se no chão, as vozes ecoando no largo da aldeia. São lembranças que não se apagam, são pedaços da alma transmontana, guardados na memória como quem guarda um tesouro.

HM

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