Os jogos tradicionais de Trás-os-Montes fazem parte de um património cultural rico e profundamente ligado à vida comunitária e rural da região. Nascidos da simplicidade do quotidiano, aproveitando materiais do campo e das aldeias, estes jogos eram formas de convívio, de lazer e também de destreza física e mental. Muitos deles eram praticados em festas, romarias ou simplesmente nos tempos livres, reunindo crianças, jovens e adultos em torno de desafios cheios de alegria e rivalidade saudável.
O Fito é um dos mais conhecidos. Consiste em lançar pedras ou discos metálicos, contra um pino (20) ou anilhas, para um pequeno ferro espetado no chão. O objetivo é derrubar o fito ou colocar a anilha o mais próximo possível. Exige concentração, pontaria e força no gesto. Era e é um momento de convívio, jogado muitas vezes à porta das tabernas ou em descampados.
Outro jogo típico é a Relha, também chamada “jogo da relha do arado”. Aqui, utilizava-se a própria peça metálica do arado (a relha), que era lançada em força para se enterrar no solo. O desafio era ver quem conseguia cravá-la mais fundo ou a uma maior distância. Era um jogo que refletia a ligação dos transmontanos à terra e ao trabalho agrícola, transformando um instrumento de lavoura em peça de lazer e competição.
Além destes, existiam muitos outros jogos:
• O Jogo da Malha ou “chinquilho”, semelhante ao fito, mas jogado com discos pesados que se lançavam para derrubar um pino metálico.
• O Jogo do Pau, praticado com varas longas, que tinha tanto de lúdico como de treino físico e até marcial.
• O Jogo da Barra, onde se lançava uma barra de ferro o mais longe possível, numa demonstração de força e destreza.
• A Cabra-Cega, o Rabo da Raposa e outros jogos de roda e perseguição, muito praticados pelas crianças.
Estes jogos tradicionais transmitiam valores de partilha, reforçavam os laços da comunidade e representavam a criatividade de um povo que, com poucos recursos, sabia inventar formas de se divertir. Hoje, muitos deles são reavivados em festas populares e encontros culturais, como forma de manter viva a memória e a identidade transmontana.
Em Trás-os-Montes, os jogos tradicionais eram o pulsar da vida comunitária, o elo entre gerações e a prova de que a alegria simples bastava para encher os dias. Nas tardes quentes de verão ou nos domingos depois da missa, era comum ver-se a roda de homens e rapazes junto ao largo, enquanto as mulheres observavam e comentavam, entre gargalhadas e picardias.
O fito era rei nesses encontros. O som seco da anilha a bater no ferro marcava o silêncio do campo, seguido de aplausos ou de protestos ruidosos. Havia quem jogasse com a calma da experiência, outros com a impetuosidade da juventude, mas todos partilhavam a mesma emoção, a espera ansiosa de ver se a sorte e a pontaria lhes sorririam.
Já a relha era um jogo de força e de engenho. Lançar ao chão aquela peça do arado, transformada em brinquedo, era quase um gesto simbólico, como se o lavrador, cansado da dureza da terra, encontrasse no jogo uma forma de celebrar a sua ligação a ela. Cada arremesso levantava poeira e arrancava exclamações de admiração, num ritual que parecia unir o suor do trabalho à alegria da festa.
E havia ainda as malhas, as barras, os jogos de roda das crianças, todos eles feitos de pedra, ferro ou madeira, matérias-primas do quotidiano rural. Nada de plástico, nada de luxo, apenas a imaginação e a vontade de estar juntos.
Esses jogos eram encontros de corpos e de almas. Ali, na simplicidade da aldeia, os homens mediam forças e destrezas, mas também teciam laços. Ganhava-se e perdia-se, mas o que realmente ficava era o riso partilhado, a memória de uma comunidade que sabia fazer da dureza da vida um motivo de união.
Hoje, ao recordá-los, é como ouvir novamente o som da anilha no ferro, o estrondo da relha a cravar-se no chão, as vozes ecoando no largo da aldeia. São lembranças que não se apagam, são pedaços da alma transmontana, guardados na memória como quem guarda um tesouro.


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