(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Creio que poucos terão noção da efectiva importância dos Bragançãos. Por vezes, parece-me que, na visão da maioria, não passarão de umas figuras curiosas, que estão lá muito para trás, ocultadas pela «cartilha» da historiografia tradicional, centrada no eixo litoral, e demasiado vocacionada para tornar perene o que uma certa escola historiográfica do «Estado Novo» foi implementando… O que estranho é, em tempos de «Liberdade»… E os Bragançãos sempre foram colocados numa gaveta inacessível, vendidos como uns «quase atrasados e selvagens», que até «roubaram» bens reguengos, ou seja, propriedades ou territórios que eram dos reis e, como tal, da nação, «una e indivisível»… «Ladrões» dos Bragançãos!
Depois, mesmo na sua região, tudo parece não passar de uma bonita história, com foros de lenda, que inclui o rapto de uma tal de princesa arménia, que até se hospedou no Mosteiro de Castro de Avelãs quando o mosteiro ainda não existia, sequer… Mas até parece que é bonita a possibilidade de um frade raptar uma princesa que iria em peregrinação a Santiago de Compostela e… pimba! Lá nasceram os Bragançãos de um tal de Alão que registado não está em lado algum… A não ser em Nobiliários escritos uns séculos depois do pretenso rapto. Tinham boa memória os linhagistas…
Para lá de todas estas iniciais histórias demasiadamente rebuscadas acerca da origem dos nossos Bragançãos, motivadas, veja-se lá, pela forma como D. Dinis, já em finais do século XIII, afrontou a Nobreza tradicional, outras histórias (e História) há, perfeitamente verificáveis, e justificáveis. E para quem, como este que convosco vai partilhando uns «disparates», ande há mais de 30 anos a rebuscar os ditos Bragançãos, causar-lhe-á alguns pruridos e um certo desconforto, continuar a assistir a falácias atrás de falácias, sempre com os ditos Bragançãos em segundo plano, quando mais de metade da História de Portugal, tal como a conhecemos, não existiria sem os ditos Bragançãos e a vasta prole que por cá deixaram. “Que mai fai”?...
E vem isto, hoje, a propósito de continuar a deparar-me com menções a doações feitas por reis, ou acções aos mesmo atribuídas, quando as mesmas foram levadas a cabo por membros dos Bragançãos. Nada me move contras as nossas dinastias, desde a de Borgonha até à de Bragança (“bá”, os “F’lipes, cous’i tale”…). O que me move, mesmo, é a veracidade dos factos, bem como a exposição de uma História, na região que também é a minha, na qual se continua a acreditar nas falácias de que os Mouros por cá andaram, que somos Lusitanos, ou que pertencemos ao Condado Portucalense… É mais fácil persistirmos em ser os «coitadinhos», ou “queitadinhus’e”, como diria a “nh’ábó Maria”, sem orgulho próprio, nem na grandiosa História de que somos detentores, do que encarar o facto de possuirmos uma História muito diferente daquela que os manuais persistem em vender…
E “prôntus’e”… Enquanto persistir esta «treta» de remeter as minhas terras às «gavetas do olvido», como se aqui tivessem sido plantadas tardiamente, “num se me fetch’á matraca”. “Pr’ós que quijerim, já que m’ássim’e”…
(Foto: SIPA)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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