(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Um certo dirigente político da nossa praça, incapaz de o assumir diretamente, mandou espalhar por este nosso Portugal, cartazes para, dissimuladamente, dizer algo bem diferente do que ali estava escrito. Não satisfeito com o protagonismo obtido veio, por ocasião do Natal, “desafiar” os portugueses para assumirem claramente os nossos valores e cultura, concretamente, os valores cristãos de Portugal e da Europa.
Este apelo tem tudo para chegar ao coração dos habitantes de uma velha nação de cariz judaico-cristã, fundada na Reconquista do território ocupado, alguns séculos antes, pela moirama. Porém o pedido, tal como as polémicas mensagens, não resiste a uma análise séria e rigorosa.
Os valores cristãos não são propriedade de Portugal nem da Europa, mas, para ser preciso, têm a sua origem no Médio Oriente, na mesma região dos valores religiosos que, supostamente, se pretende combater, com semelhante rogo.
Mas, mais do que a origem, é imperioso olhar para os mesmos e, sobretudo para o seu conteúdo, significado e compromisso. Sucedâneo do judaísmo, o cristianismo, a par da abertura e inclusão de pessoas de religiões e tradições distintas, brilhantemente expressas nas epístolas de S. Paulo de Tarso, veio acrescentar aquele a glorificação das atitudes humanistas, nomeadamente a trilogia pregada e exaltada por Jesus de Galileia: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede e dar abrigo aos que têm frio. Sejam eles quem forem: aldeanos ou ciganos, africanos, brasileiros ou indostânicos.
Haverá, neste pedido, um recuo naquilo que tem sido o guião xenófobo de quem combate os mais humildes e necessitados da nossa sociedade atual?
Não creio.
Ao apelo para a defesa das tradições cristãs só me ocorre remeter para o próprio Jesus Cristo que alerta para os lobos com pele de cordeiro capazes de enganar até os escolhidos (Mateus 7:15 e Marcos 13:22). A única forma de os detetar e desmascarar passa pela análise das ações. É pelos frutos que se conhecem as árvores.
Mas se quisermos ser um pouco mais refinados, conhecendo os protagonistas, talvez seja adequado citar, o escritor britânico preferido do papa Francisco, tão citado por todos os dirigentes políticos, sejam de direita ou de esquerda. O romancista Chestertone garantia que todos os males procedem de alguma tentativa de superioridade pois por contraponto à maior virtude, a humildade, o pecado mais daninho é a soberba.
Reside, ainda segundo a Bíblia, na sobranceria, a origem de Satanás que sendo um anjo virtuoso e poderoso, tendo-se deixado tomar pela jactância e vaidade, rebelou-se contra Deus e, por essa razão, foi expulso do Paraíso juntamente com vários outros anjos, seus seguidores.
Para quem queira, de boa fé, dar relevo e substância aos valores cristãos da nossa civilização ocidental, devendo pautar-se pela solidariedade com os mais desfavorecidos, sem olhar a credo nem religião, não pode deixar de ficar atento a quantos com falinhas mansas e interpretações dúbias pretendem atirar-nos para caminhos ínvios e opostos aos pregados por Jesus e seus Apóstolos há dois milénios atrás.
José Mário Leite, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

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