Todos os anos é escolhida uma pessoa da terra para encarnar a figura de um rei que organiza a festa que traz consigo uma coroa carregada de ouro emprestado pelos habitantes, que vale milhares de euros.
Mas as tradições fora do comum não se ficam por aqui. Algumas crianças (cada vez menos) andam pelas ruas com maços de tabaco e, excecionalmente, têm permissão para fumar, mas durante os dois dias que dura a festa, que já começou, ontem.
Acompanhamos, ao início da noite desta segunda-feira, a primeira arruada com os gaiteiros e o Rei da festa a entregar 650 quilos de tremoços e 150 litros de vinho distribuído à população numa cabaça tradicional.
REPORTAGEM
Início da noite de segunda-feira, 5 de janeiro, temperatura a rondar os zero graus, Rogério Fialho, natural da aldeia de Vale de Salgueiro, mas a residir em Mirandela, escolhido para ser o Rei da festa, comanda um grupo de tocadores de gaitas de fole, caixas e bombos – são os “Encharca o fole”, um grupo da terra – e preparam-se para dar início às festividades que duram dois dias. Rogério não disfarça a felicidade de ser rei da festa deste ano. “É a minha vez, graças a Deus”, refere. “Para mim é uma tradição desde garoto. É uma festa incrível e sempre que posso, estou sempre cá”, afirma.
Está tudo a postos para começar a arruada pela aldeia que vai levar o Rei e acompanhantes a visitar todas as casas para distribuir pelos habitantes mais de uma centena de litros de vinho em cabaças tradicionais e centenas de quilos de tremoços a desejar as boas festas. “Comprei 650 quilos de tremoços, tenho 150 litros de vinho, e vais ser até gastar tudo. Dou o jantar aos gaiteiros, pequeno-almoço e almoço”, acrescenta.
Os gaiteiros e os bombos anunciam a chegada do Rei e as portas das casas de Vale de Salgueiro já estão abertas para receber Rogério Fialho, como é o caso da família de Agripino Rebordão. “É uma tradição para cumprir, que une o povo e que deve manter-se viva”, diz este habitante que ainda não vestiu a pele de Rei, mas não perde a esperança. “Ainda conto ser Rei um ano”, afirma convicto.
A visita às casas da aldeia prolonga-se durante toda a noite. Atrás dos gaiteiros, costumam seguir algumas crianças e jovens que vão fumando cigarros, que, excecionalmente, têm permissão dos próprios pais para fumar. Mas, este ano, havia poucos.
Ninguém sabe ao certo como e quando começou esta estranha tradição, nem o que ela possa significar, mas há relatos escritos que indicam ser para simbolizar a emancipação dos jovens.
Uma tradição que o próprio Rei da festa também cumpriu quando era mais novo, mas Rogério prefere desdramatizar este acontecimento sempre muito mediatizado, da pior forma, acrescenta. Rogério Fialho prefere valorizar “a figura do Rei, a feste e o convívio entre todos”, conta.
Hoje, dia de Reis, começou bem cedo, com o Rei a ostentar uma coroa revestida a veludo e adornada de objetos em ouro – emprestado pelos habitantes, símbolo de riqueza e poder – volta a percorrer a aldeia para receber a “manda”, ou seja, os donativos para custear a despesa da festa.
A festa acaba com a celebração da missa, onde acontece a cerimónia de entronização e passagem do testemunho. O rei retira a coroa e coloca-a no novo “monarca” que vai organizar a festa em 2027.

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