(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
| Praça da Sé - Presépio 2018 - APADI |
Surpreendidos os pastores que àquela hora se preparavam para dormirem, após meterem as ovelhas no redil que os apriscos de montanha lhes proporcionavam, tomaram alguns cordeiros jovens e colocando-os às costas, partiram para a cabana onde a estrela que brilhava esplendorosamente lhes indicava da vinda do Deus Menino que chegara como rezavam as Escrituras dos Profetas de Israel. O (Evangelho de Mateus/1 / 2) diz que os Três Reis do Oriente chegaram e perguntaram pelo Rei dos Judeus, recém nascido a quem eles queriam visitar e oferecer presentes dignos da sua Realeza; Ouro, Incenso e Mirra.
É a partir desta história lindíssima que o povo cristão e muito particularmente o povo transmontano funda a tradição dos presentes de Natal que o Menino Jesus na noite de 24 de Dezembro descendo a casa dos meninos e meninas que se haviam portado bem, lhes deixava no seu sapatinho, que as mais das vezes estava roto e cambado, qualquer coisa como uma compensação pelo zelo demonstrado e pelo empenho em seguir a doutrina que Ele tão veementemente pregara e que era essencialmente de amor ao próximo e de despojamento dos bens materiais, tão bem descritos na parábola que diz: -Mais facilmente passará um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrará no Reino dos Céus!
Todas estas coisas eu associava às imagens que o presépio montado na Sé tornava compreensíveis e me preparavam para uma infância de crença absoluta que cedeu lugar a um ceticismo nunca completamente realizado e que hoje é uma dúvida carregada de beleza! Agradeço ao meu povo o facto de ter criado tanta maneira bonita de contar uma história que se não é verdadeira, é pelo menos maravilhosa.
Ora nesse Natal que me fascinou quando eu teria cinco ou seis anos também aconteceu um milagre, algo que a minha inocência assimilou como coisa natural e cuja explicação vinda de quem veio não dava margem a dúvidas ou suposições que tomassem o lugar de uma verdade dita por quem reunia em si todos os predicados para ser a figura escolhida por um Menino Deus que não tendo com que cumprir um ato de importância total para com os mais humildes se socorresse do auxílio que o pouco de uma criatura fosse suficiente para lhe tirar o embaraço de deixar sem prenda a quem tanto e tão indubitavelmente cria que Ele jamais se esqueceria de presentear.
Afinal quem esperava a vinda do Jesus era eu próprio e como sempre iria acontecer ao longo da minha vida apenas começada, jamais o que recebi foi o muito mas sim o pouco que foi sempre suficiente. Mais tarde aprendi que Abraão respondeu ao filho que lhe perguntou pelo cordeiro para o sacrifício: -Deus proverá, e ditas estas palavras o animal para imolar apareceu balindo preso à sarça que o ocultava. Nessa noite de Natal no tempo em que na minha rua os meninos esperavam pelo outro Menino Deus para receberem o que sabiam ser muito pouco, mas o pouco que eles consideravam muito.
Eu depois de deixar o sapato na lareira da cozinha da minha casa na Caleja, adormeci como adormecem as crianças, sem pesos que me cansassem ou culpas para expiar e profundamente adormecido sonhei com Ele que viria para me dar sinal de Si e fazer-me crer que eu criança era um dos que ele amava e naquela noite mágica abençoaria como um pai naqueles tempos doutros usos, abençoava o filho que lhe pedisse a bênção; -Que Deus te abençoe!
Passou a noite que se havia iniciado com o jantar de Consoada, outro uso desta minha gente, que nas suas diversas formas de honrar a Deus inventou uma ceia de Consoada digna de um manjar de Rei! A sequência todos a conheceremos, entrada de couve, rabas e bacalhau, polvo a seguir e depois filhoses e rabanadas, que Bolo Rei nesse tempo era coisa desconhecida dos pequenos.
Chega então a manhã e depois de esfregar os olhos, levantei-me e sorrateiramente fui ver o que o Menino Deus me deixara no sapato. Não que eu esperasse coisa larga, mas do Menino Deus há sempre a possibilidade de nos virem coisas inesperadamente boas. Um pouco volumoso pacote de papel continha, alguns figos secos, nozes e amêndoas e no topo, na abertura um pai natal de chocolate! Era eu ainda muito pequeno para não ficar contente, mas já tinha entendimento bastante para comparar! Eu já havia comido daqueles figos, daquelas nozes e amêndoas! Tinha-mos dado a minha amiga tia Maria Mónica de quem já tive ocasião de vos dar notícia. Eram a sua riqueza que ela repartia com a garotada da nossa rua e que eu por experiência alargada não deixaria de reconhecer.
Depois de analisar a situação e no quase resvalar para a desilusão, dirigi-me à minha mãe e disse-lhe que o pai natal achava eu, era do Pousa, mas, os figos, as nozes e as amêndoas, eram iguais às que a tia Maria Mónica me havia dado não muitos dias atrás.
A minha mãe olhou para mim incrédula e respondeu-me: -Pode dar-se que Jesus lhe haja pedido a ela que lhe cedesse daqueles que ela guardava pela simples razão de serem muitos meninos para contemplar e se lhe haverem esgotado sem que todos tivessem a sua parte.
Duvidoso esperei pela hora do almoço, já que ela, a tia Mónica viria almoçar connosco como era hábito. A minha mãe entretanto fez-lhe saber do caso e ela quando a abordei como mulher de serena lucidez que era disse-me: -Estamos ambos na Graça do Senhor, quando ontem à noite, já na cama, rezava as minhas orações vi na parede em frente a Imagem Sagrada de Jesus Menino. Tinha o rosto mais belo que eu já vi e falou-me com uma voz tão doce que nem a dos anjos! Disse-me: -Maria, sei que me podes ajudar, pois tens aí guardados alguns figos secos, nozes e amêndoas. A mim esgotaram-se-me os presentes, restando-me apenas alguns pais Natal que sobraram pois me abasteci no Pousa onde não faltavam. Por isso peço-te que me cedas o que te pedi, dado faltarem alguns meninos e eu não dever deixá-los sem prenda. Levantei-me e dei-lhe tudo o que tinha guardado, tendo-me Ele garantido que na próxima colheita me dará das três espécies destes frutos o dobro daqueles que eu Lhe entreguei! Não achas que fiz bem?
O meu espanto foi o que todos vós podeis imaginar. Sabia que ela vencera o Diabo/Belzebú na Ponte Nova do Sabor, mas que tivera conversa com Jesus Menino, soube-o naquela manhã de Natal à hora do almoço.
Enquanto a refeição decorreu não retirei o meu olhar da sua face. Parecia-me ver um halo de santidade à volta do rosto daquela Santa Mulher a quem O filho de Deus se dirigira para me presentear com a sua natural riqueza, os frutos da terra que Javé seu pai havia ordenado aos filhos de Israel: -Não farás uma segunda volta na colheita, o que não colheste será para os pobres que assim saciarão a sua fome, bem assim como os animais da Criação.(Deutereómio 24 :19 ) bem assim como os animais da Criação. -Quantas coisas belas aprendi com esta Mulher que era um farol que brilhou na escuridão da mente de tanta gente que naufragava na procela das suas vidas e se iluminaram na sua pureza de sentimentos.
Todos encontraram a resignação nobre que conduz à paz interior, na força que se intuía da sua figura frágil, gasta nos sóis e nas luas passadas ao relento, numa sina de purificação permanente.
Um Natal na minha Infância.
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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