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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O meu primeiro e autêntico Natal

Por: António Orlando dos Santos 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Praça da Sé - Presépio 2018 - APADI
Na primeira metade da década de 50 do século passado, teria eu cinco ou seis anos, havia azáfama de Natal na minha rua. Repercutia-se esta azáfama em minha casa e nas outras que eram os lares dos rapazes e raparigas, que como eu, ainda não distinguiam a realidade que era nua e crua, da fábula que incluía, um burrico, uma vaquinha e muitas ovelhas e cordeirinhos, bem assim como anjos que descendo do céu cantavam maviosamente, lindas canções que se ouviam nos prados e nas elevações de um abrigo para o gado em pastoreio naquela terra de Belém na Judeia. Melodias cantadas com "vozes argentinas" que anunciavam o nascimento do Messias, Redentor!
Surpreendidos os pastores que àquela hora se preparavam para dormirem, após meterem as ovelhas no redil que os apriscos de montanha lhes proporcionavam, tomaram alguns cordeiros jovens e colocando-os às costas, partiram para a cabana onde a estrela que brilhava esplendorosamente lhes indicava da vinda do Deus Menino que chegara como rezavam as Escrituras dos Profetas de Israel. O (Evangelho de Mateus/1 / 2) diz que os Três Reis do Oriente chegaram e perguntaram pelo Rei dos Judeus, recém nascido a quem eles queriam visitar e oferecer presentes dignos da sua Realeza; Ouro, Incenso e Mirra.
É a partir desta história lindíssima que o povo cristão e muito particularmente o povo transmontano funda a tradição dos presentes de Natal que o Menino Jesus na noite de 24 de Dezembro descendo a casa dos meninos e meninas que se haviam portado bem, lhes deixava no seu sapatinho, que as mais das vezes estava roto e cambado, qualquer coisa como uma compensação pelo zelo demonstrado e pelo empenho em seguir a doutrina que Ele tão veementemente pregara e que era essencialmente de amor ao próximo e de despojamento dos bens materiais, tão bem descritos na parábola que diz: -Mais facilmente passará um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrará no Reino dos Céus! 
Todas estas coisas eu associava às imagens que o presépio montado na Sé tornava compreensíveis e me preparavam para uma infância de crença absoluta que cedeu lugar a um ceticismo nunca completamente realizado e que hoje é uma dúvida carregada de beleza! Agradeço ao meu povo o facto de ter criado tanta maneira bonita de contar uma história que se não é verdadeira, é pelo menos maravilhosa.
Ora nesse Natal que me fascinou quando eu teria cinco ou seis anos também aconteceu um milagre, algo que a minha inocência assimilou como coisa natural e cuja explicação vinda de quem veio não dava margem a dúvidas ou suposições que tomassem o lugar de uma verdade dita por quem reunia em si todos os predicados para ser a figura escolhida por um Menino Deus que não tendo com que cumprir um ato de importância total para com os mais humildes se socorresse do auxílio que o pouco de uma criatura fosse suficiente para lhe tirar o embaraço de deixar sem prenda a quem tanto e tão indubitavelmente cria que Ele jamais se esqueceria de presentear.
Afinal quem esperava a vinda do Jesus era eu próprio e como sempre iria acontecer ao longo da minha vida apenas começada, jamais o que recebi foi o muito mas sim o pouco que foi sempre suficiente. Mais tarde aprendi que Abraão respondeu ao filho que lhe perguntou pelo cordeiro para o sacrifício: -Deus proverá, e ditas estas palavras o animal para imolar apareceu balindo preso à sarça que o ocultava. Nessa noite de Natal no tempo em que na minha rua os meninos esperavam pelo outro Menino Deus para receberem o que sabiam ser muito pouco, mas o pouco que eles consideravam muito. 
Eu depois de deixar o sapato na lareira da cozinha da minha casa na Caleja, adormeci como adormecem as crianças, sem pesos que me cansassem ou culpas para expiar e profundamente adormecido sonhei com Ele que viria para me dar sinal de Si e fazer-me crer que eu criança era um dos que ele amava e naquela noite mágica abençoaria como um pai naqueles tempos doutros usos, abençoava o filho que lhe pedisse a bênção; -Que Deus te abençoe! 
Passou a noite que se havia iniciado com o jantar de Consoada, outro uso desta minha gente, que nas suas diversas formas de honrar a Deus inventou uma ceia de Consoada digna de um manjar de Rei! A sequência todos a conheceremos, entrada de couve, rabas e bacalhau, polvo a seguir e depois filhoses e rabanadas, que Bolo Rei nesse tempo era coisa desconhecida dos pequenos.
Chega então a manhã e depois de esfregar os olhos, levantei-me e sorrateiramente fui ver o que o Menino Deus me deixara no sapato. Não que eu esperasse coisa larga, mas do Menino Deus há sempre a possibilidade de nos virem coisas inesperadamente boas. Um pouco volumoso pacote de papel continha, alguns figos secos, nozes e amêndoas e no topo, na abertura um pai natal de chocolate! Era eu ainda muito pequeno para não ficar contente, mas já tinha entendimento bastante para comparar! Eu já havia comido daqueles figos, daquelas nozes e amêndoas! Tinha-mos dado a minha amiga tia Maria Mónica de quem já tive ocasião de vos dar notícia. Eram a sua riqueza que ela repartia com a garotada da nossa rua e que eu por experiência alargada não deixaria de reconhecer.
Depois de analisar a situação e no quase resvalar para a desilusão, dirigi-me à minha mãe e disse-lhe que o pai natal achava eu, era do Pousa, mas, os figos, as nozes e as amêndoas, eram iguais às que a tia Maria Mónica me havia dado não muitos dias atrás.
A minha mãe olhou para mim incrédula e respondeu-me: -Pode dar-se que Jesus lhe haja pedido a ela que lhe cedesse daqueles que ela guardava pela simples razão de serem muitos meninos para contemplar e se lhe haverem esgotado sem que todos tivessem a sua parte.
Duvidoso esperei pela hora do almoço, já que ela, a tia Mónica viria almoçar connosco como era hábito. A minha mãe entretanto fez-lhe saber do caso e ela quando a abordei como mulher de serena lucidez que era disse-me: -Estamos ambos na Graça do Senhor, quando ontem à noite, já na cama, rezava as minhas orações vi na parede em frente a Imagem Sagrada de Jesus Menino. Tinha o rosto mais belo que eu já vi e falou-me com uma voz tão doce que nem a dos anjos! Disse-me: -Maria, sei que me podes ajudar, pois tens aí guardados alguns figos secos, nozes e amêndoas. A mim esgotaram-se-me os presentes, restando-me apenas alguns pais Natal que sobraram pois me abasteci no Pousa onde não faltavam. Por isso peço-te que me cedas o que te pedi, dado faltarem alguns meninos e eu não dever deixá-los sem prenda. Levantei-me e dei-lhe tudo o que tinha guardado, tendo-me Ele garantido que na próxima colheita me dará das três espécies destes frutos o dobro daqueles que eu Lhe entreguei! Não achas que fiz bem? 
O meu espanto foi o que todos vós podeis imaginar. Sabia que ela vencera o Diabo/Belzebú na Ponte Nova do Sabor, mas que tivera conversa com Jesus Menino, soube-o naquela manhã de Natal à hora do almoço.
Enquanto a refeição decorreu não retirei o meu olhar da sua face. Parecia-me ver um halo de santidade à volta do rosto daquela Santa Mulher a quem O filho de Deus se dirigira para me presentear com a sua natural riqueza, os frutos da terra que Javé seu pai havia ordenado aos filhos de Israel: -Não farás uma segunda volta na colheita, o que não colheste será para os pobres que assim saciarão a sua fome, bem assim como os animais da Criação.(Deutereómio 24 :19 ) bem assim como os animais da Criação. -Quantas coisas belas aprendi com esta Mulher que era um farol que brilhou na escuridão da mente de tanta gente que naufragava na procela das suas vidas e se iluminaram na sua pureza de sentimentos.
Todos encontraram a resignação nobre que conduz à paz interior, na força que se intuía da sua figura frágil, gasta nos sóis e nas luas passadas ao relento, numa sina de purificação permanente.

Um Natal na minha Infância.






A. O. dos Santos
(Bombadas)

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