sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O SACO DE SER UM DESEMPREGADO E JOSÉ DO EGITO

Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
São Paulo (Brasil)
(colaborador do Memórias...e outras coisas)


É um saco ser um desempregado, mas propicia algumas possibilidades impensáveis ao tempo em que trabalhava.

Os semblantes das pessoas desempregadas
numa praça de São Paulo, falam por si
Embora preferisse estar trabalhando, estou chegando à conclusão que posso viver desse jeito, de desempregado; em que pese o fato de que agora consumimos alimentos mais baratos e deixei de ir, há muito, em teatros e cinemas (adoro); muito menos aos campos de futebol, que gosto muito também. Livrarias como a CULTURA e a FNAC não veem minha cara há pelo menos sete anos; mas se deixei de comprar livros, passei a exercitar a escrita muito mais. Tenho três ou quatro livros prontos para publicação, mas nesses tempos bicudos de Brasil, depois do tsunami dos petralhas, as editoras também estão em crise; algumas estão em regime falimentar, outras não se atrevem a publicar se não houver a mínima esperança de retorno monetário, quanto ao projeto de novos livros. E as editoras mentem; tal como a maioria dos políticos; não importa quando fazemos contato com as editoras, elas sempre estão com projetos já fechados para o ano corrente ou o ano vindouro. Lérias! Existem 1001 editoras que publicam qualquer coisa, de qualquer um, sem análise e sem fazer rodeios; basta que o escritor pague pelo serviço. Já fiz contatos nesses últimos sete anos em todos os meses do ano. NUNCA estão recebendo material para análise; embora publiquem escritores estrangeiros totalmente desconhecidos, por terem feito ”acordo” com as editoras internacionais; para publicarem um "best-seller", aceitam meia dúzia de autores medíocres, de classe “C” para também publicar, com prejuízo para os escritores nacionais. A parte boa do ócio, é que posso me dedicar à literatura que, além de me salvar da preguiça mental, me incentiva a ler, mesmo na internet, alguns clássicos que não havia lido em tenra idade ou quando me tornei adulto. Posso afirmar aos leitores que, hoje sou mais versado em literatura do que há dez anos e meu conhecimento literário cresceu exponencialmente, se comparar com meu conhecimento no começo do século atual. É um saco ser um desempregado, mas propicia algumas possibilidades impensáveis ao tempo em que trabalhava.

Na minha condição de desempregado, percebo que o desemprego não nos dá exatamente certo conforto, nem nos desloca até uma zona de desconforto, parece-me que há uma segurança se ficarmos na mesmice; uma certeza aparente de que tudo fica e ficará exatamente como está. A solidão do desempregado também vale a pena, às vezes, pois ela espanta os parentes interesseiros, os falsos amigos e os ex-colegas traíras. A oportunidade se faz, e assim ainda ajudo na manutenção da casa, ajudando a mantê-la limpa. E a não desagradar a Deus com pedidos aborrecedores. Além disso, eu ainda consigo fazer três refeições por dia, ainda que sejam frugais; pago as taxas de água, luz, IPTU, gás e licença para o carro da família. Assim, sinto em minha casa a presença de Deus e dos meus santos devotos além do Amabiel, meu anjo da guarda. Vou à agência do banco, a pé, uma vez por semana; o quê me propicia fazer uma caminhada de 45 minutos: a ida em declive e volta em aclive! Preparo, todos os dias, o café da manhã para mim e esposa, após, vou ver as correspondências de e-mail, pesquisar folclore nacional ou internacional, escrevo um pouco, leio algum clássico da literatura que não havia lido no passado ou repasso a leitura de Sagarana (Guimarães Rosa), Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro (Machado de Assis), Amadeu Amaral, Silvio Romero ou Cornélio Pires, por exemplo. Assisto um pouco de TV (jornais e um ou outro capítulo de novelas, ou algum filme), faço contatos e aguardo o retorno, que nunca chega! Vez ou outra publico um texto em blog de Portugal, que aceitou de bom grado meus textos simplórios e cheios de energia, inclusive alguns textos escritos em Caipirês. A energia que uso nos escritos, é a mesma em que me apoiava para suportar pressões de chefes e gerentes; que desconheciam como tratar um ser humano, além dos buyling que sofria de colegas mais jovens, principalmente; por eu nunca ter ido aos EUA ou à Europa, por exemplo. Lembrei-me do Ariano Suassuna que, numa palestra, disse que certa vez, ao visitar um amigo, à convite, ouviu da esposa dele que não era possível ele nunca ter ido à Disney. Suassuna disse que, para aquela mulher, o mundo se dividia em pessoas que já tinham ido à Disney e as pessoas que nunca tinham ido à Disney.

Lembro José do Egito: além de dar a José o dom de interpretar sonhos, Deus também lhe concedeu sabedoria para que ele apresentasse um plano para o Faraó, a fim de que o Egito conseguisse superar os sete anos de crise. O Faraó então colocou José como segundo homem do Egito, abaixo apenas dele (Gênesis 41:41).

-Tal como José do Egito, na passagem bíblica, já tive os meus sete anos de tristezas (fome), começa neste mês de julho de 2019 os sete anos de alegria (fartura). 

Oxalá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Às vezes, nós fazemos um esboço para nossa vida; mas vem o destino e o altera, sobremaneira!

ACAS, JULHO DE 2019


Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de quatro outros publicados em antologias junto a outros escritores.

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