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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 13 de novembro de 2022

O que procurar no Outono: o bordo

 Esta árvore nativa de incrível beleza, que pode crescer até aos 30 metros, veste-se agora de cores especiais e presenteia-nos com os seus curiosos frutos. Carine Azevedo desafia-nos a partirmos à sua descoberta.

Foto: MurielBendel/Wiki Commons

O outono é sinónimo de transformação. As folhas de algumas árvores, antes de caírem sobre o solo, mudam de cor, passando do verde para uma paleta de amarelos e castanhos, a que se juntam tons de vermelho, laranja e roxo.

Simultaneamente, é nesta estação que algumas espécies nos brindam com os seus frutos, como acontece com os áceres, os liquidambares, os amieiros, os plátanos, os carvalhos e tantos outros, todos eles com formas bem peculiares.

O bordo (Acer pseudoplatanus) é exemplo de uma árvore de incrível beleza em qualquer época do ano, mas que no outono se “veste” de cores especiais e nos presenteia com os seus curiosos frutos, que se mantêm na árvore mesmo depois da queda total das folhas.  Vamos conhecer melhor esta espécie nativa. 

Foto: AnRo0002

Sapindaceae

A família Sapindaceae, à qual pertence o bordo, contém cerca de 143 géneros botânicos e perto de 2000 espécies, principalmente árvores e arbustos e, mais raramente, herbáceas. 

Alguns das espécies mais comuns e conhecidas desta família são: o guaraná (Paullinia cupana), o castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum), a árvore-da-chuva-dourada (Koelreuteria paniculata), o bordo-negundo (Acer negundo) e o ácer-do-Japão (Acer palmatum), entre outras.

O género Acer é um dos mais importantes géneros desta família, estando representado por aproximadamente 150 espécies. Os membros deste género ocorrem maioritariamente nas regiões temperadas do Hemisfério Norte, sendo a Ásia o continente com maior representatividade. Na Europa, América do Norte e no norte de África, também ocorrem algumas espécies deste grupo. 

Em Portugal, a família Sapindaceae está exclusivamente representada pelo género Acer, existindo apenas duas espécies nativas: a zelha (Acer monspessulanum) e o bordo (Acer pseudoplatanus). No entanto, são inúmeras as espécies exóticas desta família que ocorrem em território nacional, muitas delas comuns em jardins e outros espaços verdes, como é o caso do castanheiro-da-índia, do ácer-do-Japão, da árvore-da-chuva-dourada, entre outras.

Existem outras espécies, como o bordo-comum (Acer campestre), o bordo-de-granada (Acer opalus) e o bordo-negundo (Acer negundo), que facilmente se naturalizaram e têm algumas populações assilvestradas nas nossas florestas.

O bordo

O bordo é também vulgarmente conhecido como padreiro, zelha, falso-plátano e plátano-bastardo. Os dois últimos nomes devem-se à semelhança das suas folhas e da sua casca com as do género Platanus. A denominação científica Acer pseudoplatanus deve-se igualmente à proximidade morfológica.

Foto: Radio Tonreg/Wiki Commons

O nome do género Acer é o nome latino para o ácer (bordo) e também significa afiado, pontiagudo, pungente, tanto pela forma pontiaguda das folhas quanto pelo uso da sua madeira para fazer lanças. Segundo algumas fontes, os romanos usavam a madeira do bordo para o fabrico dessas armas.

O restritivo específico pseudoplatanus deriva do prefixo grego pseudo = pseudo, falacioso, enganador e do género Platanus, ou seja, falso-plátano, devido à semelhança das suas folhas e da sua casca.

É uma árvore de grande porte, que pode atingir até 30 metros de altura. Possui uma copa ampla, densa e ligeiramente irregular. Tem tronco reto, revestido por uma casca lisa e acinzentada, que se torna mais escura, escamosa e fendida, que se desprende em placas na idade adulta, lembrando a casca do plátano.

Foto: Marija Gajić

É uma espécie caducifólia, de folhas simples, opostas e palmadas, dividida em três a cinco lóbulos agudos e desiguais, sendo que o tamanho e o recorte das folhas variam com a idade. As árvores mais jovens, por exemplo, possuem folhas maiores e profundamente lobadas, com pecíolos avermelhados. Já os exemplares mais velhos apresentam folhas mais pequenas, com lóbulos menos profundos, sendo os lóbulos basais mais pequenos que os restantes. O pecíolo é mais curto e de cor verde-amarelada ou rosada.

A página superior das folhas desta árvore é lustrosa, glabra e verde-escura, enquanto que a inferior é mais clara, glauca ou avermelhada, com pelos ao longo das nervuras principais.

Foto: Zerocool.marko

 Quanto à floração do bordo, ocorre entre abril e maio. As flores são pequenas, hermafroditas ou unissexuais, de cor amarelo-esverdeado e de simetria radial. Têm pedúnculos longos e surgem em inflorescências densas de 60 a 100 flores, terminais e pendentes.

Por sua vez, os frutos aparecem no outono, e ocorrem geralmente aos pares, formando uma dupla sâmara ou dissâmara. A dissâmara é um fruto seco, glabro e alado, provido de asas membranosas, que são estreitas na base e amplas na extremidade, formando um ângulo de aproximadamente 90º entre si. 

Foto: AnRo0002/Wiki Commons

Os frutos do bordo são verdes a avermelhados quando jovens e tornam-se acastanhados quando maduros, mantendo-se na árvore durante muito tempo, mesmo depois da queda das folhas.

Uma espécie nativa

O Acer pseudoplatanus é a espécie do género Acer mais comum em toda a Europa. É uma espécie nativa da Europa Central, Bacia do Mediterrâneo, Cáucaso e Ásia Menor.

O bordo está presente em Portugal, sobretudo em áreas montanhosas, sendo mais comum a norte do Tejo. Embora seja uma espécie nativa, há também várias populações de origem não autóctone que facilmente se naturalizaram, tornando-se difícil atualmente distinguir as populações autóctones das naturalizadas.

Esta espécie também ocorre nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, onde foi introduzida no passado. Na Região Autónoma da Madeira, aliás, está classificada como espécie invasora.

Devido à sua plasticidade ecológica e capacidade de se adaptar a uma grande diversidade de habitats, o bordo também está listado como planta invasora em algumas regiões dos Estados Unidos da América, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha e Noruega.

Foto: AnRo0002/Wiki Commons

Esta é uma árvore rústica de sombra ou de meia sombra, que prefere as regiões montanhosas húmidas e exige boas precipitações, embora suporte bem o calor e a seca. É exigente a nível edáfico, sendo todavia indiferente ao pH, e é um bom indicador de solos férteis. O solo destas árvores deve ser fresco, profundo, bem drenado, fértil e rico em nutrientes.

É uma espécie resistente ao frio e às geadas tardias e também muito resistente ao vento, tolerando alguma exposição marítima. Aguenta bem a poluição atmosférica, sendo por isso muito usada em contexto urbano. E além disso, o bordo é uma espécie de crescimento rápido, que se estabelece rapidamente e pode viver entre 300 e 400 anos.

Ecologicamente trata-se de uma espécie muito importante, já que são vários os insetos que dependem desta árvore. Algumas espécies de lagartas de borboletas alimentam-se das suas folhas e as suas flores, muito melíferas, fornecem um precioso pólen a abelhas, borboletas e outros insectos, que também auxiliam na polinização do bordo.

Já a dispersão das sementes ocorre por ação do vento, pois as asas que envolvem as mesmas rodam com o vento durante a queda. Este mecanismo permite que as sementes sejam dispersas a longas distâncias.

Árvore ornamental de sombra

O bordo tem várias aplicações. É utilizado para fins ornamentais, geralmente isolado em parques e jardins, ou em alinhamentos em avenidas e alamedas. As folhas são vistosas, verdes na página superior, aveludadas e avermelhadas na parte inferior. No outono assumem tons de amarelo-dourado, laranja, vermelho ou castanho, criando um efeito visual único, antes de caírem. No verão, a sua copa ampla e a densa folhagem transformam-na numa excelente árvore de sombra.

Entre as espécies de áceres europeus, o bordo é aquele que tem a madeira mais valiosa, de grande qualidade e mais fácil de trabalhar, muito apreciada em tornearia, marcenaria e carpintaria. 

A madeira é leve, compacta, homogénea, brilhante, de cor branca a amarelo-dourada e lustrosa. É usada para a produção de móveis, revestimentos de paredes, estruturas para telhados, parquetes e para a produção de vários utensílios de cozinha (ex. colheres) e instrumentos musicais, especialmente violinos, e para culatras de armas de fogo. Fornece também um bom combustível.

Atualmente o bordo não é usado para fins medicinais ou outros usos terapêuticos. No entanto, sabe-se que no passado as folhas, os frutos e a casca das raízes foram muito utilizados na medicina tradicional, sendo-lhes atribuídas propriedades adstringentes e cicatrizantes.

As folhas eram usadas como colírio para tratamento de inflamações oculares, para evitar o choro involuntário, para cobrir feridas e tratar outros problemas da pele. Também eram usadas pelas suas capacidades isolantes, para dispor o peixe nos locais de venda ou para conservar produtos hortícolas como batatas ou maçãs.

Aproveite um passeio outonal para ver esta espécie em transformação.

As folhas estão a mudar de cor e os frutos são bastante particulares e divertidos. Apanhe um que esteja no chão e lance-o ao ar, vai ver como rodopia no ar até chegar novamente ao solo.  

Divirta-se e dê-nos a conhecer esse momento, partilhando as suas fotografias com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e #àdescobertadasplantasnativas.

Dicionário informal do mundo vegetal:

Naturalizada – espécie exótica que foi introduzida e que encontrou condições favoráveis para se expandir naturalmente na natureza, mantendo-se em equilíbrio com as espécies nativas durante muito tempo.
Caducifólia – planta cuja folha cai espontaneamente na estação do ano mais desfavorável.
Palmada – folha com a forma de uma mão com os dedos abertos.
Lóbulo ou lobo – parte do limbo da folha com recorte pouco acentuado e em regra arredondada.
Limbo – parte larga de uma folha normal.
Lobada – folha simples que possui margens profundamente recortadas que a dividem em pequenos lobos, no entanto, menores que a metade do limbo.
Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.
Glabra – sem pêlos.
Glauca – de cor verde-cinzenta-azulada.
Hermafrodita – flor que possui órgãos reprodutores femininos (carpelos) e masculinos (estames).
Unissexual – flor que possui apenas órgãos reprodutores femininos ou masculinos.
Pedúnculo – “Pé” que sustenta a inflorescência.
Inflorescência – forma com as flores estão agrupadas numa planta.
Sâmara – fruto seco, indeiscente e monospérmico, semelhante ao aquénio, mas com asa membranosa, alada.
Indeiscente – fruto que não se abre naturalmente quando maduro, não libertando as sementes.
Monospérmico – fruto que possui apenas uma semente.
Alada – apresenta uma estrutura específica – asa – que auxilia a dispersão pelo vento.

Carine Azevedo

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