(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Deparei-me, hoje, com uma publicação onde consta uma citação que reflecte muito daquilo por que venho lutando. Apesar de, aí, ser atribuída, erradamente, a um dos meus maiores influenciadores nos âmbitos da História, da Etnografia, da Etnologia e da Linguística, especialmente com as suas incomparáveis obras «Pueblos de España» e «El Carnaval», a verdade é que a mesma consta n’«O livro do riso e do esquecimento», do incomparável Milan Kundera. Mas adiante… E a citação, aqui na versão original, é esta (e todo o Trasmontano, particularmente o de Trás-os-Montes Oriental, deveria lê-la e relê-la!):
«O primeiro passo para liquidar um povo é apagar a sua memória. Destruir os seus livros, a sua cultura, a sua história. Então, tenha alguém a escrever novos livros, fabricando uma nova cultura, inventando uma nova história. Muito antes a nação começará a esquecer o que ela é e o que ela era. O mundo em volta esquecerá ainda mais rápido. A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.»
“Nim d’aprupósitu’e”, hoje também tive de me deparar com a «cartilha historiográfica do Estado Novo», que sempre reduziu a minha/nossa região a um mero apêndice dos conceitos contidos nos «lusitanos», nos «mouros», na «nacionalidade», na «reconquista», no «condado portucalense», nos «heróis» e, mais tarde, na «portugalidade». E tudo o que contrariasse esse conjunto de balofos conceitos era epitetado como «anti-nacional», e não valerá a pena referenciar o que acontecia a quem era catalogado como «anti-nacional»… Assim como «anti-nacional» era «falar mal Português», onde se incluía o Mirandés, o Guadramilés, o Rionorés, ou as diversas versões dos dialectos derivados do Ásturo-Leonês. Ou as manifestações de «Mascarados», vulgo «Caretos»… Salvaram-se os agora conhecidos como Pauliteiros, incluídos que foram no panorama do folclore nacional…
O que venho tentando fazer, por aqui e noutros âmbitos, é contrariar essa espécie de fatalidade. Que nos tenta reduzir a actores secundários, quando sempre fomos actores principais!!! Parecendo que há quem não fique muito agradado com isso... O que ainda mais me incentiva a defender o “falare da nh’ábó Maria”, bem como o Mirandés que deveria ser de todos nós! O que ainda mais me incentiva a defender a História ÚNICA que temos, as Figuras ÚNICAS que temos, o Património, Material e Imaterial, ÚNICOS que temos! Sem nunca menosprezar o orgulho que tenho em ser Português, mas sempre elevando a “proua” que tenho em ser de uma região Ásturo-Leonesa, com tradições Ásturo-Leonesas, com idiomas Ásturo-Leoneses, com genética Ásturo-Leonesa. E é isso que nos torna, não melhores nem piores, mas ÚNICOS!
Não sente, também, “proua” nisso?
“Zculpim qualquera cousinha”, como diria a “nh’ábó Maria”… Todavia, há paixões irreprimíveis…
(Foto: Valter Cavaleiro)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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