“Natura non facit saltus”, diziam os partidários do evolucionismo, e parece que é verdade.
Ora, da mesma forma que a natureza não dá saltos, também as cidades crescem paulatinamente, quase imperceptivelmente, por avanços subtis de que só se dá conta quando se encontram instalados e a funcionar. Se quiséssemos outra imagem para o mesmo fenómeno, poderíamos dizer que uma cidade é um pouco como um candeeiro da iluminação pública nas noites de verão. Emite sinais luminosos em todas as direcções, e este código radial vai atraindo irresistivelmente tudo quanto é borboleta, falena, traça, besouro, pernilongo, louva-a-deus, toda a variegada e irrequieta tropa-fandanga da bicheza miúda alada. Assim é que aos poucos vamos descobrindo que a cidade já tem mais isto e aquilo, coisas grandes e pequenas que ainda ontem não tinha e que contribuem, à sua maneira, para completar o tecido social urbano.
Vila Real não é excepção. Vai longe o tempo, por exemplo, em que era preciso ir ao Porto para consultas médicas especializadas. Hoje há médicos especialistas praticamente de tudo, e os que ainda faltam não tardarão a aparecer, atraídos pela luz nocturna desta cidade que, quando menos o esperarmos, terá setenta mil habitantes. Outro exemplo: ainda não vão grandes anos que seria considerada escandalosa, ofensiva mesmo, a instalação de igrejas protestantes. Hoje há uma boa meia dúzia delas, cada uma de sua confissão diferente, a vociferarem todas contra as malas-artes do diabo e a prometerem todas, em concorrência com a católica apostólica romana, a salvação eterna.
Quer dizer: a cidade vai crescendo.
As coisas não aparecem, contudo, e como fica dito, caídas do céu aos trambolhões. Aparecem porque são requeridas pelo próprio crescimento das cidades. E acaba por ser uma espécie de círculo vicioso: as coisas aparecem porque a cidade cresce, a cidade cresce porque as coisas aparecem.
Ora, parece mais ou menos estabelecido pelos senhores psiquiatras que a vida em aglomerados urbanos de uma certa dimensão tende a criar neuroses, logo infelicidade. Que admira, pois, que uma destas tardes os vila-realenses tenham deparado com um adolescente a distribuir na rua panfletos de propaganda a uma Astróloga Espírita? Sim, que admira? Não é função destas especialistas erradicar a infelicidade, repor a ordem na saúde, no amor, nos negócios ‘e tutti quanti’? Foi mais uma falena atraída pela luz do crescimento desta cidade à beira-Corgo. O mais que não virá!
É certo que Vila Real tinha já praticantes notavelmente eficazes disto a que chamarei eufemisticamente psicologia-psiquiatria alternativa. Mas uma «astróloga formada e diplomada pela Fraterna Ordem dos Três Reis Magos», capaz de jogar «cartas e búzios» e de fazer «qualquer tipo de trabalho perante a pessoa», isso é que creio ser novidade por estas bandas. É mais um sinal de progresso que chegou, óbvio e natural, na altura em que a cidade estava madura para ele. As velhas mulheres de virtude, que responsavam e defumavam, talhavam o ar e desempeciam, vão dando o lugar a magas diplomadas por enigmáticos, herméticos institutos. Assim crescem as cidades.
Confesso que nunca recorri a astrólogos nem bruxos, nem parapsicólogos, nem cartomantes, nem clarividentes nem quiromantes, possivelmente porque afortunadamente as minhas infelicidades nunca foram tamanhas que eu não pudesse bem com elas. Mas, pelo sim pelo não, vou reter no meu livrinho de apontamentos o nome desta prestimosa senhora. Ela resolve, a fazer fé no panfleto, todos os problemas de «negócios, amor, comércio, indústria, lavoura, inveja, atrapalho, saúde, casamento difícil». É certo que em negócios, comércio, indústria e lavoura não me meto: o meu ofício é outro. O meu casamento não é difícil porque é alicerçado em amor. Inveja de mim acho que ninguém tem, nem eu tenho de ninguém. A saúde, graças a Deus, não me tem faltado. Mas atrapalhos, mais devagar. A gente nunca está livre de, ao sair de casa, se lhe levantar um atrapalho debaixo dos pés.
Bendita falena esta, que o candeeiro atraiu. Ainda bem que Vila Real cresce!
Ora, da mesma forma que a natureza não dá saltos, também as cidades crescem paulatinamente, quase imperceptivelmente, por avanços subtis de que só se dá conta quando se encontram instalados e a funcionar. Se quiséssemos outra imagem para o mesmo fenómeno, poderíamos dizer que uma cidade é um pouco como um candeeiro da iluminação pública nas noites de verão. Emite sinais luminosos em todas as direcções, e este código radial vai atraindo irresistivelmente tudo quanto é borboleta, falena, traça, besouro, pernilongo, louva-a-deus, toda a variegada e irrequieta tropa-fandanga da bicheza miúda alada. Assim é que aos poucos vamos descobrindo que a cidade já tem mais isto e aquilo, coisas grandes e pequenas que ainda ontem não tinha e que contribuem, à sua maneira, para completar o tecido social urbano.
Vila Real não é excepção. Vai longe o tempo, por exemplo, em que era preciso ir ao Porto para consultas médicas especializadas. Hoje há médicos especialistas praticamente de tudo, e os que ainda faltam não tardarão a aparecer, atraídos pela luz nocturna desta cidade que, quando menos o esperarmos, terá setenta mil habitantes. Outro exemplo: ainda não vão grandes anos que seria considerada escandalosa, ofensiva mesmo, a instalação de igrejas protestantes. Hoje há uma boa meia dúzia delas, cada uma de sua confissão diferente, a vociferarem todas contra as malas-artes do diabo e a prometerem todas, em concorrência com a católica apostólica romana, a salvação eterna.
Quer dizer: a cidade vai crescendo.
As coisas não aparecem, contudo, e como fica dito, caídas do céu aos trambolhões. Aparecem porque são requeridas pelo próprio crescimento das cidades. E acaba por ser uma espécie de círculo vicioso: as coisas aparecem porque a cidade cresce, a cidade cresce porque as coisas aparecem.
Ora, parece mais ou menos estabelecido pelos senhores psiquiatras que a vida em aglomerados urbanos de uma certa dimensão tende a criar neuroses, logo infelicidade. Que admira, pois, que uma destas tardes os vila-realenses tenham deparado com um adolescente a distribuir na rua panfletos de propaganda a uma Astróloga Espírita? Sim, que admira? Não é função destas especialistas erradicar a infelicidade, repor a ordem na saúde, no amor, nos negócios ‘e tutti quanti’? Foi mais uma falena atraída pela luz do crescimento desta cidade à beira-Corgo. O mais que não virá!
É certo que Vila Real tinha já praticantes notavelmente eficazes disto a que chamarei eufemisticamente psicologia-psiquiatria alternativa. Mas uma «astróloga formada e diplomada pela Fraterna Ordem dos Três Reis Magos», capaz de jogar «cartas e búzios» e de fazer «qualquer tipo de trabalho perante a pessoa», isso é que creio ser novidade por estas bandas. É mais um sinal de progresso que chegou, óbvio e natural, na altura em que a cidade estava madura para ele. As velhas mulheres de virtude, que responsavam e defumavam, talhavam o ar e desempeciam, vão dando o lugar a magas diplomadas por enigmáticos, herméticos institutos. Assim crescem as cidades.
Confesso que nunca recorri a astrólogos nem bruxos, nem parapsicólogos, nem cartomantes, nem clarividentes nem quiromantes, possivelmente porque afortunadamente as minhas infelicidades nunca foram tamanhas que eu não pudesse bem com elas. Mas, pelo sim pelo não, vou reter no meu livrinho de apontamentos o nome desta prestimosa senhora. Ela resolve, a fazer fé no panfleto, todos os problemas de «negócios, amor, comércio, indústria, lavoura, inveja, atrapalho, saúde, casamento difícil». É certo que em negócios, comércio, indústria e lavoura não me meto: o meu ofício é outro. O meu casamento não é difícil porque é alicerçado em amor. Inveja de mim acho que ninguém tem, nem eu tenho de ninguém. A saúde, graças a Deus, não me tem faltado. Mas atrapalhos, mais devagar. A gente nunca está livre de, ao sair de casa, se lhe levantar um atrapalho debaixo dos pés.
Bendita falena esta, que o candeeiro atraiu. Ainda bem que Vila Real cresce!
| Repórter do Marão, 17 de Maio de 1991 |

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