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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 13 de novembro de 2022

LÁGRIMAS EMIGRADAS II e III

 Por: Luís Abel Carvalho
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

...continuação

A casa de Dos Santos tinha apenas dois compartimentos: a sala, onde a um canto ficava a lareira , separada pelo escano e o quarto, separado por umas toscas e carunchosas tábuas ao alto. A mobília não existia:  apenas uma mesa com três cadeiras, por cima da qual estava pendurado o Sagrado Coração de Jesus, próximo da Última Ceia. Ao lado da lareira havia o louceiro, que Maria enfeitava todas as Páscoas com papel novo colorido, cortado aos biquinhos e colado com miolo de pão e saliva. No fundo estavam dois cântaros de barro, tapados com rolhas de cortiça. Entre a lareira e o louceiro, havia a pilheira, onde se guardavam miudezas, tais como:  a azeiteira, a garrafa do vinagre, os “ fosfres”(palitos), o saleiro, o lampião a petróleo e a bola de unto, para temperar o caldo.
          Do outro lado fivava o quarto, cuja entrada  era um pano florido. O quarto era dividido por uma cortina de chita. A cama dos rapazes era uma velha enxerga de palha, amarelada pelas vezes que as crianças a mijaram. Assentava em quatro toscos barrotes, onde abundavam os percevejos, que  Maria estorricava com a luz da candeia. Os dois mais novos dormiam para a cabeceira e o mais velho para os pés. Ao luzir da telha, o mais velho ia para junto dos irmãos e disputavam a atenção do mais pequeno. “ Zézinho, bira-te pra mim, pedia-lhe  o mais velho. Óh...bira-te pra mim, pedia o outro. Respondia-lhes o pequenito com a justiça de Salomão: “ Ponto. No bio pa nium. Bio pó chéu”.
          Ao lado da cama da Maria havia uma mesinha de cabeceira, com uma lamparina de azeite constantemente acesa que alumiava a imagem do Santo Padre Cruz.
         Nessa noite, Dos Santos não brincou de roda com os filhos e nem ao soldadinho; deu-lhes apenas um beijo quando lhe pediram a benção de boas noites. Maria despiu os mais novos e foi deitar os três. Pegou na mãozita do mais novito e fez com ele o sinal da cruz e rezaram todos com ela um Pai-Nosso e uma Avé-Maria ao Santo Padre Cruz, para que lhes protegesse o Pai e lhe desse saúde para ganhar o sustento de todos.
         Quando saiu do quarto, viu o seu homem pensativo, sentado no escano. Sentiu um suor frio pela espinha acima e abraçou o marido de lágrimas nos olhos e implorou-lhe:
         - Num te bás imbora. Por amor àqueles três inocentes, num te bás imbora.
         - Não, mulher. É por bia dos nossos filhos que ´stou desposto a enfrentar tudo – disse numa voz trémula e com uma certa raiva. – Já tanho o dnheiro e podes confiar – acrescentou de dentes cerrados – no birei  imbora imentes num pagarmos tudo o que debemos, inté ó último tostão.  
         Maria sentiu que não havia nada a fazer,  conhecendo-lhe bem o feitio teimoso, a não ser abraçar o seu único homem na vida, o homem por quem, um dia, rasgara os papéis que tinha para ir para o Brasil, para junto de uma irmã. Sentiu que iria ficar sem ele, que iria enfrentar um mundo horrível, sozinha, apenas com três crianças que nessa altura já dormiam o sono dos inocentes. Sentiu logo ali, naquele momento, a solidão que a iria definhar , as noites sem amor, as insónias e as voltas na cama fria, até chegar o dia. Sentiu tudo isso e chorou com o coração apertado, como protesto contra a vida dura e cruel, que lhe levava o homem dos seus sonhos, do seu coração, do seu amor, sabia Deus se para sempre. Chorou também pelo passado de miséria, pelas tantas vezes que disse não aos filhos, quando estes lhe pediam um bocadinho de pão.  Chorou por tudo isso mas, principalmente, pelo futuro incerto, por um futuro onde não haveria o braço forte do homem, a sua voz que acalmava e dava esperança e conforto.
         Terça feira logo de manhã cedo, Dos Santos  saiu a cavalo no burro e levou com ele o Zezinho. Andaram todo o dia pelo campo, a visitar os pedacinhos de terra que tinha herdado, mas que eram insuficientes para garantir a sobrevivência da família. De vez em quando o Zezinho lançava-lhe  um olhar meigo, interrogativo e para Dos Santos, cada olhar era um punhal que se lhe cravava na garganta. Olhava as amendoeiras já sem flor e com o amendruco já a crescer; as videiras também se vestiam já, timidamente, de olhos pequenos e verdes, de onde sairiam os deliciosos cachos; o trigo e o centeio seguiam também o seu ritmo normal de crescimento. Havia no ar um aroma a primavera. O campo, naquela época do ano, era um convite à harmonia, uma necessidade de agradecer à Natureza a perfeição – perfeição que os homens egoístas e sem escrúpulos, manchavam impunemente com os seus crimes absurdos. O musgo cobria as fragas como um tapete e as azedas cresciam com as silvas nas paredes, sem autorização dos “ Grandes Homens “, como que a desafiar a sua autoridade e a sua prepotência.
          Os ribeiros cantavam as suas melodiosas e alegres canções, já sem a aflição dos cânticos de inverno. O chilrear dos passarinhos enchiam de cor e luz o azul límpido do Universo. O vento era suave e apetecia expor o rosto à brisa, para uma carícia.
         Comeram por lá a merenda, sentados numa fraga  ao sol suave do dia.  Dos Santos olhou demoradamente para o filho e sentiu um nó enrolar-se-lhe no estômago e subir-lhe à garganta, que o sufocava.
          Quando chegaram acasa, já ao entardecer, Dos Santos viu a um canto uma taleiga grande, feita de remendos de pano de várias cores, cheia de roupa e alguma comida.  Comeram todos calados. Até os mais novos pareciam adivinhar a desgraça que se abatera nas suas vidas. Enquanto Maria lavava as malgas e os pratos da ceia, Dos Santos desceu à loja, deitar feno ao burro, porque não aguentava tanta tristeza no rosto e no olhar dos filhos. Maria pediu aos filhos que fossem dar as boas-noites ao Pai e pedir-lhe a benção. Dos Santos abraçou um a um com emoção e beijou-os na face. Os filhos sairam pesarosos e Dos Santos chorou amargamente encostado à manjedoura.
          Maria foi deitá-los e rezou com eles umas orações para que Jesus olhasse pelo Pai. Desceu à loja, onde se respirava um ar quente e macio a estrume e a feno, acolhedor. Encontrou o seu homem sentado numa faixa de palha. Sentou-se a seu lado, silenciosa, e fizeram amor entre a palha e o feno quente. Maria entregou-se como se fosse pela última vez e fizeram amor novamente, na esperança de que essa noite não terminasse jamais. Adormeceram com Maria deitada no ombro de Dos Santos. Foi a noite que  nunca esqueceu; a noite que eu próprio não esquecerei, pois foi a noite em que fui gerado!

(Dos Santos, Filho)
Fontes de Carvalho

Pode ler AQUI LÁGRIMAS EMIGRADAS I

Fontes de Carvalho
, pseudónimo de Luís Abel Carvalho, nasceu no Larinho, uma aldeia transmontana do Concelho de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança. É o filho do meio de três irmãos.
Estudou em Moncorvo, Bragança e no Porto, onde se formou em Engenharia Geotécnia. É casado e Pai de três filhos.
Viveu no Brasil, onde passou por momentos dolorosos e de terror, a nível económico e psicológico. Chegou a viver das vendas de artesanato nas ruas e a dormir debaixo de Viadutos.
No ano de 1980 e 1981 foi Professor de Matemática em Angola, na Província de Kwanza Sul, em Wuaku-Kungo. Aí aprendeu a desmistificar certos mitos e viveu uma realidade muito diferente da propagandeada.
Em Portugal deu aulas de Matemática em diversas cidades, nomeadamente em São Pedro da Cova, Ponte de Lima, Cascais (na Escola de Alcabideche, onde deu aulas aos presos da cadeia do Linhó), Alcácer do Sal, Escola Francisco Arruda e Luís de Gusmão, em Lisboa. Frequentou durante quatro anos, como trabalhador-estudante, o curso de Engenharia Rural, no Instituto Superior de Agronomia.
Em 1995 fundou a empresa Bioprimática – Reciclagem de Consumíveis de Informática, onde trabalha até hoje como sócio-gerente.

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